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grafismo da capa do disco de José Afonso – a.muse.arte

Grafismo Da Capa Do Disco De José Afonso – A.muse.arte

“Foram-se os bandos dos chacais
Chegou a vez dos tribunais
Vão reunir o bom e o mau ladrão
Para votar sobre um caixão
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu
[…]
Vamos matar o justo que ali jaz
Para quem julga tanto faz
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também”
Brecht/José Afonso

O trabalho para a capa do disco Coro dos Tribunais foi produzido no contexto político e cultural do pós 25 de Abril, sendo um dos primeiros trabalhos executados por José Brandão ainda a residir em Londres, tendo a colaboração de Cristina Reis na composição do texto e no acompanhamento da produção. Neste projeto, José Brandão pretendeu incutir uma nova consciência profissional, onde a atividade do designer gráfico podia assumir afirmações de cunho pessoal. Esta era uma atitude inédita no panorama do design português, mesmo considerando a atividade de outras personalidades como Sebastião Rodrigues. O projeto teve uma abrangência que ultrapassava a conceção gráfica e incluía a intervenção em atividades complementares nos domínios da criação artística e do acompanhamento de todas as fases de produção, incluindo a fotografia, a composição do texto e das letras e a preparação das artes finais, de modo a assegurar a concretização da ideia, tão rigorosamente quanto possível.

Afonso, José
Coro dos tribunais [Registo sonoro] / José Afonso; il. e design José Brandão; fotog. Martin Slavin
[S.l.]: Orfeu, 1975.
Formato: LP (disco vinil) 38 x 38 cm: capa e contracapa

A capa de disco formato LP é formada por dois fólios estruturados em díptico; o invólucro do LP insere-se no primeiro fólio.

O exterior (capa e contracapa) é integralmente ocupado por dois desenhos a tinta da China, impressos a preto sobre fundo branco, o que lhe confere um aspecto essencialmente monocromático. Na capa, a composição é triangular com o vértice desviado à esquerda, permitindo que, no canto superior direito da capa, se insira o título do trabalho (Coro dos tribunais) e o nome do autor (José Afonso), destacando-se as duas componentes pelo agrupamento dos dois elementos e pela introdução da cor. Por outro lado, distingue-se, no título da obra, uma maior expressividade conferida pela escolha do tipo Caslon Antique e em maiúsculas, sugerindo a indecisão associada ao coro dos tribunais, e o nome do autor numa letra mais neutra em Futura Light, a preto. No canto superior direito, apresenta-se a identificação da editora. Na contracapa, repete-se a informação relativa ao autor e título da obra e indicação da edição.

Afonso, José
Coro dos tribunais [Registo sonoro] / José Afonso; il. e design José Brandão; fotog. Martin Slavin
[S.l.]: Orfeu, 1975.
Formato: LP (disco vinil) 38 x 38 cm: capa e contracapa

No interior do díptico, no reverso da capa, apresentam-se as letras das canções, num texto em cinco colunas. O cabeçalho de cada lírica é composto pelo título em Clarandon, a negro, e os nomes dos autores no mesmo tipo, reduzido; as letras apresentam-se em redondo. O tamanho do tipo de letra e os diferentes espaços clarificam e estrutura do texto.

No anverso da contracapa insere-se uma fotografia de grupo, com cinco dos artistas intervenientes no disco: sentados, no primeiro registo, José Afonso e Carlos Alberto Moniz; de pé, atrás, Fausto e Adriano Correia de Oliveira; ao centro, num banco alto, Vitorino. A fotografia a preto e branco é contornada por uma margem preta, o que acentua o aspeto formal das expressões austeras e das poses rígidas, numa evocação da atitude simbolicamente atribuída à resistência. Sob a fotografia e à laia da legenda, apresenta-se a ficha técnica e o elenco das músicas.

O grafismo da capa e da contracapa foi concebido a partir de um desenho propositadamente elaborado para o efeito e inspirado na letra do tema que confere o título ao trabalho. Rompia a tradição gráfica das capas de disco, onde geralmente dominava a imagem fotográfica do artista, introduzindo um objecto de arte mais elaborado e especificamente relacionado com o conteúdo conceptual da obra. A intervenção do designer gráfico é dilatada através da sua participação como artista plástico.

O coro dos tribunais é representado, na capa, como um aglomerado de seis figuras fantásticas e complexas, que evocam o ambiente político e social da ditadura, cuja memória se mantinha acesa e marcante nos tempos que se seguiram à revolução de 25 de Abril. Os juízes são personagens caricaturais e animalescas, inspiradas num horizonte onírico e surreal próximo do imaginário medieval e com claras referências ao universo de Hieronymus Bosch: criaturas monstruosas e ambíguas elaboradas com fragmentos de pássaros, insetos ou répteis, com focinhos retorcidos ou bicos aduncos, olhos esbugalhados, corpos sinuosos ou com papos imensos e asas anacrónicas, peles cobertas por feridas ulceradas ou com tufos de pelos eriçados, garras afiadas. A figura central enverga um manto que, sendo um inequívoco atributo de poder, se apresenta aqui coberto de estrelas, numa alusão ao traje dos palhaços ou dos mágicos de circo. Todos estes elementos contribuem para a definição do tribunal arbitrário onde “Para quem julga tanto faz“. Registam-se ainda influências de figuras de influência no design gráfico como Milton Glaser e Seymour Chwast, que frequentemente tratavam estes assuntos com grandes preocupações sociais e políticas.

Na contracapa, as figuras, com idêntica feição caricatural, após o julgamento, rodeiam o corpo do réu condenado, o inocente abatido, o justo morto de que fala o texto. Esta figura, a única de formas humanizadas, jaz estendida ao longo do registo inferior da composição, de olhos fechados, corpo coberto pelas marcas da tortura, vestindo uma camisola de alças de operário e pernas cobertas por um pano. O contraponto entre a horizontalidade do homem e a verticalidade dos monstros confirma a sensação de impotência e vulnerabilidade do réu derrubado (“O morto já não sente a dor“) sob a força dos juízes que o rodeiam como abutres (“Vêm as águias almoçar”), na contemplação do cadáver e prestes a devorar a presa. Aos pés, uma outra figura rastejante, numa alegoria ao lacaio, aproxima-se numa observação atenta, com uma das patas sobre o corpo inerte, numa tentativa de apropriação dos restos que os juízes deixassem escapar.

Ambos os desenhos elaboram uma alegoria do tribunal posto ao serviço de um poder despótico e irracional, onde a condenação antecede o julgamento, tal como é descrito no texto original de Brecht e segundo a tradução de José Afonso.

Nota: Texto elaborado a partir de informações prestadas por José Brandão, na preparação da obra biográfica Ceia, A. J., & Bartolo, J. (2014). José Brandão, Designer: Cultura e prática do design gráfico. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, B2.


Fonte: grafismo da capa do disco de José Afonso – a.muse.arte

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