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De Panamérica a Hitler do III Mundo – As narrativas lisérgicas de José Agrippino de Paula

Publicado em: De Panamérica a Hitler do III Mundo – As narrativas lisérgicas de José Agrippino de Paula

José Agrippino de Paula e Silva (1937-2007) é um dos nomes pouco conhecidos da literatura por um público amplo, porém de grande importância para o cenário contracultural brasileiro, tendo como característica de suas obras, o diálogo com diversas linguagens artísticas, como o cinema, o teatro e a literatura, entre outras. Seus livros surgem de uma relação criativa complexa, em que o ilógico frequentemente se transforma em uma metáfora social. Além disso, a ruptura com os padrões artísticos, tanto na forma como no conteúdo, situarão suas obras num campo da literatura marginal. É possível afirmar que sua obra coloca-se como inovadora e detentora de uma sensibilidade estética fundante em pleno século XXI, reverberada em uma narrativa cinematográfica sempre delirante e antropofágica.

Agrippino nasceu em São Paulo. Arquiteto de formação, se enveredou na área artística, sendo um dos mentores do Tropicalismo, movimento que propôs uma renovação artística e fomentadora de emblemáticas questões acerca do caráter identitário brasileiro. Importante destacar o momento histórico em que as principais obras de José Agrippino de Paula foram produzidas. No contexto internacional havia a ameaça nuclear, ditaduras militares na América Latina, a cultura de massa atravessando e domesticando o comportamento dos indivíduos dentro da lógica capitalista e, antagonicamente, uma resistência composta por parte da juventude que começou a se rebelar contra o sistema estabelecido de formas não convencionais e transgressoras.  A imprensa norte-americana, no início dos anos 1960, denominou a resistência juvenil contra o sistema vigente de “contracultura”.

Os ecos da contracultura norte-americana e europeia ganharam visibilidade no Brasil, em fins da década de 1960, através das artes e da imprensa alternativa, abordando temas como sexualidade, drogas, música (rock), filosofias orientalistas, psicanálise, entre outros assuntos não discutidos pelos meios oficiais. O mote do movimento foi à liberdade no sentido “sartreano”, tomada como a responsável por gerar a autonomia e a responsabilidade na condução da própria vida, bem como a “grande recusa” marcusiana, isto é, contra a ideia de homem unidimensional gerado pelo capitalismo e a tecnocracia. Teve um caráter artístico inicialmente com o Tropicalismo, e ganhou outras nuances durante toda a década de 1970, com experiências nas artes denominadas como independentes e marginais, tomadas como formas de resistência e reexistência em um período de cerceamento da liberdade.  Tentou-se no Brasil, através do Movimento Tropicalista, articular um discurso diferenciado de enfrentamento ao sistema estabelecido no mundo e no país com a ditadura militar iniciada em 1964, denominado de “desbunde”, explicado pelo pesquisador Diniz (2017, p. 72): “a gíria desbunde significava algo pejorativo, principalmente entre os grupos clandestinos de luta armada, equivalente a uma curtição ou alienação voluntária, algo superficial relacionado à contracultura norte americana e, portanto, não levada muito a sério”.

A partir do boom do Tropicalismo e em sua esteira, livros e impressos alternativos começaram a ser publicados dentro de um esquema precário de produção e distribuição durante a década de 1970. Neste sentido, as obras de Agrippino, como a de outros artistas experimentais, tiveram pouca visibilidade na época e, ainda hoje, permanecem praticamente no anonimato, circulando em meios cults ou acadêmicos.

