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Gritos em Guernica – a.muse.arte

Gritos Em Guernica – A.muse.arte

Gritos de niños gritos de mujeres gritos de pájaros gritos de flores gritos de ladrillos gritos de muebles de sillas de camas de cortinas de cazuelas de gatos y de papeles gritos de olores que se arañan gritos de humo picando en el morrillo…
Picasso (1937). