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Como se faz uma revista científica?

Como Se Faz Uma Revista Científica?

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Concebida em 2012 como um fórum de publicação para os métodos, objetos e teorias em desenvolvimento no campo que designámos “Materialidades da Literatura”, a revista MATLIT publicou o seu primeiro número em julho de 2013. Intitulado “Estranhar Pessoa com as Materialidades da Literatura” (Vol. 1.1), esse primeiro número refletia já uma estratégia de produção que caraterizaria a maior parte dos números publicados desde então. Tratava-se de tomar como ponto de partida para a produção de cada número quer projetos de investigação, quer encontros científicos cujos temas e problemas contribuíam para articular o conjunto de abordagens interdisciplinares que estávamos a consolidar através de uma noção expandida de literatura e de teoria da literatura. Nestes casos, a convocatória aberta para artigos reiterava a convocatória para comunicações produzida no âmbito dos projetos ou dos encontros. Um terceiro procedimento consistiu na disseminação de convocatórias sobre tópicos concetualizados especificamente para determinado número por editores convidados. Deste modo, a coordenação de cada número poderia diversificar-se, quer através de propostas internas baseadas na colaboração entre investigadores da Universidade de Coimbra e de outras universidades nacionais e internacionais, quer através de propostas externas de investigadores que trabalham em áreas afins às do Programa.

Um passo preliminar à produção propriamente dita consistiu na definição de um processo editorial que cumprisse as normas internacionais de controlo de qualidade e na adoção de uma plataforma eletrónica adequada para pôr em prática o processo. A revista adotou o Open Journal Systems, uma plataforma de gestão e publicação desenvolvida pelo Public Knowledge Project desde 2001 que permite integrar todo o fluxo de trabalho de produção (submissão, avaliação, revisão de texto, paginação, indexação, publicação), incluindo a gestão e registo das interações entre os participantes. Na configuração da revista através da plataforma OJS foi necessário garantir cumulativamente o cumprimento de três conjuntos de critérios: (a) critérios formais e de conteúdo científico (página de apresentação com título completo, ISSN, DOI, volume e número, mês e ano; garantia de conteúdo científico original igual ou superior a 75%; equipa de arbitragem; avaliação duplamente cega; etc.); (b) critérios gerais de qualidade editorial (conselho editorial, incluindo a filiação institucional dos membros; participação de avaliadores externos; historial, âmbito disciplinar e objetivo da revista; periodicidade; homogeneidade dos fascículos quanto ao número de artigos publicados; regras para os autores, tais como copyright, idioma, estilo de citação, indicações sobre apresentação de textos, imagens, resumo, palavras-chave, etc.; instituição responsável pela edição; bases de dados onde está indexada, etc.); (c) critérios de acessibilidade: política de acesso ao título (com ou sem registo; com ou sem embargo; com ou sem custos de subscrição; acesso aberto parcial ou integral). Além disso, decidimos ainda publicar cada artigo em duas versões (em PDF, numa versão da revista inteiramente paginada para impressão; em HTML, para leitura multidispositivo em ecrã) e, quando necessário, fazer edições multimédia, combinando texto, imagem, áudio e vídeo.

Os dois projetos de investigação que originaram o primeiro número (1.1) eram dedicados à obra de Fernando Pessoa: Nenhum Problema tem Solução: Um Arquivo Digital do Livro do Desassossego (CLP, 2012-2015) e Estranhar Pessoa: Um Escrutínio das Pretensões Heteronímicas (ELAB e IFL, 2013-2015). O segundo número da revista (1.2), intitulado “Escrita e Cinema”, surgiu também a partir de um projeto de investigação: Falso Movimento: Estudos sobre Escrita e Cinema (CEC, 2012-2015). Outros números resultaram de colóquios organizados ou coorganizados pelo Programa: “ActaMedia XI: Simpósio Internacional de Artemídia e Cultura Digital” (18-19 de novembro 2014, Coimbra, em colaboração com a Universidade de São Paulo) está na origem do número “Artes, Média e Cultura Digital”, publicado em 2015 (3.1); “Estudos Literários Digitais” (14-15 de maio de 2015, Coimbra) resultou em dois números do mesmo nome em 2016 (4.1 e 4.2); “Literatura Eletrónica: Filiações, Comunidades, Traduções” (18 e 22 de julho de 2017, Porto; organizado pela Universidade Fernando Pessoa) produziu três números, subordinados aos três subtópicos da conferência e publicados em 2018 (Vols. 6.1, 6.2 e 6.3). Foram ainda produzidos três números resultantes apenas de convocatórias abertas sobre um determinado tema: “Livro e Materialidade” (2.1, 2014), “Vox Media: O Som na Literatura” (5.1, 2017) e “Redes da Poesia Experimental: Circulações Materiais” (7.1, 2019).

