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Agentes de IA, bots e GPTs acadêmicos

Publicado em: Agentes de IA, bots e GPTs acadêmicos

Por Rafael Cardoso Sampaio

Imagem: Google DeepMind.

Em um post anterior (ChatGPT e outras IAs transformarão toda a pesquisa científica: reflexões iniciais sobre usos e consequências – parte 1),1 eu e alguns colegas apresentamos diversas plataformas que fazem uso de inteligência artificial (IA) para nos auxiliar em atividades da pesquisa científica, a exemplo de busca, seleção e leitura de materiais acadêmicos, escrita acadêmica, análise e apresentação de dados, tradução, e como elas poderão facilitar, acelerar e mesmo modificar como fazemos essas tarefas.

Assim, na parte 2 do post,2 discutimos algumas possíveis consequências e paradoxos para futuros pesquisadores e acadêmicos, como um domínio menor de fontes/autores, conceitos, teorias e mesmo métodos. Simultaneamente, poderão possivelmente fazer análises mais rápidas e robustas de todos os tipos de dados e da literatura acadêmica.

Neste post, quero abordar algo similar, mas que não havia sido denotado no primeiro: os bots e GPTs (Generative pre-trained transformers) acadêmicos. Resumidamente, são bots (robôs) baseados em grandes modelos de linguagem, como o ChatGPT, que são desenhados e às vezes treinados para tarefas mais específicas. Dito de outra forma, enquanto o ChatGPT e chatbots similares são pensados como uma ferramenta para diversas tarefas, esses bots acadêmicos são idealizados como ferramentas para realizar uma ou poucas tarefas. A ideia é que ao serem especializados, eles entregarão melhores resultados que os modelos “genéricos”.

Apesar de ser uma ideia mais antiga, ela se popularizou quando o ChatGPT 4 permitiu que seus usuários criassem esses GPTs específicos e os tornassem disponíveis para outras pessoas numa espécie de GPT Store. Apesar de ser uma ferramenta exclusiva para assinantes do ChatGPT 4, acho interessante explorar aqui brevemente seus potenciais. Ao final, apresento uma ferramenta mais aberta para busca e exploração de bots.

1. Bots de empresas

É interessante ressaltar que algumas das principais novas empresas que estão investindo na relação entre pesquisa científica e inteligência artificial também apresentam suas próprias versões de GPT acadêmicos, como Consensus, SciSpace e Wolfram.

 

Captura de tela da ferramenta Consensus

 

Assim, como também vemos GPTs acadêmicos de empresas menos conhecidas, como o Scholar GPT que sempre aparece com destaque na GPT Store, mas que é na verdade feita pela empresa que fez a extensão Sider para navegadores usarem as IAs gerativas em diferentes páginas.

 

Captura de tela da ferramenta Scholar GPT

 

2. GPTs acadêmicos (ou quase) de usuários

Agora, provavelmente a grande novidade está em permitir que os usuários criem seus próprios GPTs, que podem servir apenas para o uso pessoal ou tornados públicos para todos os usuários do ChatGPT 4. Para isso, serão dadas instruções ao seu GPT e você poderá usar até 10 materiais que servirão de treinamento e consulta. Só para exemplificar, criei o Fichamento GPT, um GPT simples para fazer fichamentos de textos acadêmicos.

 

Captura de tela da ferramenta Fichamento GPT

 

Captura de tela da ferramenta Fichamento GPT

Como não sou especialista na área, os resultados são limitados, mas me parecem ser de partida melhores que os do ChatGPT padrão, pois os resultados são, na pior das hipóteses, mais bem estruturados como fichamentos sem precisar de prompts complexos. Há vários exemplos similares de fichamentos e resumos de texto, como o Understanding papers e Resumos e Resenhas Críticas. Há também GPTs individuais desenhados para diversas tarefas acadêmicas, como a geração e aperfeiçoamento de títulos e resumos de artigos, criar mapas mentais, diagramas e outras análises de dados, podendo atuar como assistentes de pesquisa.

Mas temos vários GPTs individuais muito bons. Um bom exemplo é o GPT Qualitative Quest desenvolvido por Philip Adu, autor de um ótimo manual de análise de dados qualitativos, que tenta reproduzir o seu modelo de análise temática. Assim, como há outros GPTs especializados em análise de dados qualitativos, como Qualitative Data Analysis e Qualitative Interview Analyst.

Alguns dos melhores que já vi foram construídos por João Lima, acadêmico do Direito, que apresenta conhecimentos avançados de análises de dados. Usando a base de Teses e Dissertações da CAPES, o pesquisador desenvolveu 100 GPTs para explorar seu conteúdo com a ajuda da IA. O número parece exagerado, mas foram 90 GPTs para cada Área de Conhecimento, nove para as Grandes Áreas e um GPT especial com metadados de mais de 1.4 milhão de produções acadêmicas do Brasil de 1987 a 2021. Os links para todos estão disponíveis na página do Github3 do pesquisador.