Em 1965, Agrippino publicou seu primeiro romance, intitulado Lugar Público, pela editora Civilização Brasileira. A obra retrata a vida nas grandes cidades, evidenciando a solidão e a impotência do indivíduo diante de um sistema que torna sua existência desencantada, mecânica e destituída de significado. Os personagens do livro recebem nomes de figuras historicamente imponentes, como Napoleão, César e Pio XII, porém, na narrativa, eles representam antagonicamente as pessoas comuns, invisíveis no cotidiano contemporâneo, que se veem à deriva e executam suas ações diárias de forma automatizada:

Eu abro a porta do quarto, entro na sala, abro a porta da sala e entro no elevador. O elevador desce, eu abro a porta, percorro um corredor, desço três degraus, e saio para a rua. Os automóveis e ônibus passam nos dois sentidos, e de um e de outro lado da rua existem automóveis e caminhões estacionados. Os dois pares de fios do ônibus elétrico acompanham o sentido da rua. A rua é estreita e cercada por prédios de doze andares; dois ou três prédios em construção interrompem a regularidade da altura. (PAULA, 1965, p. 182-183).

A narrativa de Agrippino, como evidenciado na passagem acima, apresenta uma abordagem minimalista no que diz respeito aos personagens e ao enredo. Essa abordagem permite que o leitor tenha liberdade para interpretar os personagens e imaginar o curso dos eventos. O texto não fornece explicações detalhadas antecipadas, permitindo que o leitor descubra as ações dos personagens à medida que elas se desenrolam. Isso cria uma sensação de presença ao ler o texto e envolve o leitor nos acontecimentos como se fosse uma testemunha ocular. Lugar Público é uma obra que claramente incorpora elementos do existencialismo sartreano, transmitindo a ideia de que a vida humana é uma busca sem sentido. O existencialismo foi uma das características marcantes da literatura contracultural, abordando questões sobre a existência, a morte, a liberdade e outros temas fundamentais em situações-limite. A liberdade, palavra-chave da geração contracultural, de acordo com essas premissas filosóficas, deveria ser abraçada, o que significa que o indivíduo tem a responsabilidade e a autonomia para escrever sua própria história.

O romance acompanha a jornada de um estudante universitário que decide deixar sua cidade natal e sua família para estabelecer-se em um local comum. Ao longo da história, ele se depara com uma variedade de situações cotidianas e interage com personagens singulares que cruzam seu caminho nas ruas de uma grande metrópole. O enredo central desse ambiente urbano reflete a ideia de que “Quando se vive, nada acontece”, transmitindo a sensação de um diário que registra suas ações em meio à turbulência dos eventos, como a formatura, as instabilidades e as incertezas em relação ao futuro. Essas experiências levam o protagonista a questionar a insignificância do ser, especialmente após a morte de seu pai, enquanto percebe que todos estão aguardando sua vez “na fila”, que representa a única certeza da existência.

 

Ele estava numa fila de homens e mulheres que olhavam indiferentes à chuva. A sua consciência estava absorvida por aquele jogo variado e contínuo das gotas batendo no asfalto. Ele pensou que aquela fila estava à espera da morte, e não só aquela fila de homens e mulheres, mas todas as filas do mundo e toda a humanidade estava à espera da morte. O que tornava esta espera única e particular era a falta de emoção que acompanhava este acontecimento, uma placidez e resignação. A norma diz que cada um possui o seu momento e que a impaciência é desnecessária. Todos aguardavam um mesmo resultado, mas apesar deste fato ser comum a todos, não contribuía para a união de todos num choro geral. Todos percebiam a gravidade deste termo: aguardar a morte; mas nenhum deles esboçava um gesto de revolta ou violência, permaneceram tranquilos, encarcerados em seus ossos e em sua carne. A união se daria fora deste campo, fora desta espera intransferível, a união se daria depois de ter cessado a espera, uma união onde as vozes se dispersam num choro silencioso. (PAULA, 1965, p. 147).

 

A narrativa adquire uma força lírica devido à circularidade das ações, que não seguem um objetivo claro e objetivo, mas sim evocam sentimentos. O narrador-lírico, fragmentado e subjetivo, está imerso na contemporaneidade e é caracterizado por uma existência complexa e intensa, desprovida de qualquer sentido, em completo desamparo: “Existem dias em que estou prestes a explodir como uma bolha de sabão. Uma explosão silenciosa” (Paula, 1965, p. 134). Essa descrição evidencia a carga emocional da narrativa, destacando a falta de direção e a sensação de efemeridade que permeia a vida dos personagens.

