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Entrevista Profissional a António Pina Falcão

Publicado em: Entrevista Profissional a António Pina Falcão

A nona, e última, entrevista em vídeo da iniciativa da Comissão Técnica Profissão a associados aposentados que se evidenciaram na profissão, e que estiveram indelevelmente ligados à origem e desenvolvimento da BAD, teve a participação de António Pina Falcão, que nasceu em 1950.

O nosso entrevistado começa por afirmar que a sua primeira interação com o mundo das bibliotecas “foi em Castelo Branco, com a biblioteca municipal (…), e não posso dizer que tenha sido um contacto muito agradável, uma vez que era uma biblioteca extremamente tradicional, onde imperava o silêncio, onde o funcionário que, enfim, que atendia, não dava qualquer tipo de apoio, uma biblioteca à moda antiga, com as estantes fechadas e, portanto, era uma biblioteca que não captava os potenciais utilizadores, que utilizei algumas vezes, mas não com aquele entusiasmo, nem com aquele, que poderia ter acontecido se, eventualmente, a biblioteca funcionasse de outra maneira. Portanto, o funcionário falava com os utilizadores quase por monossílabos e, como disse, não prestava qualquer tipo de apoio, nem de aconselhamento.”

Depois de finalizar o ensino secundário, em Castelo Branco, António Pina Falcão dá-nos conta do início da sua vida profissional, em 1970, como Técnico Auxiliar de Biblioteca, Arquivo e Documentação na Câmara Municipal de Lisboa. Foi nas bibliotecas municipais de Lisboa, nas respetivas bibliotecas itinerantes, que tal aconteceu, já que “a Câmara Municipal de Lisboa na altura tinha quatro bibliotecas itinerantes, eu estava, precisamente, numa delas e, portanto, em serviço externo, numa dessas bibliotecas, a Biblioteca Itinerante nº 2, mais concretamente, que cobria a zona ocidental da cidade”, experiência que memorável para o resto da sua vida profissional. O nosso entrevistado trabalhou neste município durante 13 anos, passando pela Biblioteca Camões (por duas vezes, a segunda das quais, em 1985-186, como responsável), onde o marcou a coleção de livros em Braille, e pela Hemeroteca Municipal, os últimos dos quais desempenhando funções equivalentes como Técnico Superior de Biblioteca e Documentação. Todavia, como alude, foi somente após a conclusão do Curso de Especialização em Ciências Documentais, em 1986, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa de Lisboa, que iniciou o percurso profissional como Técnico Superior de Biblioteca e Documentação.

Findo este período nas bibliotecas municipais de Lisboa, entre 1986 e 1992 desempenhou funções no Centro de Documentação e Informação dos CTT, na Biblioteca Nacional, no Centro de Informação Técnica para a Indústria do Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial (CITI – LNETI), e no Instituto Politécnico de Lisboa, vivências a que se refere como “muito diferentes”.

A derradeira etapa da extraordinária trajetória profissional de António Pina Falcão, entre 1 de junho de 1992 e 8 de março de 2021, desenrolou-se na Presidência da República, no âmbito da qual desempenhou, sucessivamente, funções de técnico superior e assessor, de Chefe de Divisão de Documentação e Biblioteca e de Diretor de Serviços de Documentação e Arquivo, num período de quase 30 anos, de que nos apresenta uma detalhada retrospetiva.

Foi nesta etapa em que, atendendo à importância que o contacto com outras realidades nacionais assume para a valorização profissional, aceitou, com a anuência da Presidência da República, o convite da Embaixada dos Estados Unidos da América, em Lisboa, para participar no International Visitor Program “American Libraries”, promovido pela United States Information Agency. O programa da visita, que decorreu durante todo o mês de junho de 1995, incluiu visitas a bibliotecas de tipologia diversa em vários Estados americanos, bem como a participação no congresso da American Library Association. António Pina Falcão carateriza esta oportunidade, no seu todo, como uma “experiência única (…) extraordinária, sob todos os aspetos, também sob o ponto de vista pessoal.”

Sobre a valorização do bibliotecário à época diz-nos “eu acho que era uma profissão muito pouco valorizada socialmente e isso porque as instituições também não tinham sido, as instituições em que estes profissionais operavam também não eram valorizadas pelo próprio regime, o regime do Estado novo, e também o novo regime ainda não lhes tinha começado a dar a atenção que veio a dar mais tarde. A maior parte das bibliotecas e arquivos portugueses encontrava-se, talvez, no que se pode dizer num estado deplorável, numa pobreza confrangedora, em matéria de instalações, de coleções e de recursos humanos. Portanto, a profissão e os profissionais, obviamente que também, digamos, acabaram por registar, por sofrer uma desmoralização que advinha da própria desmoralização das instituições.”

A sua ligação à BAD, de que é sócio desde 1976, as razões que o levaram a aderir a esta, o que encontrou quando se associou, dando-nos conta da sua colaboração com a Associação nos anos do seu estabelecimento e consolidação, mas também qual a perspetiva que atualmente tem da mesma, foram abordadas de seguida nesta fascinante viagem pela carreira do nosso entrevistado.

