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Games de guerra como possibilidade de construção do conhecimento histórico

Games De Guerra Como Possibilidade De Construção Do Conhecimento Histórico

Publicado em: Games de guerra como possibilidade de construção do conhecimento histórico

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O ensino de História, a partir da década de 1970, se ramificou em duas linhas de concepção: uma positivista e outra reprodutivista. A primeira, baseada em uma crença de que o desenvolvimento histórico é o resultado de uma “ordem” e de um “progresso” naturais, que ocorrem em uma série de fatos explicados por uma sucessão previsível de causas e efeitos. Já a segunda, um mero instrumento de reprodução ideológica, adotada no Brasil durante a Ditadura Militar que, impediu o aspecto crítico e dialético da disciplina. Com a ascensão e estruturação da Escola dos Annales – que irá dar origem à Nova História -, sobretudo a partir da década de 1980, os modelos anteriores serão subvertidos, ampliando o campo de explicação social e aumentando a criticidade na abordagem do saber histórico. Ainda bem!

Esse texto, assim como outros que escrevi, busca diversificar as ferramentas de auxilio no processo de ensino e aprendizagem de nossos discentes. Músicas, filmes, games, quadrinhos… são instrumentos que, além de atraírem a atenção dos jovens, fazem parte de seu dia a dia. A produção de games hoje, por exemplo, envolvem centenas de pessoas e investimentos altíssimos. Só no Brasil, o mercado de games movimentou US$ 1,5 bilhão em 2019, cerca de R$ 5,6 bilhões, sendo o maior mercado na América Latina, segundo dados da consultoria Newzoo. A pesquisa ainda mostrou que existem aproximadamente 75,7 milhões de jogadores no país [1].

Desse meu interesse em associar História e jogos de vídeo game – e também por ser um jogador assíduo – mostro no presente texto como os jogos Battlefield 1 e Call of Duty: WWII, podem ser ferramentas preciosas nas mãos de professores, no mínimo, interessados em fazer algo diferente quando ensinam sobre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.

 

A GRANDE GUERRA (1914-1918)

Menos utilizada pelas mídias do que a Segunda Guerra Mundial, a Primeira reúne um conjunto de conflitos ideológicos que vão do nacionalismo ao imperialismo, passando por conflitos comerciais e étnicos. É importante ressaltar a grandeza desse conflito, tendo em vista que entre o início do século XIX até 1914, nenhuma das grandes potências europeias entraram em guerra entre si. Mas tudo isso mudaria em 1914. Com exceção dos Países Baixos, da Espanha, Dinamarca, Noruega, Suécia e Suíça, todas as grandes potências europeias se envolveram na Grande Guerra. “Canadenses lutaram na França, australianos e neozelandeses forjaram a consciência nacional numa península do Egeu […] e, mais importante, os Estado Unidos rejeitaram a advertência de George Washington quanto a ‘complicações europeias’ e mandaram seus soldados para lá, determinando assim a forma da história do século XX” [2].

Retornando aos “preparativos” da guerra, em 1908, o Império Austro-Húngaro conquista dois territórios muito disputados nos Balcãs: a Bósnia e a Herzegovina, países de origem eslava. Isso desagradou extremamente a Rússia, que tinha interesses na região. Para pressionar ainda mais esse barril de pólvora que era a Europa, o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, e sua esposa, a Duquesa Sofia de Hohenberg, foram assassinados em junho de 1914, em Sarajevo, quando desfilavam em carro aberto pelas ruas da capital. Pronto, o pavio foi aceso; uma grande guerra estava a caminho.

Estima-se que cerca de 10 milhões de pessoas morreram nos campos de batalha. Aproximadamente 20 milhões de feridos ou mutilados. Mesmo com muitas baixas, os EUA saem da guerra como uma potência mundial, devido a sua neutralidade durante boa parte do conflito (os norte-americanos declaram guerra à Alemanha em 6 de abril de 1917), quando puderam se dedicar a uma produção agrícola e industrial que abasteceram europeus.