Outro aspecto que se faz notório em toda a obra de Agrippino, seja na literatura, no teatro ou no cinema, é sua crítica “não engajada” ao autoritarismo e, consequentemente, à ditadura militar, especialmente percebido no filme Hitler do III Mundo.

O filme Hitler do III Mundo (1968) foi originado a partir da peça teatral intitulada Tarzan do III Mundo (1967), produzida pelo grupo experimental Sonda, dirigido por José Agrippino e sua esposa Maria Esther Stockler. Durante duas décadas, o filme permaneceu no anonimato, sendo divulgado apenas em circuitos restritos durante o período de abertura política na década de 1980. A essência da obra reside na crise de identidade individual, em um momento de apatia decorrente do contexto histórico em que foi produzido, com foco em um ditador impotente que busca estabelecer o fascismo no Terceiro Mundo, e em uma esquerda representada por heróis que têm finais inglórios e trágicos. Essa representação fragmentada e deformada revela uma realidade dissonante, ressaltando aspectos sombrios e perturbadores da sociedade brasileira. Através desses elementos desfigurados, a obra busca provocar reflexões sobre a condição nacional, expondo questões profundas e perturbadoras que podem estar presentes no tecido social. Essa abordagem intensa e crítica visa chamar a atenção para as contradições e desafios enfrentados pelo Brasil tanto no contexto da ditadura quanto nos dias atuais.

Em obras como Hitler do III Mundo, Panamérica e outras do autor, o insólito emerge devido à distorção da realidade, causando estranheza e desconforto. Essa incongruência entre a composição de espaços, tempos, personagens e ações, que se afasta da experiência cotidiana, estava em alta na literatura das décadas de 1960 e 1970. Ela surge como uma resposta ao contexto político das ditaduras militares na América Latina, como uma forma de criar versões fora da história oficial, como é o caso de Panamérica que marcou uma ruptura e uma radicalização estética em relação às formas tradicionais de fazer literatura no Brasil na época. Foi o segundo livro publicado por José Agrippino de Paula, lançado em 1967 pela editora Tridente. A obra teve mais duas edições subsequentes: uma em 1988, pela extinta editora Max Limonad, e outra em 2001, pela editora paulistana Papagaio. O autor apresentou o livro como uma epopeia, uma narrativa extensa que aborda feitos memoráveis e heróicos. A primeira edição recebeu elogios do crítico e físico Mário Schenberg, que a considerou “uma contribuição de importância internacional para a utilização literária de alguns dos mitos fundamentais contemporâneos” (PAULA, 1967). Essa recepção positiva destacou a relevância da obra de Agrippino no cenário literário, reconhecendo sua abordagem inovadora e sua exploração dos mitos contemporâneos.

Na obra, há uma nota explicativa que declara: “Qualquer semelhança existente entre personagens desta epopeia não é mera coincidência” (PAULA, 1967, p. 7). No entanto, esses personagens aparecem no texto do autor como símbolos que motivam o mito, sem uma conexão existencial com seu verdadeiro valor humano ou sua vivência espiritual e carnal. Tal obra foi além dos ditames normalizadores, representando uma nova subjetividade polifônica, fragmentada, lisérgica, inerente à contracultura: “Os bilhões de espermatozoides formaram um redemoinho negro sobre o lago artificial da feira, e giravam zumbindo a uma velocidade supersônica” (PAULA, 1967, p. 186). O texto é apresentado por meio de uma sequência de imagens estranhas oriundas do inconsciente e da experiência lisérgica, uma abordagem ousada de descondicionamento dos jovens da época, também relacionada ao misticismo. Sua linguagem espontânea encontra pontos de interseção com a literatura beat e a linguagem cinematográfica.

