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Batalha das imagens e memórias no bicentenário da nação

Batalha Das Imagens E Memórias No Bicentenário Da Nação

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Os clones já estão aí, os seres virtuais já estão aí

 – somos todos replicantes!

Jean Baudrillard.

 

O historiador francês Serge Gruzinsky abre seu livro, A Guerra das Imagens (1995), citando o filme Blade Runner: caçador de androides, dirigido por Riddley Scott e lançado em circuito mundial em 1982. Os androides do filme são réplicas quase perfeitas de humanos com curto tempo de vida, criadas para executar tarefas perigosas em astros e ambientes distantes no espaço sideral. Esses replicantes se distinguem do ser humano por características genéticas implantadas, porém alguns deles estão dotados de ‘memórias enxertadas’ fixadas em velhas fotografias; falsas lembranças destinadas a inventar e sustentar um passado que jamais existiu.

Gruzinski considera que a guerra das imagens talvez seja um dos maiores acontecimentos da atualidade moderna inaugurada com a Conquista da América. Uma guerra difícil de precisar seu início, pois abarca as lutas pelo poder, “cuja amplitude atual e futura somos incapazes de medir” (1995, p. 12). Em nosso trabalho de pesquisa de Pós-Doc UNIRIO (CORREA, 2019) recuperamos alguns conceitos oferecidos pelo autor, especialmente quando ressalta: “Com o mesmo direito que a palavra e a escrita, a imagem pode ser veículo de todos os poderes e de todas as vivencias. (…) O pensamento que desenvolve oferece uma matéria específica, tão densa quanto a escritura ainda que seja irredutível a ela; o que não facilita em nada a tarefa do historiador obrigado a escrever sobre o indizível” (1995, p. 13).

Nessa pesquisa não seguimos as linhas ortodoxas do pensamento figurativo, nem dos estudos sobre os conteúdos das imagens. Realizamos o exame dos programas e das políticas das imagens, do desenvolvimento das intervenções múltiplas entranhadas nelas e/ou das antecipações de suas funções assumidas numa dada sociedade. Portanto, não se trata de definir abstratamente imagem. Mas é preciso considerar a história dos imaginários, sua globalidade e sua mobilidade. Assim, não promovemos uma descrição sistemática das imagens apresentadas, privilegiando forma ou conteúdo, pois não se quer perder de vista uma realidade imagética que só existe na sua interação. Sobretudo, nos interessa a montagem política das imagens e como se alimenta a fascinação que exercem. São os cenários de festas e celebrações cívicas, ou comemorações históricas, oferecendo inesgotáveis exemplos cenográficos, em consagrações e altares, grandes rituais, procissões, desfiles por avenidas e ruas, com decorações gigantescas, e dispondo de estrados, plataformas, arcos de triunfo, etc. Todo esse complexo festival ganha mais esplendor e encantamento quando se aproxima a efervescência dos períodos eleitorais. É quando se repete o lexema e bordão midiático: “a festa da democracia” no Brasil!

Do mesmo modo como ocorre na realidade mexicana, analisada por Gruzinsky, também consideramos que a forma de fabricação e de encenação da imagem em nossa sociedade segue o modelo Barroco – no festim de profusão de liturgias -, continuidade a alastrar essa guerra das imagens por mais de cinco séculos, e que no Brasil se inicia com o Triunfo Eucarístico de 1733. Todavia, não precisamos elaborar um inventário desse longo transcorrer de lutas pictóricas ou iconográficas ao corroborarmos: “a imagem barroca adota desde sempre uma função unificadora”.

Em países como o nosso, no qual se encontram populações de diversas origens e entre as quais a alfabetização foi precária e reduzida, o brilho e fascinação da imagem adquirem grande importância sociológica. E a fetichização da imagem barroca ao se processar nesse contexto tem operado de duas maneiras: a) ocultando a produção de riqueza econômica gerada para poucos [exploração do trabalho]; b) ocultamento da origem humana da imagem [adquirindo caráter quase sagrado]. Como consequência direta temos a montagem de um programa iconográfico produzindo efeitos políticos evidentes. Sua eficácia simbólica e imagética é de extraordinário alcance, como se testemunha no decorrer do século XX desde o fim da II Guerra mundial com o incremento da fotografia, do cinema e da televisão: a imagem política estetizada adquire função retórica retumbante. É a imagem que codifica o sentido e a mensagem, cabendo ao semiólogo decifrar esses códigos, sob pena de continuarmos submetidos ao seu feitiço, mistificação e eficácia.

Como não fazemos uso de um conceito abstrato, a abordagem considera a evolução de nossa relação política com a imagem, especialmente a imagem da nação. Interessou-nos os usos pessoais e sociais da representação nacional e patriótica que foram e ainda são operados por dispositivos de controle subjacentes, e em larga medida ainda inconscientes. Nosso trabalho, a partir de exemplos empíricos analisados, foi tentar compreender as articulações múltiplas do imaginário social, dando especial atenção para o princípio de culto das imagens: promoção do caráter sagrado da imagem, particularmente quando ela avança sobre o espaço social da política. Questão de fundo: como analisar o sentido da mudança ou manutenção do uso imposto pela imagem política na atualidade?

