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Álvaro Pires de Évora, de Lisboa a Itália no Museu de Arte Antiga – a.muse.arte

Álvaro Pires De Évora, De Lisboa A Itália No Museu De Arte Antiga – A.muse.arte

Exposição “Alvaro Pirez d’Évora: Um pintor português em Itália nas vésperas do Renascimento
Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga (20 nov. 2019 – 22 mar. 2020)

“[…] this is unequivocally an outstanding exhibition” (Nuttal, 2020, p. 241) – é assim que termina a recensão crítica da exposição no último número da prestigiada revista de história da arte The Burlington Magazine. “Uma excelente exposição […]” (Pereira, 2020, p. 23) – é assim que abre o texto de Fernando António Baptista Pereira, no Jornal de Letras, referindo-a, ainda, como “uma exposição notável” (id., p. 24).

É, de facto, uma exposição maravilhosa e marcante, a exposição “Alvaro Pirez d’Évora. Um Pintor Português em Itália nas Vésperas do Renascimento”, comissariada por Lorenzo Sbaraglio, do Polo Museale della Toscana, e de Joaquim Oliveira Caetano, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), sendo uma organização conjunta das duas instituições.

Entrada da exposição
Lisboa, MNAA
Foto: MIR, 2020

Inevitavelmente, seria sempre uma ótima e belíssima exposição, tendo como objeto a obra de Álvaro Pirez d’Évora.

Em 1994, já tinha sido possível ver uma dúzia de obras do pintor na exposição “Álvaro Pirez de Évora: um pintor português na Itália do Quattrocento”, comissariada por Pedro Dias e Conceição Amaral, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, numa iniciativa da Comissão dos Descobrimentos. Mais recentemente, em 2018, a pintura “A Anunciação”, que havia sido adquirida pelo Estado português em fevereiro desse ano foi também exposta no Museu Nacional de Arte Antiga. Esta é, por conseguinte, a maior exposição retrospetiva dedicada ao pintor e uma ocasião única para ver, no mesmo espaço, trinta e cinco das sessenta obras que lhe são atribuídas. No conjunto, estão expostas oitenta e cinco obras, provenientes de museus como a Gemaldegalerie de Berlim, a Pinacoteca Nazionale di Siena, a Galleria d’Arte Moderna de Milão e as Gallerie degli Uffizi de Florença, além de outras instituições museológicas e coleções privadas de Itália, França, Alemanha, Hungria e Polónia.

Álvaro Pirez é o é o mais antigo pintor nascido em Portugal, mas os dados da sua biografia são fragmentados. Não há registos de atividade em Portugal, embora seja referido como o primeiro pintor português, a quem podemos é possível atribuir nome e obra. Está documentado entre 1410 e 1434, na região italiana da Toscana, em cidades como Pisa, Luca, Prato e Volterra, onde trabalhou. Num painel do retábulo da igreja de Santa Croce, em Fossabanda, Pisa, deixou a assinatura “ALVARO PIREZ DEVORA PINTOV”, a única em português. Atualmente, conhecem-se três obras assinadas pelo Alvaro Pirez, embora a documentação antiga registe outras.

Vasari refere-o brevemente (e de forma não muito elogiosa) na biografia do pintor florentino Taddeo di Bartolo:

Fu ne’ medesimi tempi e quasi della medesima maniera, ma fece più chiaro il colorito e le figure più basse, Alvaro di Piero di Portogallo, che in Volterra fece più tavole et in S. Antonio di Pisa n’è una et in altri luoghi altre, che per non essere di molta eccellenza non occorre farne altra memoria. (Vasari, 1568, p. 234)

Se da sua vida quase nada é conhecido, sem indícios que permitam contextualizar a sua partida para Itália, em contrapartida e indicando circuitos artísticos ainda escassamente esclarecidos, há notícia, por essa altura, de um pintor dito António Florentim, ou florentino, na corte de D. João I. Reynaldo dos Santos foi o primeiro historiador português a estudar  depois de ter encontrado as obras de Álvaro Pirez em Itália, dedicando-lhe um estudo publicado pela primeira vez em 1922.

