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Algumas Reflexões sobre SciELO 25 Anos

Publicado em: Algumas Reflexões sobre SciELO 25 Anos

Por Alberto Pellegrini Filho

Como era de se esperar, pela qualidade dos expositores, pelos temas tratados, pela grande e participativa audiência e pela organização impecável, o evento SciElO 25 foi um sucesso. Infelizmente não pude participar presencialmente e perdi um outro elemento importante nesses encontros que é a interação entre os participantes durante os intervalos da programação.

Dadas minhas limitações, não consegui abarcar toda a complexidade dos diversos temas. Entretanto, gostaria de destacar três aspectos que me chamaram a atenção:

  1. Quando tratamos de Ciência Aberta há uma forte tendência de identificá-la como Acesso Aberto aos resultados da produção científica. Se o objetivo central da Ciência Aberta é promover um maior estreitamento entre Ciência e Sociedade para que a Ciência cumpra melhor seu papel social de promover o bem-estar de todos, creio que devemos ir além desse entendimento, promovendo o acesso aberto em todas as etapas do processo de produção científica, em linha com o proposto por Gibbons e outros:1
    1. Definição do objeto de investigação: Idealmente a definição do objeto de investigação se dá na confluência do desenvolvimento intrínseco da própria ciência com as necessidades sociais. Pesquisadores, atores sociais e as agências de fomento que financiam e definem prioridades de pesquisa devem estabelecer espaços de interação que permitam que essa confluência se estabeleça de maneira fluida. Esses espaços devem permitir que dados e informações circulem livremente para que se definam as demandas à ciência.
    2. Diversidade dos agentes de pesquisa: além da diversidade de gênero e cor da pele dos pesquisadores, a diversidade de agentes da pesquisa deve incluir outros atores sociais. Evidentemente não se propõe que leigos utilizem a metodologia científica, mas ao longo da pesquisa a discussão de resultados parciais com esses diversos atores permite um feedback que (re)orienta o desenvolvimento do processo de investigação.
    3. Locus e metodologia de pesquisa: o conceito de Ciência Aberta põe em xeque instituições científicas fechadas em suas paredes. O estabelecimento de redes de cooperação entre pesquisadores de diversas instituições e áreas de conhecimento permite ampliar sua capacidade de pesquisa como no caso de sucesso do Projeto Genoma. A ampla interação entre pesquisadores de diversas áreas no âmbito dessas redes permite a utilização de abordagens multi e transdisciplinares tão necessárias para dar conta de temas de investigação complexos como enfrentamento do aquecimento global, combate à pobreza e outros temas como os que compõem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável;
    4. Publicação de resultados de investigação: Este tema foi amplamente discutido com base na experiencia exitosa de SciELO e várias propostas estão sobre a mesa para melhorar ainda mais o alcance e impacto da produção científica dos países da Região. Na perspectiva de Ciência Aberta, a relação entre comunicação e divulgação científica ocupa um papel relevante, colocando-se o desafio de aproveitar as potencialidades da capilaridade das redes sociais e da Inteligência Artificial que eventualmente pode cumprir um papel importante para a realização de uma espécie de meta-análise da produção científica em determinados temas e promover sua “tradução” para um público amplo;
    5. Avaliação da produção científica: Este tema foi amplamente discutido com propostas para aprimorar a avaliação do mérito científico de produtos da pesquisa. A perspectiva da Ciência Aberta exige a avaliação não apenas do mérito como do eventual impacto econômico, social e ambiental da produção científica. Foi amplamente discutida a necessidade de indicadores que permitam avaliar esse impacto, mas é também necessário criar espaços de interação para que outros atores como empresas e organizações da sociedade civil avaliem as possibilidades de aplicação de resultados, bem como suas implicações éticas. Há metodologias que permitem esse tipo de participação social como as Conferências de Consenso Cidadão.
    6. Diversificação das fontes de financiamento: A pluralidade de atores participantes do processo de investigação deve ter correspondência na diversificação das fontes e modalidades de financiamento.
  2. Não há dúvida de que os pesquisadores devem jogar um papel fundamental na implementação dos princípios da Ciência Aberta. Entretanto, se todo a sistema de estímulos e recompensas, avaliação de desempenho e promoção na carreira utilizado por instituições de pesquisa e agências de fomento continuar centrado quase unicamente na quantidade de artigos publicados e seu impacto, dificilmente teremos um engajamento amplo da comunidade científica.
  3. Os participantes deste evento reconheceram que SciELO 30 anos estará centrado na Inteligência Artificial. Várias intervenções mencionaram o potencial e os riscos para aplicação da IA no contexto da Ciência Aberta. Assim como em 1975, no início da ampla utilização do DNA recombinante os cientistas se reuniram na Conferência de Asilomar para a definição de normas éticas e de segurança na utilização dessa tecnologia e definir quem deveria supervisionar o cumprimento dessas normas, creio que é chegada a hora de propor algo semelhante no que se refere ao uso da IA na comunicação científica e nas diversas etapas do processo de investigação.

Como mencionado anteriormente, SciELO 25 anos colocou sobre a mesa uma enorme quantidade de temas relevantes e os destacados acima obedecem a uma visão bastante limitada. Os temas tratados durante o evento conformam uma agenda riquíssima e plena de desafios para os próximos anos. Estamos seguros de que esses desafios serão enfrentados de forma satisfatória com base no histórico de SciELO, na capacidade de sua arquitetura de redes diversificadas de colaboração e na liderança segura e competente de Abel Packer e sua equipe. A Declaração aprovada neste evento toca os principais pontos desse desafio e esperamos que os atores instados nessa declaração cumpram o seu papel para o avanço da Ciência Aberta na Região.

Nota

1. GIBBONS, M., et al. The New Production of Knowledge: The dynamics of Science and research in Contemporary Societies. London: Sage, 1994.

Referências

BERG, P., et al. Summary statement of the Asilomar conference on recombinant DNA molecules. Proc Natl Acad Sci USA [online]. 1975, vol. 72, no. 6, pp. 1981-1984 [viewed 3 October 2023]. https://doi.org/10.1073/pnas.72.6.1981. Available from: https://www.pnas.org/doi/abs/10.1073/pnas.72.6.1981

GIBBONS, M., et al. The New Production of Knowledge: The dynamics of Science and research in Contemporary Societies. London: Sage, 1994.

NOVOTNY, H., SCOTT, P.B. and GIBBONS, .M Re-thinking Science: Knowledge and the Public in an Age of Uncertainty. Cambridge, UK: Polity Press, 2001.

PELLEGRINI FILHO, A. and ZURITA, L. Primera Conferencia de Consenso Ciudadano en Chile sobre el tema: El manejo de mi ficha clínica de salud – evaluación preliminar. Revista Panamericana de Salud Pública / Pan American Journal of Public Health. 2004, vol. 15, pp. 351-357 [viewed 3 October 2023]. Available from: https://iris.paho.org/handle/10665.2/8228

Link externo

Asilomar Conference on Recombinant DNA: https://en.wikipedia.org/wiki/Asilomar_Conference_on_Recombinant_DNA

PELLEGRINI FILHO, A. Algumas Reflexões sobre SciELO 25 Anos [online]. SciELO em Perspectiva, 2023 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2023/10/03/algumas-reflexoes-sobre-scielo-25-anos/

Fonte: Algumas Reflexões sobre SciELO 25 Anos
Feed: SciELO em Perspectiva
Url (Fonte): blog.scielo.org
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