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A comunidade científica está publicando (muito) mais e isso é um problema

Publicado em: A comunidade científica está publicando (muito) mais e isso é um problema

Por Lilian Nassi-Calò

A dificuldade que enfrentam editores de periódicos para encontrar pareceristas qualificados para realizar a avaliação por pares é consequência, em parte, do aumento exponencial do número de artigos publicados e da desproporção na formação de novos pesquisadores para avaliar estes trabalhos.

Este aumento na produção de artigos científicos tem numerosas causas potenciais, que incluem os efeitos positivos de eliminar vieses de publicação e esforços para tornar a publicação científica mais acessível no Sul Global, como também práticas prejudiciais como “fábricas de artigos” de qualidade contestável que geram retratações em massa ou a publicação “predatória”, contra a qual, infelizmente, é apenas possível tornar públicas suas práticas antiéticas.

Independente da causa, a produção científica por pesquisador, que exerce as funções de autor, parecerista e editor, aumentou drasticamente e a este fenômeno, o artigo The strain on scientific publishing1 postado como preprint no arXiv por Mark Hanson, et al. denomina “a pressão sobre a publicação científica (the strain on scientific publishing)” e a classifica como um problema a ser identificado e resolvido.

Para identificar os fatores que contribuem para esta pressão, os autores coletaram dados dos principais publishers acadêmicos e utilizaram cinco métricas para compreender e identificar as origens do fenômeno. Ademais, analisaram se os modelos de negócio dos publishers e aspectos a estes relacionados contribuem de alguma forma para o aumento da produção científica.-

O triângulo da publicação científica

A Figura 1 ilustra as interações entre publishers, pesquisadores e financiadores descrita por Hanson et al.1:

 

Imagem: NASSI-CALÒ, L.

Figura 1. Interações entre publishers, pesquisadores e financiadores, segundo Hanson, et al.1

 

É possível justificar os incentivos para pesquisadores e publishers em aumentar a publicação científica, pois gera para os primeiros, prestígio acadêmico, e para os últimos, receita financeira. A dificuldade é definir qualidade, pois é bem conhecido o fato de métricas baseadas em citações terem sido abusadas e consequentemente desaconselhadas.

As cinco métricas mencionadas acima usadas pelos autores para análise da produção científica na última década, mais especificamente o período 2016-2022, pois para o período pré-2016, alguns dos dados não estavam totalmente disponíveis, são:

  • Número total de artigos indexados em ambos Scopus e Web of Science;
  • Fração de artigos publicados como edições especiais;
  • Tempo de resposta do editor (da submissão à aprovação);
  • Taxa de rejeição de artigos, como definido pelos publishers; e
  • “Inflação do impacto”, uma nova métrica criada pelos autores do estudo, com base no comportamento das citações aos periódicos.

A base de dados foi composta por periódicos indexados na base Scopus (Elsevier), por meio do Scimago, que também estão indexados na Web of Science (Clarivate Analytics).

Publishers que publicam mais periódicos e mais artigos

Em 2022, houve um aumento significativo no número de artigos indexados, com aproximadamente 896.000 artigos a mais publicados em comparação com 2016, representando um crescimento anual de cerca de 5,6%. Este crescimento foi impulsionado principalmente por grandes publishers, como Elsevier, Multidisciplinary Publishing Institute (MDPI), Wiley-Blackwell (Wiley), Springer e Frontiers Media.

Entre os principais publishers, Elsevier e Springer possuem um número significativo de periódicos, e este número vem aumentando na última década. Após normalizar a produção de artigos por periódico, com o objetivo de dissociar grandes grupos como Springer e Elsevier do aumento global de artigos, foi possível concluir que MDPI e Frontiers tiveram um aumento desproporcional no número de artigos publicados por periódico, e a Elsevier registrou um ligeiro aumento desta proporção.

Em suma, o crescimento no total de artigos publicados nos últimos anos pode ser atribuído a dois mecanismos diferentes. Elsevier e a Springer se expandiram distribuindo artigos em um número cada vez maior de periódicos, enquanto MDPI e Frontiers aumentaram exponencialmente o número de artigos publicados por um grupo menor de periódicos.