Álvaro Pirez, ou Alvarus Petri, ou Alvaro di Pietro, como é conhecido em Itália, nascido em Évora por voltadas décadas de 1370/80, terá chegado a Toscana, provavelmente, a Pisa, nos primeiros anos do século XV. Arriscam-se hipóteses de permanências em Espanha, onde poderia ter contactado o mestre florentino Gherardo Starnina e, eventualmente, acompanhado a partir de Castela ou Valência, no regresso deste à Toscana, atendendo a algumas semelhanças entre as obras de ambos.  Porém, a rigidez das figuras das suas primeiras obras aponta para uma ligação à escola de Pisa. Por outro lado, a forma minuciosa e elaborada como trabalha os fundos de ouro poderá denunciar uma formação inicial, talvez ainda em Portugal, como ourives.

Na ausência de uma narrativa biográfica explícita, a exposição ousou afastar-se do modelo convencional da ordenação cronológica, optando por uma lógica de contextualização cultural e artística, estabelecendo conexões com artistas toscanos ativos nas primeiras décadas do século XV, como o já referido Gherardo Starnina (c. 1360–1413), Lorenzo Monaco (c. 1370 – c. 1425) e Gentile da Fabriano (c. 1370 – 1427), cuja linguagem estética conjuga o estaticismo gótico com uma crescente busca de naturalidade à “maneira greca” de influência bizantina, preparando o primeiro Renascimento italiano, protagonizado por artistas como Fra Angelico  (1387-1455) e Paolo Uccello (1397-1475). Esta exposição é também sobre o Quatroccento italiano, evidenciando as continuidades dessa subtil, ainda que decisiva, passagem para a representação de figuras mais proporcionadas e humanizadas, com gestos mais soltos e emotivos, em composições que se tornam perspetivadas. Valorizando esta intenção de sublinhar estas linhas de continuidade, é a evidência da renovação que leva Baptista Pereira (2020, p. 23) a transformar o título da exposição, propondo “alvores do Renascimento”, em vez de “vésperas do Renascimento”.

Com obras destes artistas, esta exposição seria sempre, inevitavelmente, uma exposição belíssima. Mas não é apenas isso que a torna uma ótima exposição: a museografia, a conceção dos espaços, o discurso expositivo, o recurso à informação textual e gráfica, o propósito didático de mostrar e interpretar, é tudo isso que consolida a excelência desta exposição.

Anunciação
Álvaro Pirez d’Évora, c. 1430-1434
Têmpera e ouro sobre madeira
Lisboa, MNAA, inv. 2207 Pint

A exposição abre, obviamente, com “A Anunciação” de Álvaro Pirez, na coleção do MNAA, posta em destaque, ao centro da sala, como epígrafe do discurso que a partir daqui se elabora. O quadro, provavelmente, o volante esquerdo de um díptico, apesar da pequena dimensão, ou talvez precisamente por isso, atrai pelo vibrante cromatismo de tons quentes e luminosos, pela delicadeza das feições, pela minúcia dos detalhes, pelos pormenores, pelos gestos cuidados e de extrema elegância, pelo trabalho das auréolas, pelas asas do anjo e pelas texturas dos panejamentos. O preciosismo e a delicadeza de Álvaro Pirez, o exímio trabalho do ouro, o tratamento dos rostos e das mãos, criam uma sinopse da obra deste pintor, através dos aspetos singulares que a caraterizam e que serão declinados ao longo da exposição.

Exposição: 1. Grandes Mestres
Lisboa, MNAA
Foto: Paulo Alexandrino, MNAA, 2019
Virgem da Humildade
Gherardo di Jacopo, dito Starnina, c. 1401-1402
Têmpera e ouro sobre madeira
Rivoli (Turim), Col. Fondazione Francesco Federico Cerruti per l’Arte

Esta é a obra crucial da exposição e a museografia confirma-o: uma base sólida, paralelepipédica, em que se insere um painel de vidro de suporte à obra, pequena e delicada, que, desta forma, se afigura suspensa e é visível na totalidade, incluindo o verso.