Em 1919 e 1920 seriam realizados na França, no Palácio de Versalhes, algumas conferências que contavam com a participação dos países vitoriosos na Grande Guerra. Foi imposto à Alemanha, através do Tratado de Versalhes, duras penalidades e, caso não fossem aceitas, teriam o seu território invadido. Assinado pelos alemães, esse Tratado impunha a perda de colônias, perda de território, diminuição do exército, o pagamento de uma grande indenização aos vencedores entre outras humilhações. O caminho para a ascensão do nazismo e de uma segunda guerra mundial estava pavimentado.

Em 2016 é lançado, pela Electronic Arts, o game Battlefield 1, inédito até então nas grandes empresas de eletrônicos, pois seria o primeiro a abordar a Primeira Guerra Mundial. A reconstrução de cenários na África e na Europa são fantásticos, assim como as vestimentas, os arsenais e a utilização de cavalos e armas químicas. O jogo ainda introduz na história os Harlem Hellfighters, uma tropa, ainda que pouco conhecida, de soldados afro-americanos que lutaram na França.

Em Battlefield 1 você não se concentra em apenas um personagem, mas em cinco “Histórias de Guerra”, cobrindo vários momentos históricos do conflito, como a batalha de tanques em Cambrai, na França , a guerra nos Alpes italianos, a desastrosa campanha de Gallipoli na Turquia, as batalhas de aviões e as batalhas nos desertos do Oriente Médio. Temas que podem ser trabalhados em sala de aula gerando uma interatividade com os alunos e alunas.

 

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1939-1945)

Mesmo após a destruição causada pela Grande Guerra (1914-1918), vinte anos depois, as potências europeias empreenderam novos ataques que culminariam na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A partir de 1918 a Europa viveu um clima de intensa agitação política, pois houve um fortalecimento dos regimes totalitários fascistas e do comunismo soviético.

Após toda a humilhação causada á Alemanha pelo Tratado de Versalhes, teremos a ascensão do nazismo liderado por Adolf Hitler e que, ao contrário do que dizia o tratado, empreendeu uma corrida armamentista com a finalidade de tornar o país novamente uma grande potência militar. Essa ideia fez com que grande parte dos alemães o apoiassem em seu projeto politico imperialista que se baseava no sentimento nacionalista, no arianismo e no anticomunismo. Em 1935, a Alemanha já possuía uma poderosa força aérea, uma marinha bem equipada e um numeroso exército.

França e Inglaterra se mostravam temerosas com uma possível invasão germânica, mas, um acordo tramado entre Alemanha e URSS as preocupou ainda mais. A URSS percebendo o risco de uma invasão nazista em seu território, procurou o governo alemão para firmar um pacto de não agressão, que foi assinado em agosto de 1939. As duas potências acordaram em não se atacarem e ainda invadiram a Polônia e combinaram sua divisão. Tanto Stálin quanto Hitler sabiam que essa “paz” era temporária, porém, foi de interesse no momento para ambos os lados. Agora a Alemanha poderia voltar sua atenção e se dedicar ao ataque à França e à Inglaterra; e a URSS teriam tempo para organizar a defesa de seu território. Dois dias após a invasão do território polonês, Inglaterra e França declaram guerra à Alemanha, marcando oficialmente o inicio da Segunda Guerra Mundial.

No conflito mais violento de nossa história, cerca de 60 milhões de pessoas perderam suas vidas; mais de 10 milhões de pessoas (6 milhões de judeus) foram mortas nos campos de concentração; e as bombas atômicas lançadas pelos EUA no Japão – no maior ataque terrorista da humanidade – assassinaram cerca de 200 mil japoneses, além de contaminar outras centenas de milhares com a radiação. Potências que “venceram” a guerra estavam arruinadas, com grandes prejuízos econômicos e cidades destruídas e sem condições de reconstrução.