Crescimento das edições especiais

Alguns publishers têm se baseado cada vez mais em “edições especiais” como forma de publicar uma parte significativa de seus artigos. Estas edições especiais são diferentes dos artigos padrão porque são convidadas por periódicos ou editores, em vez de serem enviadas independentemente pelos autores. Esta tendência levantou preocupações de que os publishers possam explorar este modelo para obter lucro. Entre 2016 e 2022, a proporção de artigos de edições especiais aumentou significativamente em publishers como Hindawi, Frontiers e MDPI, que dependem das taxas de processamento de artigos (APCs) para obter receita.

Tempos de resposta

O artigo discute os tempos de resposta dos editores, que se refere ao tempo decorrido desde a submissão até a aprovação do artigo. Publishers diferentes empregam tempos médios de retorno variáveis. Por exemplo, a MDPI adotou em 2022 um tempo médio de resposta notavelmente curto, de cerca de 37 dias, enquanto Frontiers e Hindawi têm tempos de resposta mais longos. Alguns publishers também estão experimentando uma diminuição nos tempos de resposta, indicando que os artigos estão sendo processados segundo períodos mais uniformes.

Taxas de rejeição de periódicos

A relação entre as taxas de rejeição e a qualidade dos artigos é complexa. Embora altas taxas de rejeição não reflitam necessariamente maior rigor, os publishers Hindawi e MDPI, cujos periódicos têm mais artigos em edições especiais, também tem menores taxas de rejeição. E esta observação se confirmou em uma tendência: considerando um determinado publisher, as taxas de rejeição tendem a diminuir na medida em que se aumenta a publicação de edições especiais. As taxas de rejeição variam entre publishers, e os dados mostram que estas taxas são, em grande parte, específicas do publisher. Os autores do estudo, ademais, não conseguiram correlacionar taxas de rejeição em nenhum dos publishers com qualquer outra métrica investigada.

Inflação do fator de impacto

O Fator de Impacto (FI), que reflete o número de citações por artigo nos dois anos anteriores, aumentou em todos os publishers nos últimos anos. Este aumento se deve, em parte, a um crescimento exponencial no total de referências por documento entre 2018-2021. Como mencionado anteriormente, o FI e outras métricas baseadas em citações são utilizadas tanto por pesquisadores como por publishers como selos de prestígio. No entanto, estas métricas podem ser abusadas por padrões de autocitação (Fig. 1).

Por meio de uma análise sistemática, os autores utilizaram o indicador Cites/Doc da base Scimago como proxy do FI da Clarivate e compararam valores de Cites/Doc à métrica baseada em rede Scimago Journal Rank (SJR). A diferença entre ambos os índices de Scimago é que SJR representa o máximo de prestígio que pode ser obtido de uma única fonte. Desta forma, autocitações provenientes do periódico ou de “cartel de citações” podem aumentar o indicador Cites/Doc e o FI, porém não afetam o SJR. Define-se, portanto, a razão entre Cites/Doc e SJR (ou FI) como a “inflação do impacto”.

A inflação do impacto varia significativamente entre os publishers e tem aumentado nos últimos anos. Em 2022, MDPI e Hindawi tiveram uma inflação de impacto significativamente maior em comparação com outros publishers. O motivo por trás da inflação de impacto anômala na MDPI é atribuído a um aumento substancial na autocitação dos periódicos da MDPI durante o período do estudo. Além das autocitações dentro do periódico, as publicações do grupo MDPI receberam aproximadamente 29% de suas citações de outros periódicos de seu próprio publisher. Este comportamento de autocitação pode contribuir para a inflação do Fator de Impacto.

O estudo ressalta a importância da inflação do impacto como uma métrica para avaliar os padrões de citação de periódicos. Ela ajuda a identificar padrões de autocitação e o grau em que os periódicos dependem de citações internas para aumentar seu impacto.

Como abordar a pressão sobre a publicação científica?

O aumento exponencial de artigos indexados na última década criou uma pressão significativa sobre o sistema de publicação científica. Esta pressão tem várias dimensões, incluindo o tempo e os recursos necessários para redigir e revisar artigos, bem como os encargos associadas e as APCs.

O fenômeno observado é o resultado da interação de várias partes interessadas. Financiadores buscam um bom retorno sobre seus investimentos, enquanto os pesquisadores são pressionados a publicar (e receber citações) o máximo possível em periódicos de prestígio. Os publishers desempenham um papel central, e há preocupações sobre até que ponto o lucro motiva seu comportamento.

