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2010-2020: Dez Anos de Materialidades da Literatura

2010-2020: Dez Anos De Materialidades Da Literatura

Em junho de 2020, o Programa de Doutoramento em Materialidades da Literatura (DML) da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra completará dez anos de atividade contínua. A conferência inaugural foi proferida por Lev Manovich a 18 de junho de 2010, e a primeira aula foi lecionada a 1 de outubro de 2010. Imaginado inicialmente como um grande projeto de investigação especulativa a partir da pergunta “O que são as Materialidades da Literatura?”, não era certo que o Programa se conseguisse afirmar, dado o contexto de crise financeira nacional em que nasceu e dado o modo como a recessão se repercutiu nas Humanidades um pouco por todo o mundo.

Concebido no verão de 2009 como um novo campo de investigação e ensino por um grupo de docentes da Faculdade de Letras, o Programa foi acreditado pela A3ES a 9 de junho de 2010 e teve a sua primeira edição no ano letivo 2010-2011. Em abril de 2013, foi selecionado por um painel internacional de peritos para financiamento como Programa de Doutoramento FCT no concurso realizado nesse ano. Este financiamento permitiu consolidar progressivamente a nova área de investigação, atraindo um conjunto significativo de jovens investigadores em estudos literários. Além das 25 bolsas de doutoramento FCT atribuídas entre 2014 e 2018 no âmbito do concurso, foram ainda conseguidas 3 bolsas individuais FCT e 3 bolsas individuais CAPES, num montante de financiamento que ultrapassa 1,6 milhões de euros.

Aos 31 estudantes integralmente financiados, juntam-se outros 16 estudantes-trabalhadores que suportam o custo da sua formação. Com 47 projetos de doutoramento registados (dos quais 10 já concluídos), o DML tem contribuído para renovar a investigação literária em Portugal e sintonizá-la com novos problemas, objetos e métodos. Refiram-se, por exemplo, a introdução de temas de investigação como a poesia sonora ou a gravação de leituras de poesia. Em certos domínios, por exemplo na análise da literatura digital, é já considerado um programa de referência internacional, como testemunham a participação na organização do congresso e festival de 2017 da Electronic Literature Organization (realizado no Porto) e a publicação de cinco entradas por doutorandos do DML no The Bloomsbury Handbook of Electronic Literature (2017).

Deve sublinhar-se ainda um aspeto essencial do Programa: a experimentação com formas de organização e de funcionamento, a nível curricular e extracurricular, que contribuam para diversificar as competências de formação e aumentar a qualidade da investigação realizada. Estruturado sob a forma de grupo de investigação e subdividido em projetos, o DML desenvolveu um conjunto de práticas colaborativas, quer internas ao Programa, quer através de redes externas de intercâmbio que envolveram duas dezenas de instituições na Europa (Espanha, França, Itália, Irlanda, Reino Unido, Alemanha, Noruega, Suécia, Grécia), América do Norte (EUA), América do Sul (Brasil, Chile) e África (Gana). Além de estadas internacionais de investigação dos doutorandos, o DML recebeu sete dezenas de especialistas nacionais e internacionais – académicos e artistas – ao longo da última década para lecionarem seminários ou proferirem conferências. Acolhemos também uma dezena de estudantes de doutoramento internacionais para trabalharem sob orientação de docentes do Programa durante um semestre, e diversos investigadores de pós-doutoramento em tópicos afins aos do Programa (análise literária computacional, narrativa transmédia, poesia experimental).

Organizámos e coorganizámos mais de uma dezena de conferências nacionais e internacionais, entre as quais, “Estranhar Pessoa com as Materialidades da Literatura” (2012), “Estudos Literários Digitais” (2015), “1º Congresso de Humanidades Digitais em Portugal” (2015), “Variações sobre António: Um Colóquio em torno de António Variações” (2017) e “Ensino da Literatura Digital” (2019). No que se refere a encontros científicos, os doutorandos apresentaram cerca de 200 comunicações em contexto nacional e internacional. Publicaram ainda cerca de 60 artigos (incluindo recensões críticas de novas obras) em 40 revistas académicas. Foram também curadores ou participantes numa dezena de exposições relacionadas com temas de investigação do Programa, em diversas cidades (Coimbra, Porto, Lisboa, Vila Franca de Xira, Évora, Óbidos). Os doutorandos tiveram ainda a seu cargo a concetualização e realização de cursos breves, escolas de verão e oficinas nas quais testaram os resultados da sua investigação através da didatização de novos temas. Destaque-se, por fim, o trabalho editorial numa nova revista científica eletrónica, MATLIT: Materialidades da Literatura (e-ISSN 2182-8830; 11 números publicados desde 2013, num total de 205 artigos), que tem contribuído para o diálogo internacional com inúmeros investigadores noutros contextos institucionais, disciplinares e geográficos.