Em torno, estabelecendo uma rede de relações com esta peça nuclear, desenvolve-se o compêndio dos “Grande Mestres” (1) que moldaram a expressão de Álvaro Pirez: Gherardo Starnina, Lorenzo Monaco, Gentile da Fabriano, Beato Angelico e Masolino (c. 1383-1447), um pouco mais tardio que os anteriores e que, eventualmente por esse motivo, se encontra já no núcleo seguinte. A delicadeza e a preciosidade destas obras, com o fundo de ouro em requintados puncionados, impõe o encerramento em caixas de acrílico, discretas e eficientes na sua função de segurança. A individualização de cada obra é assegurada pela estrutura parietal, em profundos painéis separados entre si, e pela sobriedade do tom negro uniforme, sem ruídos que distraiam do essencial, tendendo a remeter as legendas para espaços marginais.

Exposição: 2. Mediterrâneo
Lisboa, MNAA
Foto: MIR, 2020

O propósito contextualizador continua no núcleo seguinte, dedicado ao “Mediterrâneo” (2), desenhando (literalmente) uma panorâmica das relações artísticas entre as penínsulas Ibérica e Itálica, refazendo o percurso de Álvaro Pirez entre uma e outra, enquanto que marca a presença de Gherardo Starnina e Antonio Veneziano em Toledo.

Exposição: 3. Portugal
Lisboa, MNAA
Foto: Paulo Alexandrino, MNAA, 2019

“Portugal” (3), que Álvaro Pirez assume como pátria, é representado no contexto da afirmação política da dinastia de Aviz, através do aparecimento da pintura nas encomendas da corte, aqui trazida pelo retrato de D. João I, a primeira representação quase coeva conhecida de um rei português, e da escultura gótica do Mosteiro da Batalha. Aqui, a museografia assume uma intenção cenográfica, diversificando a altura das peças, numa ficção das posições originais, e criando uma ampla curva, na qual se rasga uma abertura longitudinal que se torna cada vez mais profunda, para suporte das esculturas de vulto que se tornam também mais volumosas.

A partir daqui os núcleos expositivos centram-se, cada um, a uma das quatro cidades em que Álvaro Pirez está documentado: Lucca (4), Pisa (5), Volterra (6) e Prato (7). Centrados nas obras do pintor, apresentam igualmente a produção de outros artistas, reconstituindo o ambiente cultural e artístico de cada uma das cidades.

Exposição: 4. Lucca
Lisboa, MNAA
Fotos: MIR, 2020

Em Lucca, Álvaro Pirez terá pintado os painéis para o Oratorio del Santissimo Crocifisso della Pieve di San Paolo, com a representação dos Santos Paulo, João Batista, André e Cosme, bem como a Virgem do Leite entre São Pedro e São Francisco. Estas obras são aqui postas em confronto com as obras de outros artistas da cidade, como Spinello Aretino, Angelo Puccinelli. Battista di Gerio e Starnina, bem como com um grande crucifixo pintado e recortado de Piero Borghese e um painel de Priamo della Quercia, ambos artistas da geração seguinte.

Exposição: 5. Pisa
Lisboa, MNAA
Fotos: MIR, 2020

No núcleo pisano, a obra central é a Virgem com o Menino e anjos, aquela que é assinada em português, no degrau sob o trono, mas não retira impacto à Virgem da Humildade ou aos painéis do políptico Virgem com o Menino e dois anjos ou do retábulo para a igreja de S. Agostino de Nicosia, em Calci. A vitalidade cultural de Pisa é percetível através das obras de artistas sienenses e florentinos. Encontram-se aqui três bandinelle, ou bandeiras de confraria, pintadas no verso e reverso; entre elas, a de Taddeo di Bartolo permite avaliar a comparação de Vasari entre ambos.