Embora o crescimento de artigos seja uma tendência comum entre os publishers, há variações nas estratégias empregadas. Para publishers tradicionais e há mais tempo no mercado, como Elsevier e Springer, o crescimento é impulsionado por aumentos moderados no total de periódicos e de artigos por periódico. Alguns publishers de acesso aberto com fins lucrativos dependem (das APCs) de artigos publicados em edições especiais, geralmente associados a tempos de resposta reduzidos, alta inflação de impacto e taxas de rejeição mais baixas. A pressão gerada por cada uma destas estratégias é comparável entre si.

O publisher MDPI se destaca como um caso atípico em várias métricas, incluindo o rápido crescimento de artigos indexados, uma alta proporção de artigos de edições especiais, tempos de resposta curtos, taxas de rejeição reduzidas, alta inflação de impacto e taxas significativas de autocitação. O estudo enfatiza a singularidade da contribuição do MDPI para a pressão sobre a publicação.

O estudo sugere que o enfrentamento da pressão sobre a publicação científica pode envolver ações de várias partes interessadas. Os financiadores podem desempenhar um papel relevante ao adotar políticas que enfatizem a qualidade da pesquisa em detrimento da quantidade de artigos, o que pode ajudar a reduzir a pressão do publique ou pereça (publish or perish) sobre os pesquisadores. Pode ser necessário atuar sobre publishers e comportamentos específicos em vez de se concentrar nos modelos de publicação. A redução do número de artigos publicados em edições especiais é uma abordagem possível. Os autores sugerem que a ação coletiva da comunidade de pesquisadores, ou diretrizes de financiadores ou comitês de ética, poderia levar a que menos artigos sejam publicados em edições especiais. Ademais, incentivam que publishers, pesquisadores e financiadores participem de discussões com o objetivo de reduzir a pressão sobre a publicação científica e trabalhar em prol de uma infraestrutura de publicação mais sustentável.

Nota

HANSON, M.A., et al. The strain on scientific publishing. arXiv. 2023 [viewed 29 November 2023]. https://doi.org/10.48550/arXiv.2309.15884. Available from: https://arxiv.org/abs/2309.15884

Referências

FIRE, M. and GUESTRIN, C. Over-optimization of academic publishing metrics: observing Goodhart’s Law in action. Gigascience [online].2019, vol. 8, no. 6, giz053 [viewed 29 November 2023]. https://doi.org/10.1093/gigascience/giz053. Available from: https://academic.oup.com/gigascience/article/8/6/giz053/5506490

HANSON, M.A., et al. The strain on scientific publishing. arXiv. 2023 [viewed 29 November 2023]. https://doi.org/10.48550/arXiv.2309.15884. Available from: https://arxiv.org/abs/2309.15884

HICKS, D., et al. Bibliometrics: The Leiden Manifesto for research metrics. Nature [online]. 2015, vol. 520, no 7548, pp. 429-431 [viewed 29 November 2023]. https://doi.org/10.1038/520429a. Available from: http://www.nature.com/news/bibliometrics-the-leiden-manifesto-for-research-metrics-1.17351

Links externos

arXiv: https://arxiv.org/

DORA – San Francisco Declaration on Research Assessment (DORA): https://sfdora.org/

 

Sobre Lilian Nassi-Calò

Lilian Nassi-Calò é química pelo Instituto de Química da USP e doutora em Bioquímica pela mesma instituição, a seguir foi bolsista da Fundação Alexander von Humboldt em Wuerzburg, Alemanha. Após concluir seus estudos, foi docente e pesquisadora no IQ-USP. Trabalhou na iniciativa privada como química industrial e atualmente é Coordenadora de Comunicação Científica na BIREME/OPAS/OMS e colaboradora do SciELO.

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

NASSI-CALÒ, L. A comunidade científica está publicando (muito) mais e isso é um problema [online]. SciELO em Perspectiva, 2023 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2023/11/29/a-comunidade-cientifica-esta-publicando-muito-mais-e-isso-e-um-problema/

Fonte: A comunidade científica está publicando (muito) mais e isso é um problema
Feed: SciELO em Perspectiva
Url (Fonte): blog.scielo.org
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