Aqui, alguns exemplos de exploração que ele fez para teses do Direito explorando um mapa de calor que destaque as 15 instituições de ensino com maior número de produções em Direito.

 

Captura de tela da ferramenta PósDireitoBR

 

Aqui, outro exemplo com base em um gráfico de barras empilhadas sobre os sete docentes que que mais orientaram trabalhos no Direito.

 

Captura de tela da ferramenta PósDireitoBR

 

Aqui,4 você encontra outras aplicações e explicações do pesquisador sobre o potencial do GPT:

 

 

Neste outro fio,5 ele reproduz uma pesquisa acadêmica realizada por Luiz Augusto Campos em teses de Sociologia por seu GPT, alcançando resultados similares e permitindo diferentes e interessantes formas de visualização de dados.

 

 

Abaixo, duas explorações feitas por João Lima sobre números relativos à produção de teses nessa área.

 

Captura de tela da ferramenta PósDireitoBR

Captura de tela da ferramenta PósDireitoBR

 

Outro GPT bastante interessante é um dedicado exclusivamente à análise de títulos e resumos das teses e dissertações de todas as áreas do conhecimento, a saber o PósResumoTítuloBR. A seguir, uma explicação do professor Lima6 sobre as diferenças entre pesquisar no GPT com informações mais completas e o GPT apenas de títulos e resumos. O professor ainda criou o Argumentum, um GPT assistente especializado na tarefa de argumentação, conforme a Teoria de Argumentação de Stephen Toulmin.

 

Por que GPTs acadêmicos importam?

Para além das suas funções individuais, é possível acionar outros GPTs na janela de contexto do ChatGPT, então você pode por exemplo acionar o GPT de fazer fichamentos, outro especializado em fazer análises textuais e depois acionar um outro GPT especializado em fazer mapas mentais. Em caso de livros e arquivos maiores, você teria indicações bem mais aprofundadas de seu conteúdo, que podem ajudar na produção de artigos e mesmo de aulas. Em outro exemplo, para fazer uma exploração inicial dos resultados de uma pesquisa baseadas em grupos focais, ficamos com centenas de páginas para análise. O pesquisador poderia usar um GPT especializado em análise qualitativa temática e, em seguida, chamar outro especialista em análise de dados e aplicar análises textuais automatizadas. Um terceiro para realizar visualizações mais pertinentes e daí por diante.

Em outras palavras, ao mapear e guardar os melhores GPTs acadêmicos, o ChatGPT pode se tornar uma ferramenta ainda mais poderosa para ajudar em diversas fases do fazer científico. Um local único para várias explorações e análises iniciais de materiais e mesmo dos dados gerados por alguma pesquisa. Este debate centra-se em grande medida nos agentes de IA, ou agentes inteligentes, que detectam o seu ambiente e tomam medidas para atingir objetivos específicos. Equipados com algoritmos e capacidades de IA, estes agentes podem interpretar dados, tomar decisões e interagir autonomamente com seres humanos ou outros sistemas.

Então, é preciso assinar o ChatGPT?

Fiz o texto inteiro baseado no ChatGPT, pois se trata do exemplo mais conhecido. Uma alternativa que não é exatamente gratuita, mas que permite explorações iniciais sem a necessidade de se inscrever (modelo freemium), é a Poe. Um site que se dedica a permitir os usuários a testarem diferentes modelos grandes de linguagem (inclusive é um ótimo lugar para testar o Claude 3 Sonnet que é superior ao GPT 4 em vários aspectos) e que também permite a criação de bots especializados em determinadas tarefas. Abaixo, um exemplo deles.

 

Captura de tela da ferramenta Poe

 

Apesar de ainda não serem tão completos quanto da GPT Store, eles servem para demonstrar o potencial dessa área para os próximos anos. A Poe também permite que você construa o seu próprio bot e permite a mesma ação de convocar diferentes bots para ajudar na sua tarefa de contexto, permitindo inclusive simplesmente chamar outros modelos. Então, por exemplo, na mesma janela de contexto, você pode fazer uma análise de um arquivo usando o ChatGPT e depois chamar o Claude para analisar o texto gerado pelo GPT ou vice-versa.

Conclusão

Como já tratamos no post anterior,2 há uma série de possíveis consequências do uso de IA gerativa para a ciência, inclusive sobre habilidade de programar (Python e R). No caso específico dos bots, podemos pensar em outras consequências relacionadas ao ecossistema de ferramentas e softwares acadêmicos que usamos no dia a dia. Ou ainda, em poucos anos continuaremos usando Stata, SPSS ou Atlasti e NVivo ou usaremos seus bots pagos em uma plataforma maior, como a GPT Store? Se várias migrarem para esses ambientes, estaremos mais suscetíveis aos problemas de alucinação e distorções inerentes a esses modelos. Podemos presenciar ainda mais a terceirização de escolhas e decisões acadêmicas para esses sistemas de IA.

