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Estado da Arte 2013-2020 | Materialidades da Literatura

Estado Da Arte 2013-2020 | Materialidades Da Literatura

Publicado em: Estado da Arte 2013-2020 | Materialidades da Literatura

No passado dia 18 de junho de 2020, entre as 10h e as 18h, o Doutoramento em Materialidades da Literatura (DML) realizou, por videoconferência, o “Estado da Arte 15”. Com o subtítulo “contigência, emergência, calamidade, desconfinamento”, este encontro teve não só o propósito habitual de observar o estado das teses, mas serviu também para falarmos sobre o efeito da pandemia nas nossas condições de trabalho e no nosso ânimo enquanto grupo de investigação. Com 22 participantes, incluindo 14 apresentações de teses em curso, esta foi a décima quinta edição deste encontro semestral que se realiza desde maio de 2013. Foi também uma forma de assinalarmos em regime remoto os dez anos do DML, cuja primeira iniciativa, uma conferência de Lev Manovich, ocorreu a 18 de junho de 2010. Mas o que tem sido exatamente o Estado da Arte?

Uma das dimensões cruciais da formação de investigadores em programas de doutoramento diz respeito às práticas de orientação e de monitorização durante o período de desenvolvimento da investigação e de escrita da tese. Concluída a parte curricular com a aprovação do projeto de tese, a estrutura de trabalho e de interação que os seminários semanais oferecem desaparece, com a consequente quebra da atmosfera de estímulo intelectual e de debate coletivo. Uma vez aprovado o projeto de tese, algo que ocorre no final do primeiro ano ou, como acontece com o DML, no final do 3º semestre, a orientação tutorial individual tende a tornar-se a forma de contacto dominante (e, em certos casos, única). A transição entre a estrutura ritmada dos seminários e a ausência de momentos regulares de atenção sincronizada, nesse período pós-curricular, tem um efeito interruptivo da conversação com consequências negativas, que a orientação tutorial só por si nem sempre consegue minimizar.

A orientação tutorial pode, por sua vez, separar-se em dois momentos: um momento pré-projeto, durante o qual doutorando/a e orientador/a se reúnem para trabalhar na concetualização do problema e dos objetivos do projeto, na definição do corpus de análise, da metodologia e da bibliografia relevante; e um momento pós-projeto, em que esses encontros tutoriais passam a acompanhar a redação da tese através de feedback específico, quer a resultados preliminares da investigação, de que resultam muitas vezes comunicações e artigos, quer às primeiras versões de subcapítulos e capítulos do texto final. A frequência destes encontros passa a depender, em grande medida, da capacidade do/a doutorando/a de produzir e mostrar os resultados preliminares do trabalho em curso e, muito em especial, das amostras de escrita que está disposto/a a submeter à arbitragem do/a orientador/a. Daqui resultam ritmos de interação muito variáveis, por vezes com longos períodos sem produção de materiais. Se doutorandos/as descobrem, com surpresa, que o cronograma tão meticulosamente planeado vai sofrendo constantes ajustes por terem subestimado a dificuldade do empreendimento,  orientadores/as interrogam-se muitas vezes se a escrita terá parado definitivamente ou se a longa paragem serve apenas para recuperar o fôlego.

Desde a sua criação que o DML tem concebido práticas para acompanhar colaborativamente o processo de investigação e de escrita, evitando o efeito de desagregação do espaço coletivo de indagação nesse momento pós-projeto, no qual o trabalho se torna sobretudo individual. Uma dessas práticas é o encontro semestral de discentes e docentes que designámos “Estado da Arte”, no qual os/as estudantes do Programa são convidados/as a descrever o progresso e os dilemas do último semestre, submetendo essa descrição à crítica pelos pares, através de comentários e perguntas. Este modelo segue a prática do Seminário de Orientação do 3º semestre, no âmbito do qual a versão final de cada projeto é objeto de uma crítica entre pares através da partilha de várias iterações do projeto, sucessivamente reescritas pelos respetivos autores em resposta a comentários e perguntas do grupo.

O modelo desenvolvido pelo DML tem algumas particularidades relativamente a encontros de apresentação do trabalho em curso noutros programas doutorais. Não tem a forma de um colóquio no qual os doutorandos apresentam comunicações formais. Também não é um encontro aberto, pois a participação é restrita aos membros discentes e docentes do DML. O seu objetivo é simultaneamente científico, na medida em que a componente de investigação apresentada é objeto de crítica pelos pares, e pedagógico, dado que todos os participantes devem expor os dilemas em que se encontram e fazer uma autoavaliação pública da relação entre o planeado e o conseguido para esse semestre, e também de eventuais reconcetualizações de aspetos específicos do seu plano à medida que o processo de investigação lhes permite perceber melhor o seu objeto, o seu método e a sua escrita.

Na candidatura ao concurso de Programas de Doutoramento FCT (submetida em fevereiro de 2013), na alínea “6.2 Monitoring of students”, escrevemos: “During the thesis development stage, the Program holds joint peer-review meetings, where students present the ongoing stage of their research and discuss their problems and ideas with peers and professors. Besides these group peer-review meetings, each student holds regular meetings with his or her thesis adviser, according to the approved timeline.” Os “Estados da Arte” correspondem aos encontros coletivos de crítica pelos pares projetados naquela descrição, mas a forma particular que tomaram resulta de um processo continuado de socialização e aprendizagem por todos os participantes que concretizaram cada uma das suas quinze sessões. Esse treino, resultado da repetição e afinação do modelo inicial, desenvolveu progressivamente uma prática de crítica aberta entre pares, que é essencial alimentar e manter em contexto de investigação avançada.

O que tem sido então o Estado da Arte? Por um lado, uma combinação de formalidade e informalidade que ajuda a que as intervenções possam ser realmente momentos de interpelação aberta ao trabalho em curso, e não a apresentação fechada de resultados ou conclusões. Deste modo, os participantes prestam-se a um diálogo genuíno, mostrando os bastidores dos seus processos e incorporando o feedback que recebem. Por outro lado, um estado de confiança mútua, que permite a quem fala expor o seu trabalho sem receio e criticar de modo construtivo o trabalho alheio, e uma ética solidária de colaboração, ciente da natureza coletiva do trabalho científico e da crítica sistemática como um instrumento fundamental de controlo de qualidade. Não se trata apenas de um modo de prevenir (ou minorar) o solipsismo e a solidão, que por vezes tomam conta do período de escrita da tese, mas constitui sobretudo um modo de renovarmos a energia da interrogação e da inteligência partilhadas, necessárias para cumprirmos o exigente compromisso que assumimos perante nós mesmos e perante os outros.

Fonte: Estado da Arte 2013-2020 | Materialidades da Literatura
Feed: Materialidades da Literatura
Url: matlit.wordpress.com
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