Percebemos dois polos contrastantes em conflito. De um lado, a) as ressurgências das imagens do passado autoritário e ditatorial; de outro, b) os ataques recorrentes aos monumentos, imagens e estátuas, dos vultos da memória política oficial. De que maneira um conceito não abstrato de guerra das imagens, como instância específica da máquina de guerra semiótica (LIFSCHITZ, 2019a, 2019c), pode ajudar a compreender as eficácias e falências das memórias enxertadas no campo da memória política? Este é o núcleo do nosso questionamento.

No caso da Ditadura Civil-Militar no Brasil entre os anos de 1964-89, por exemplo, o triunfo da imagética política se articulava ao esforço controlado do uso da coerção e da repressão. Desde a conquista do tricampeonato na Copa do Mundo de futebol, 1970, as autoridades se dedicaram basicamente em explorar de todas as maneiras possíveis o culto das imagens da vitória, em pleno recrudescimento do regime autoritário, período em que se forjou a expressão: “Pátria de chuteiras!”. Soma-se a isso o culto ao “Milagre econômico”! Tudo culmina nas comemorações do Sesquicentenário da Independência realizadas com pompa triunfal. Nessa ocasião observamos a imagem do ditador General Ernesto Geisel ser enquadrada ao lado do Imperador D. Pedro I em moedas e outros diversos suportes iconográficos. No ano de 1972 também ocorre evento simbólico de grande alcance imaginário: o translado para o país dos restos mortais do D. Pedro IV Rei de Portugal e primeiro Imperador do Brasil.

Observamos nos exemplos citados a eficácia mágica dessas imagens forjadas, quando reaparecem atualmente nas ruas, ressurgindo de modo significativo nas recentes manifestações políticas – imagens que se julgavam mortas e esquecidas. Nas passeatas de 2015-6 foi consideravelmente inquietante testemunhar a ressurgência de imagens e slogans de mais de trinta anos atrás, colonizados há décadas, ainda produzindo efeitos de mobilização de massa; como por exemplo, nas variações do lexema: “ame-o, ou deixe-o”, estampado em camisas e bandeiras! Evidencia-se a eficácia da propaganda do período da ditadura civil-militar, de um modo e alcance jamais esperado.

É necessário vasculharmos nossos arsenais teóricos para compreender como ‘memórias enxertadas’ há décadas podem ser reencenadas, num período histórico que supunha-se ter operado rupturas profundas no imaginário social; iniciadas no processo de redemocratização e consolidadas na Constituição de 1988. Para nós, no âmbito dessas reflexões consideramos que o conceito de ‘memórias enxertadas’ se coaduna às teses da chamada ‘esquerda lacaniana’ quando coloca em cena o ‘ato inaugural’, supondo um sujeito que o institui. Nesse ponto também nos aproximamos do debate sobre “a subjetivação política e suas vicissitudes” (ŽIŽEK, 2016), perspectiva muito fecunda para o alargamento de nossa compreensão do funcionamento da estrutura das interpelações dos sujeitos políticos na atualidade. De acordo com essa vertente teórica, “o sujeito político não é algo predeterminado, em termos da classe social, lugar nas relações de produção, etc, mas sim um sujeito que emerge da própria singularidade do ato” (LIFSCHITZ, 2019, p. 20). Observa Laclau: “é impossível determinar a priori quem serão os atores hegemônicos nessa luta” (LACLAU, 2013, p. 223). Isso explica então porque a “emergência do sujeito político” sempre surpreende, pois, essa subjetivação se articula sob diferentes coordenadas teórico-políticas. Portanto, só é possível compreender essa “articulação subjetiva considerando as operações de construção de hegemonia” (LACLAU, p. 185). É aqui que nos parece adequado seguir as sugestões de Gruzinsky quando invoca Blade Runner e as memórias enxertadas nos replicantes. Como estamos numa nova fase de construção/formação das subjetividades políticas na atualidade, a análise dos investimentos no teatro das memórias políticas pode explicar de que forma as emergências políticas, – tanto do lado das forças de manutenção do status quo, como do lado das resistências contra o establishment -,  promovem a reificação das estruturas de sentido dominantes, oficiais, autoritárias, ou as formas de resistência contestatórias e insurgentes.