Exposição: 6. Volterra
Reconstituição do políptico da capela de São Catarina (?)
Lisboa, MNAA
Fotos: MIR, 2020
Virgem com o Menino e Santos
Depois de 1417
Têmpera e ouro sobre madeira
Volterra, Pinacoteca Civica
Foto: MIR, 2020

O estatuto adquirido por Álvaro Pirez é confirmado pelas comissões recebidas entre 1418 e 1428 em Volterra, onde se destaca o retábulo A Virgem com o Menino e santos, o único que chegou até hoje praticamente intacto e com parte da estrutura original.

Exposição: 7. Prato
Lisboa, MNAA
Fotos: MIR, 2020

Forçado pela disposição arquitetónica do espaço, Prato faz uma inversão cronológica do percurso de Álvaro Pirez e é apresentada na última sala, dominada pela apresentação das seis sinópias (desenhos preparatórios) dos frescos realizados em 1411 na fachada do palácio do mercador Francesco di Marco Dantini e que, no século XIX, já tinham desaparecido totalmente. Os documentos da época registam a encomenda a cinco pintores, entre os quais Álvaro Pirez. Dos restantes, estão expostos trabalhos de Niccoló Gerini. Lippo d’Andrea e Scolaio di Fiovanni.

Geoffrey Nuttal refere como ponto negativo desta exposição a falta de orientação cronológica: “The only criticismo that might bem ade of this exhibition and its catalogue […] is the arranging of Pirez’s œuvre by place rather than date” (2020, p. 241). Porém, esta opção não é necessariamente errada, assumindo uma outra perspetiva de análise, temática e por contexto de relações artísticas, o que poderá conduzir a resultados mais consistentes. Em contrapartida, regista-se alguma incoerência na organização temática das obras expostas, no sentido em que há obras referidas no contexto das cidades, mas que se encontram nos núcleos iniciais: é, por exemplo, o caso da Virgem da Humildade, de Gentile da Fabriano, referida em Pisa, mas que se encontra no núcleo 1.

No entanto, os aspetos positivos desta exposição ultrapassam largamente as possíveis críticas. A investigação em torno da vida e obra Álvaro Pirez de Évora gerou o conhecimento que é sistematizado na exposição e no catálogo que lhe serve de suporte. A intenção de divulgar esse conhecimento, tornando-o acessível a um público não especializado, está patente ao longo de toda a exposição, através de um conjunto de estratégias eficazes: os textos introdutórios de cada núcleo, com uma dimensão sensata, permitindo a sua leitura na totalidade antes de provocar cansaço, e uma linguagem clara, objetiva e acessível; as legendas interpretativas, onde se releva a presença de alguma adjetivação levada pelo entusiasmo a que a obra induz; e, sobretudo, pela presença dos gráficos que se surgem nalguns núcleos, contextualizando geograficamente os artistas e as suas obras, ou fazendo a reconstrução hipotética de retábulos, recuperando a relação espacial dos painéis nas composições originais.

O contributo desta exposição para reconhecimento da obra de Álvaro Pirez de Évora é incontestável e é uma referência obrigatória em estudos posteriores, fixando a relevância deste artista nos primórdios do Renascimento e, portanto, no âmbito da história da arte ocidental. É, por todos os motivos, uma exposição que coloca o MNAA ao nível dos melhores.

Referências bibliográficas:
Nuttall, G. (2020, mar.). Alvaro Pirez d’Évora: A Portuguese painter in Italy on the eve of the Renaissance. The Burlington Magazine, (162), 239-241.
Pereira, F. A. B. (2020, fev. 12-25). Álvaro Pirez de Évora: Um pintor português na Itália dos alvores do Renascimento. Jornal de Letras, pp. 23-24.
Santos, R. (1922). Álvaro Pires de Évora pintor. Lisboa: Imprensa Libânio da Silva.
Vasari, G. (1568). Le vite de’ piu eccellenti pittori, scultori e architettori: Di nuovo … riviste et ampliate con i ritratti loro et con l’aggiunta delle vite de’ vivi, & de’ morti dall’anno 1550, insino al 1567. Fiorenza: Giunti.


Fonte: Álvaro Pires de Évora, de Lisboa a Itália no Museu de Arte Antiga – a.muse.arte

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