Na realidade, a atividade profissional de António Pina Falcão evidencia a fortíssima relação com a BAD: Entre outras funções, integrou os órgãos sociais da Associação durante oito mandatos, quatro deles como Presidente (mandatos de 1994-1995, 1996-1998, 2005-2007 e 2008-2010) e dois como Vice-Presidente (mandatos de 1999-2001 e 2002-2004); foi Vogal da Formação do Conselho Diretivo Nacional da BAD (mandatos de 1990-1991 e 1992-1993); Coordenador do Grupo de Trabalho de Documentação e Informação da Administração Pública da BAD (2000-2001 e 2002-2003) e membro do Conselho Consultivo Nacional da BAD (1982-1986), tendo assinado uma vasta ação em todos os domínios de intervenção da Associação. Por outro lado, em representação da BAD, foi eleito em diversas ocasiões para órgãos de estruturas internacionais, com destaque para os seis mandatos cumpridos no Comité Executivo da EBLIDA – European Bureau of Library, Information and Documentation Associations, a federação europeia do setor. Estes elementos levam António Pina Falcão a sublinhar a importância que a BAD teve na sua vida, afirmando que “tenho dificuldade em imaginar o profissional que seria se não tivesse passado pela experiência de duas décadas, mais de duas décadas na Associação e, portanto, sob esse ponto de vista, eu considero que, praticamente, só tive ganhos, eu só ganhei com isso”, mas também tudo o que fez ao serviço da mesma.

Por via da reflexão que realizou sobre a Informação e Documentação em Portugal, o nosso entrevistado escreveu 32 trabalhos de natureza individual e cinco em coautoria, como nos declara, muitos deles não publicados, salientando “uns cinco ou seis” destes, “não porque eles sejam merecedores de grande atenção, mas porque a eles me ligam momentos que eu vivi de forma muito intensa.”

Em paralelo com a atividade profissional, António Pina Falcão também desenvolveu uma impressionante atividade docente e formativa, mormente no Curso de Especialização em Ciências Documentais e da Licenciatura em Estudos Europeus, ambos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e no Curso de Intermediários de Informação para a Indústria, promovido pelo LNETI, com a colaboração do Departamento de Estudos da Informação da Universidade de Sheffield, e, finalmente, nos Cursos de Técnicos Profissionais, promovidos pela BAD. Também participou, como coordenador e coautor, na elaboração dos programas curriculares dos Cursos de Técnicos Adjuntos e de Técnicos Profissionais de Biblioteca e Documentação, criados ao abrigo de diplomas legais e ministrados pela BAD, e, a convite do Ministério da Educação, na elaboração do programa das disciplinas da componente científico-tecnológica do Curso Tecnológico de Documentação (10º, 11º e 12º anos), experiências que recorda e de que nos dá as suas impressões.

O nosso emérito entrevistado foi condecorado por três Presidentes da República, nomeadamente o Grau de Oficial da Ordem de Mérito, em 4 de março de 2006, pelo Dr. Jorge Sampaio, o Grau de Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique, em 16 de fevereiro de 2016, pelo Prof. Doutor Cavaco Silva, e o Grau de Comendador da Ordem de Mérito, em 8 de março de 2021, pelo Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa. Referindo-se a estes importantes reconhecimentos, frisa que “em primeiro lugar, em qualquer das situações, foi sempre uma surpresa, depois, obviamente que também mentiria se dissesse que não foi agradável, de facto, quando tive conhecimento disso, em qualquer das ocasiões e, principalmente, pelo facto de serem três personalidades completamente diferentes.”

O novo coronavírus (SARS-CoV 2) e a COVID-19, que provocaram alterações profundas nos serviços de informação em Portugal, desde a organização do trabalho interno, ao atendimento aos utilizadores e à comunicação da informação, também não foram esquecidos neste depoimento, pelo que António Pina Falcão esclarece-nos sobre quais pensa terem sido os grandes desafios e oportunidades que as bibliotecas e os arquivos, e os seus profissionais, tiveram de enfrentar neste período tão singular e complexo, entre meados de março de 2020 até bem recentemente.

De igual modo, considerando a sua longa e notável trajetória na área das bibliotecas e arquivos em Portugal, o nosso entrevistado diz-nos como é que vê o futuro destes serviços de informação, deixando conselhos a quem pretenda iniciar-se nesta área profissional e, por fim, quais é que pensa serem os grandes riscos, desafios e oportunidades para os seus profissionais.

Por último, António Pina Falcão fala-nos dos seus projetos em curso e futuros, em que destaca o desafio que “a Presidente da Associação, a colega Ana Alves Pereira (…) me lançou de contribuir para criar, para elaborar umas achegas, uns subsídios para a história para o período em que houve esforços para criar a Associação, que ainda foi um período de cerca de uma década, e também um período posterior à criação da Associação, pelo menos os primeiros 10 anos.”

Tal como os anteriores entrevistados, António Pina Falcão lega-nos um testemunho de excecional importância, que contribui decisivamente para a compreensão da história da fundação e evolução da BAD, e dos seus profissionais, que orgulhosamente somos nós, e que é fundamental fixar e divulgar.

As nove Entrevistas Profissionais, realizadas no âmbito dos 50 anos da BAD, encontram-se disponíveis no canal de Youtube da BAD.

Paulo Batista
Comissão Técnica Profissão / Conselho Nacional 2021/23

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Fonte: Entrevista Profissional a António Pina Falcão
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