Nascido no contexto pós-departamentalização da Faculdade, que determinou a agregação das diversas áreas disciplinares de línguas, literaturas e culturas (Estudos Clássicos, Línguas Modernas e Português), o novo Programa propunha-se olhar para as práticas literárias a partir da intersecção de três perspetivas: uma perspetiva medial e transmedial, que considera as tecnologias mediais como dispositivos de inscrição literária (imprensa, gravação sonora, computador digital, cinema, etc.); uma perspetiva translinguística e transcultural, cujo foco de abordagem vai para além dos tradicionais sintagmas nacionais (literatura inglesa, portuguesa, alemã, etc., mesmo nas versões comparatistas); e uma perspetiva interdisciplinar, que reconfigura a análise e a teoria literárias a partir da intersecção com diversas outras práticas disciplinares como o design de comunicação, as humanidades digitais, os estudos fílmicos, os estudos do livro ou a arqueologia dos média.

Uma medida do cumprimento das intenções iniciais do DML e do sucesso desta década de intensa atividade estaria nos percursos pós-doutoramento: investigadora visitante na Universidade de Stanford; três bolseiros de pós-doutoramento (Unicamp, Brasil; Universidade de Bremen, Alemanha, Marie Curie Fellowship; Universidade Fernando Pessoa, Portugal); docente convidado na Universidade de Aveiro; bolsa da Cátedra Cascais Interartes (Fundação D. Luís I); leitora do Instituto Camões (UNAM, México); docente do ensino básico e secundário. Outra medida seria a publicação de livros por investigadores do Programa: Literatura Explicativa: Ensaios sobre Ruy Belo (Assírio & Alvim, 2015), organizado por Manaíra Aires Athayde; Digital Media and Textuality: From Creation to Archiving (transcript verlag, 2017), organizado por Daniela Côrtes Maduro; Almada Negreiros, Orpheu 1915-1965 (Vittoria Iguazu, 2017), traduzido para italiano por Giorgia Casara; ou Herberto Helder, Em Minúsculas (Porto Editora, 2018), coorganizado por Raquel Gonçalves. Ou ainda: a atribuição do Prémio Mário Quartin Graça 2018 da Casa da América Latina, na categoria de melhor tese em Ciências Sociais e Humanas, a uma tese em Materialidades da Literatura.

Retrospetivamente, o DML pode descrever-se como a conjugação de três processos simultâneos e interligados: por um lado, consiste num grande projeto colaborativo (e prolongado no tempo) que tenta responder à mega-pergunta inicial através das perguntas de investigação circunscritas de cada tese de doutoramento (veja-se a série de vídeos “MATLIT em 90 segundos”); por outro lado, é uma tentativa de construir uma perspetiva de conhecimento humanístico num contexto pós-digital, olhando criticamente para a relocalização da experiência literária numa ecologia medial em transformação e, ao mesmo tempo, mostrando a relevância social dessa perspetiva; por outro lado ainda, diz respeito ao desenvolvimento de uma pedagogia projetual em investigação literária avançada, na qual as componentes de investigação científica, criação artística e transferência de conhecimento vão sendo tentativamente exploradas em múltiplas constelações. O MATLIT LAB: Laboratório de Humanidades, criado em 2019, é, de certo modo, uma tentativa de explicitar reflexivamente aquela tripla conjugação: um campo de investigação + uma epistemologia humanista numa ecologia medial em transformação + uma reimaginação dos usos das humanidades. Isto significa que uma década de desenvolvimento do DML consistiu afinal na formulação, através da prática, de uma outra pergunta que não estava totalmente evidente na pergunta inicial: o que é que um programa de doutoramento em Humanidades pode ser?

Fonte: 2010-2020: Dez Anos de Materialidades da Literatura

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