A princípio, o texto pode parecer obscuro, mas à medida que a narrativa se desenrola, revela-se uma “epopeia pop” em sintonia com a vida urbana, retratando a industrialização, a banalização do consumismo e a influência dos meios de comunicação de massa, entre outros pontos de reflexão. A saga de tentar viver esse momento é explorada sob uma perspectiva lírica, conduzindo o leitor em uma imersão cinematográfica, em uma viagem pelo novo mundo, por uma América desprovida de território definido. Durante essa jornada, o narrador/cineasta, responsável pela filmagem de “A Bíblia Sagrada”, estabelece relações com ícones da cultura pop, como Marilyn Monroe, John Wayne, Cary Grant, Marlon Brando, “Joe” DiMaggio e Che Guevara, entre outros. No entanto, a obra não busca encontrar pontos de conexão comuns entre esses ícones, mas sim apresentá-los como figuras intrigantes e explorar a profundidade psicológica dos personagens. A ideia central, conforme descrito por Favaretto (2001, p. 2), é criar uma exterioridade pura dos eventos, transformando-os em ícones ou emblemas.

A intensidade e a crítica de José Agrippino de Paula em relação ao sistema estabelecido são características marcantes em suas obras, que exploram o “incomum” e abordam a história do Brasil e da América em um período de ditaduras, influenciadas pelo surrealismo, literatura beat norte-americana, estética pop e a antropofagia oswaldiana. Além de seus livros, filmes e peças teatrais, Agrippino também produziu shows para o grupo Os Mutantes, se envolveu com a cultura hippie, embarcando em viagens pela África, Estados Unidos e Bahia, e viveu em comunidades alternativas. Em 1980, ele recebeu o diagnóstico de esquizofrenia e, a partir de então, passou a viver em condições precárias na cidade de Embu das Artes, no interior de São Paulo, até seu falecimento em 2007. Suas produções artísticas continuam a ser transgressoras e vanguardistas, atravessando o século XXI, mantendo-se fiéis ao seu propósito de “fazer barulho” como Agrippino sugeria.

 

 

 


REFERÊNCIAS:

DINIZ, S. C. Desbundados & marginais: MPB e contracultura nos anos de chumbo (1969-1974). 2017. Tese (Doutorad o em Sociologia) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, 2017.

FAVARETTO, C. A outra América. Folha de São Paulo, São Paulo, 9 jun. 2001. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/resenha/rs0906200101.htm>. Acesso em: 10 out. 2022.

GOFFMAN, K JOY, D. A contracultura através dos tempos: do mito de Prometeu a cultura digital. Rio de Janeiro, Ediouro, 2007.

 

PARA CONHECER MELHOR AGRIPPINO: 

Hitler 3º Mundo – Panaméricas de Áfricas utópicas

Céu sobre água

Áfricas Utópicas

Candomblé no dahomey (josé agrippino de paula, 1972)

Jorge Bodanzky conta Agrippino (2010) – dir. Eugenio Puppo

Prosa poética

 

 

 


Créditos na imagem: Reprodução: José Agrippino de Paula. Enciclopédia Itaú Cultural.

 

 

 

SOBRE A AUTORA

Patrícia Marcondes de Barros

Doutora e Mestre em Historia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP, 2007), com trabalho sobre a imprensa alternativa de cunho underground, proliferada nos anos de ditadura militar. Especialista em História Social, pela Universidade Estadual de Londrina (UEL,2000), com trabalho monográfico sobre identidade nacional e Tropicalismo. É autora do livro “Panis et Circenses”: a ideia de nacionalidade no Movimento Tropicalista (EDUEL, 2000), organizadora do livro “Sol da Liberdade” (Editora Vieira & Lent, 2014) de autoria do jornalista, roteirista de TV e filósofo, Luiz Carlos Maciel e uma das organizadoras do livro Transas da Contracultura Brasileira (Editora Passagens, 2020). Atualmente, suas pesquisas abarcam a Produção Independente brasileira na década de 1970 (Cinema, Teatro, Literatura), a Formação Docente na contemporaneidade e o Ensino de História e Linguagens. Realizou estágio Pós-Doutoral em Educação (Universidade Católica de Santos (PNPD/CAPES), em Estudos Literários (PNPD-CAPES) pela Universidade federal de Uberlândia e em Literatura, Cultura e Tradução pela Universidade Federal de Pelotas (PNPD-CAPES). Possui graduação em Letras e História.

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