Entrementes, tanto num caso como no outro, sujeitos políticos antagônicos, representam articulações subjetivas nos polos em conflito. Como nas ocupações ocorridas, p. ex., no Monumento às Bandeiras (SP) no Grito dos Excluídos de 2016. Parece-nos, no entanto, que a negligência das análises semiológicas e políticas das imagens e do imaginário social, em relação aos crimes cometidos no período ditatorial, desconsidera seus efeitos imprevistos e recalcitrantes no tecido social (retorno do recalcado?). Além da ausência de análise sobre as novas tecnologias da imagem, que nunca são neutras (SANTOS, 2003), é preciso aprofundar e ajustar as contas com a violência e terror promovidos no período ditatorial; da mesma forma que na operação de análise da eficácia dos veículos de propaganda e do próprio meio que emite as mensagens.

Por conseguinte, ressaltamos a importância de avançarmos num estudo sobre as possibilidades de uma ‘política da visão’ e da ‘memória visual’. Trabalho a ser feito para além das análises das fotografias e imagens ‘enxertadas’, avançando em todas as dimensões das violências e terrores submetidos aos governados/dominados. A gestão do teatro das memórias políticas e sociais, no sentido empregado por Jeudy (1990), deve operar um tipo de tratamento terapêutico das heranças e tradições de insurgência. Nosso trabalho, associado às investigações de Gruzinsky, em relação a ficção de Blade Runner, sugere uma espécie de antídoto aos androides replicantes de programas inoculados para ações não-reflexivas, – tais como as que testemunhamos nos últimos anos nas ruas das grandes cidades brasileiras. Episódios que necessitam do exercício de análises semiológicas alargadas. Pois, como instigou Baudrillard, com sua teoria irônica: “Os clones já estão aí, os seres virtuais já estão aí, somos todos replicantes! No sentido que, como em Blade Runner, já é quase impossível distinguir o comportamento propriamente humano de sua projeção na tela, de seu duplo em imagem e de suas próteses informáticas” (2005, p. 156). Talvez, uma política da visão nos ofereça instrumentos para compreender as consequências do alerta da estandartização, ou modelização, do olhar em curso em nossa sociedade, submetida a este poder mágico e reticular. Daí sobressai como um clarão o alerta de Laymert Garcia dos Santos: “Quando a modernidade chega ao fim, o homem parece estar perdendo a capacidade de perceber e imaginar, isto é, de produzir as imagens que conferem sentido à sua experiência, parece estar abdicando do exercício da potência da percepção, do ‘eu posso’ do olhar” (SANTOS, 2003, p. 180).

 

 

 


REFERÊNCIAS

BAUDRILLARD, J. Tela total: mito-ironias do virtual e da imagem. Porto Alegre: Sulina. 2005

CORRÊA, Alexandre Fernandes. Teatro das memórias: ensaios sobre ação cultural na atualidade. São Luís: EDUFMA. 2013

___. Bicentenário da Independência do Brasil: batalha das imagens e das memórias enxertadas. Projeto de Pós-Doc. PPGMS / UNIRIO. Supervisão Prof. Dr. Javier Alejandro Lifschitz. Rio de Janeiro, 2019.

GRUZINSKY, Serge. La guerra de las imágenes: de Cristóbal Colón a “Blade Runner” (1492-2019). México DF: Fondo de Cultura Económica. 1995

JEUDY, Henri-Pierre. Memórias do social. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1990.

LACLAU, Ernest. A razão populista. São Paulo: Editora Três estrelas, 2013.

LIFSCHITZ, Javier Alejandro. O avesso do golpe no Brasil: formas de resistência. Revista Teoria e Debate, ed. 174, Sociedade. Disponível em: https://teoriaedebate.org.br/2018/07/11/o-avesso-dogolpe-no-brasil-formas-de-resistencia-e-sujeito-politico/ Acesso em: 28 jul. 2019.

___. Brasil, política e vertigem. e-l@tina, Revista Eletronica de Estudos Latinoamericanos, v. 17, n. 68, Buenos Aires, jul/set. 2019a

___. Atos inaugurais e política na américa latina atual. Psicanálise & Barroco em revista | Psicanálise e Política: versões e reversões do mundo e do imundo. v.17, n. 02 | outubro. 2019b

SANTOS, Laymert Garcia dos. Politizar as novas tecnologias. São Paulo: Ed. 34. 2003

ŽIŽEK, Slavoj. O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política. São Paulo: Boitempo, 2016

 

 

 


Créditos na imagem: Foto: Renato S. Cerqueira.

 

 

 

SOBRE O AUTOR

Alexandre Fernandes Correa

Sociólogo, Bacharel em Ciências Sociais IFCS/UFRJ (1986). Mestre em Antropologia Cultural UFPe (1993). Membro da Associação Brasileira de Antropologia (ABA-1994). Doutorado em Ciências Sociais PUC/SP (2001). Pós-Doc I em Antropologia UFRJ (2006). Pós-Doc II em Antropologia UERJ (2010). Professor Associado do Campus UFRJ Macaé (2013). Pós-Doc III em Memória Social UNIRIO (2020). Pesquisador associado do Núcleo de Memória Política (NUMEP – UNIRIO).

Fonte: Batalha das imagens e memórias no bicentenário da nação

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