A combinação destes três procedimentos permitiu que a revista estabelecesse um campo de intersecção de áreas disciplinares próprio, no qual convergem estudos literários, estudos dos média, estudos fílmicos, estudos do livro, crítica textual, estudos do som e da voz, humanidades digitais, entre outros. Permitiu ainda uma progressiva internacionalização da revista, evitando que se transformasse apenas num fórum da investigação local e publicando um número significativo de investigadores seniores e juniores de diversos contextos geográficos e institucionais da Europa, da América do Sul e do Norte, da Ásia e da Austrália (Cf. Gráficos 1, 2 e 3). Esta internacionalização foi ainda pensada segundo uma lógica trilingue, na qual português, inglês e espanhol foram definidas como  línguas de publicação da revista (Cf. Gráficos 4 e 7). Conseguiu, por último, estabelecer um diálogo continuado com teóricos e artistas cujas obras têm sido estudadas no Programa. Para além das entrevistas realizadas e de um conjunto de artigos de referência de vários desses autores, merece igual destaque a secção de recensões críticas (Cf. Gráfico 5). Nessa secção, o diálogo sistemático com bibliografia recente obedece a um duplo objetivo: por um lado, a construção de um cânone do Programa através de uma amostragem representativa dos livros que lemos;  por outro lado, a aprendizagem dos protocolos da linguagem crítica da investigação avançada e a formação no exercício difícil de ler e escrever sobre teoria (Cf. Gráfico 6).

Uma revista académica faz-se com autores, leitores, editores, avaliadores, revisores de texto, compositores e designers, uma rede vasta de colaborações motivada pelo objetivo de publicar nova investigação através de um processo moroso e exigente de controlo de qualidade, e condicionada pelos contextos e posições institucionais dos diversos agentes de produção de investigação. Ainda que este processo esteja hoje formalizado em plataformas como o OJS e similares, estruturadas de acordo com os padrões internacionais de controlo de qualidade na gestão e produção de publicações académicas, ele não se concretiza sem uma quantidade enorme de trabalho oferecido por muitos dos participantes no processo. Esta economia de dádiva é, de resto, definidora do modo de produção das publicações científicas. No caso da MATLIT, um outro princípio tem orientado a sua produção: proporcionar uma experiência colaborativa de aprendizagem dos processos de gestão e produção de uma revista científica em formato eletrónico, uma vez que a participação na comissão editorial tem sido parte do programa de formação dos jovens investigadores, que podem assim desempenhar diferentes papéis no fluxo de trabalho.

Olhemos ainda para a revista considerando os critérios bibliométricos, isto é, os sistemas de medida que estabelecem o valor reputacional de cada título dentro do campo cultural das publicações científicas a partir de indicadores como o fator de impacto, calculado através da ponderação relativa das citações recolhidas automaticamente pelos sistemas indexadores. Embora a revista MATLIT: Materialidades da Literatura não esteja indexada em bases de dados de referência como a Web of Science e a Scopus (trata-se de um processo que a Imprensa da Universidade de Coimbra tem ainda em preparação), é possível verificar um gradual crescimento do número de referências a artigos publicados na revista, num espaço institucional e geográfico amplo (Europa, América do Norte e do Sul). Esta atenção crescente é, de resto, indicada também pelo número de visualizações e transferências de ficheiros registados na plataforma UC Digitalis, na qual todos os números da revista têm sido republicados (aproximadamente entre 100 e 200 para o intervalo de 1 ano; entre 500 e 1000 para o intervalo de cinco anos ou mais). Apesar disso, dada a sua natureza fortemente interdisciplinar e dado o seu modo de produção, a sua posição manter-se-á como periférica dentro do sistema reputacional das revistas de estudos literários.

Em suma, a pergunta “como se faz uma revista científica?” deve ser respondida pela prática. No caso da MATLIT, neste momento em que a prática pode já ser objeto de um olhar retrospetivo, responder significa escutar também todos os ecos que reverberam naquela pergunta: como se faz uma revista científica em humanidades? como se faz uma revista científica num novo campo de investigação de natureza interdisciplinar? como se faz uma revista científica numa universidade portuguesa? como se faz uma revista científica em várias línguas? como se faz uma revista científica tirando partido do meio digital? como se faz uma revista científica enquanto projeto de formação e de aprendizagem num programa doutoral? como se faz uma revista científica em diálogo com investigadores juniores e seniores em múltiplos espaços institucionais e geográficos? como se faz? como se continua a fazer?

 

A revista MATLIT (2013-2019) em sete gráficos:

Gráfico 1. MATLIT 2013-2019: Artigos de Investigação Publicados. Diversidade institucional e geográfica. © MP, 2020.

Gráfico 2. MATLIT 2013-2019: Artigos de Investigação Publicados. Filiação institucional dos autores. © MP, 2020.

Gráfico 3. MATLIT 2013-2019: Artigos de Investigação Publicados. Percentagem relativa de investigadores juniores e seniores. © MP, 2020.

Gráfico 4. MATLIT 2013-2019: Artigos de Investigação Publicados. Diversidade linguística. © MP, 2020.

Gráfico 5. MATLIT 2013-2019: Recensões Críticas Publicadas. Livros, Exposições, CD-áudio. © MP, 2020.

Gráfico 6. MATLIT 2013-2019: Recensões Críticas Publicadas. 33 autores, 68 leituras. © MP, 2020.

Gráfico 7. MATLIT 2013-2019: Recensões Críticas Publicadas. Diversidade linguística. © MP, 2020.

Fonte: Como se faz uma revista científica?

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