Não obstante, é importante que acadêmicos estejam inteirados desse avanço e os empregando de forma crítica e responsável. Estando cientes, por exemplo, que cada uso desses bots contribui para o treinamento dos modelos e, portanto, que não devem compartilhar pesquisas com dados sensíveis, além da possibilidade de as máquinas alucinarem e gerarem informação imprecisa, distorcida ou mesmo falsa.

De uma forma ou de outra, o uso de IAs gerativas no cotidiano cresce de maneira exponencial. Em pouco mais de um ano do ChatGPT, já temos a impressão de estar em um mundo totalmente novo e que iremos evoluir rápido para ainda outros cenários nos próximos anos. Tudo indica que as mudanças vieram para ficar e precisamos nos adaptar a elas.

Notas

1. SAMPAIO, R.C., et al. ChatGPT e outras IAs transformarão toda a pesquisa científica: reflexões iniciais sobre usos e consequências – parte 1 [online]. SciELO em Perspectiva, 2023 [viewed 03 May 2024]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2023/11/10/chatgpt-e-outras-ias-transformarao-toda-a-pesquisa-cientifica-reflexoes-iniciais-sobre-usos-e-consequencias-parte-1/

2. SAMPAIO, R.C., et al. ChatGPT e outras IAs transformarão toda a pesquisa científica: reflexões iniciais sobre usos e consequências – parte 2 [online]. SciELO em Perspectiva, 2023 [viewed 03 May 2024]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2023/11/14/chatgpt-e-outras-ias-transformarao-toda-a-pesquisa-cientifica-reflexoes-iniciais-sobre-usos-e-consequencias-parte-2/

3. GPTs Pós*BR: https://joaoli13.github.io/GPTs.html

4. LIMA, J. [social network]. In: @joaoli13 [online]. Twitter, November, 2023 [viewed 03 May 2024]. Available from: https://twitter.com/joaoli13/status/1727852351292092598

5. LIMA, J. [social network]. In: @joaoli13 [online]. Twitter, December, 2023 [viewed 03 May 2024]. Available from: https://twitter.com/joaoli13/status/1733823591009956058

6. LIMA, J. [social network]. In: @joaoli13 [online]. Twitter, December, 2023 [viewed 03 May 2024]. Available from: https://twitter.com/joaoli13/status/1737614819044548801

Referências

ALMEIDA, V., MENDONÇA, R.F. e FILGUEIRAS, F. ChatGPT: tecnologia, limitações e impactos [online]. Ciência Hoje. 2023 [viewed 03 May 2024]. Available from: https://cienciahoje.org.br/artigo/chatgpt-tecnologia-limitacoes-e-impactos/

ANDRE, D. O que são Agentes? [online]. All About AI. 2024 [viewed 03 May 2024]. Available from: https://www.allaboutai.com/pt-br/glossario-inteligencia-artificial/agentes/

CALVARESI, D., et al. Exploring agent-based chatbots: a systematic literature review. Journal of Ambient Intelligence and Humanized Computing [online]. 2023, vol. 14, pp. 11207-11226 [viewed 03 May 2024]. https://doi.org/10.1007/s12652-023-04626-5. Available from: https://link.springer.com/article/10.1007/s12652-023-04626-5

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SAMPAIO, R.C., et al. O ChatGPT e as inteligências artificiais tendem a terceirizar as principais escolhas acadêmicas [online]. Nexo. 2024 [viewed 03 May 2024]. Available from: https://pp.nexojornal.com.br/ponto-de-vista/2023/o-chatgpt-e-as-intelig%c3%aancias-artificiais-tendem-a-terceirizar-as-principais-escolhas-acad%c3%aamicas

SPINAK, E. ¿Es que la Inteligencia Artificial tiene alucinaciones? [online]. SciELO en Perspectiva, 2023 [viewed 03 May 2024]. Available from: https://blog.scielo.org/es/2023/12/20/es-que-la-inteligencia-artificial-tiene-alucinaciones/

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Sobre Rafael Cardoso Sampaio

Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT-DD). Coordenador do grupo de Pesquisa Comunicação Política e Democracia Digital (COMPADD). Editor da revista Internet Sociedade do InternetLAB. Bolsista CNPq 1D.

SAMPAIO, R.C. Agentes de IA, bots e GPTs acadêmicos [online]. SciELO em Perspectiva, 2024 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2024/05/03/agentes-de-ia-bots-e-gpts-academicos/

Fonte: Agentes de IA, bots e GPTs acadêmicos
Feed: SciELO em Perspectiva
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