Lançado em novembro de 2017, o game Call of Duty: World War II, produzido pela empresa Sledgehammer Games e distribuído pela Activision para PlayStation 4, Xbox One e Microsoft Windows, traz o jogador na pele do soldado Ronald Daniels da Primeira Divisão de Infantaria dos EUA. Já no início da campanha, você é levado às praias da Normandia, na França, em 6 de junho de 1944 onde o soldado Daniel faz parte da operação Overlord, o famoso Dia D. Vale aqui enaltecer o excelente trabalho gráfico e, principalmente sonoro, pois o som das ondas batendo em seu anfíbio antes do desembarque, proporcionam uma tensão que só não é maior do que os sons de tiros que atingem e passam raspando pela sua cabeça. O número de baixas por parte dos Aliados foi altíssimo, estima-se algo em torno de 4.400 e cerca de 9 mil feridos ou desaparecidos, mas, era importante avançar pelo litoral, tendo em vista que não se sabia a quantidade de soldados alemães na região.

Pode parecer um pouco estranhos para os professores de História que não estão familiarizados com os games. No entanto, além de serem extremamente influentes em nossos alunos e alunas, possuem investimentos altíssimos e, como no caso de Call of Duty: WWII, possuem historiadores e especialistas na construção de todo o enredo, desde a construção de cenários até as armas e vestimentas. No meu ponto de vista, hoje, ignorar os vídeos games é uma oportunidade perdida de atrair o interesse e atenção de nossos jovens. Os jogos que possuem algum envolvimento histórico tornaram-se uma forma popular de expandir conhecimento, pois, além do Dia D, World War II ainda traz outros momentos marcantes da Segunda Guerra Mundial, como a Operação Cobra, a Batalha de Aachen, a Batalha da Floresta de HürtgenBatalha das Ardenas e da libertação de um campo de concentração de judeus.

Na terceira parte do modo História, o seu melhor amigo dentro da infantaria, um judeu chamado Robert Zussman, é capturado pelos alemães e enviado para um campo de contração, a história do jogo toma outro rumo, pois, além de sobreviver às batalhas, você parte em busca do seu companheiro. O fim da Guerra nos revelou a verdade dos dias mais sombrios da humanidade. Mais de 6 milhões de judeus e 3 milhões de outros foram presos, desumanizados após serem jogados e trancados em um dos mais de 40.000 campos de concentração, onde sofreram todos tipos de experiências e atrocidades causadas pelos nazistas.

 

GAME OVER

Games como Call of Duty: WWII e Battlefield 1 fornecem aos alunos e alunas novos meios de se experimentar, pesquisar e explorar a história das guerras. Terão a chance de explorar locais históricos, simular certos acontecimentos e vivenciar, mesmo sendo de forma virtual, o passado. O objetivo desse texto não é apontar o que devem ou que não devem jogar, não! A função do professor e do historiador é procurar compreender onde e como a nossa sociedade está interagindo com a História e quais suas implicações. E isso não fica isolado apenas aos jogos, estende-se a filmes, séries, HQ’s, novelas…

Essa interação é crucial para, que professores e professoras, possibilitem aos seus alunos e alunas o desenvolvimento das capacidades de ler e interpretar as mais diversas fontes, sejam elas artísticas, orais, musicais, cinematográficas… o que for. Que eles e elas possam elaborar e expor suas opiniões, oferecendo-lhes oportunidades para que se reconheçam enquanto sujeito histórico. É importante pensar em como ensinar História diante desse mundo atual marcado pelo acesso quase irrestrito às informações e saberes, inclusive escolares.

 

 

 


NOTAS

[1] Disponível em: https://valorinveste.globo.com/objetivo/empreenda-se/noticia/2019/07/30/brasil-e-o-13o-maior-mercado-de-games-do-mundo-e-o-maior-da-america-latina.ghtml

[2] HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

 

 


Créditos na imagem: Cena do jogo Call of Duty: World War II.

 

 

SOBRE O AUTOR

Diogo Tomaz Pereira

Sou professor e mestre em História formado pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gosto de escrever textos que associam a cultura pop às ciências humanas, pois acho uma excelente forma de atrair a atenção e o interesse de jovens.

Fonte: Games de guerra como possibilidade de construção do conhecimento histórico

ID Feed: HH Magazine

Url (Fonte): hhmagazine.com.br

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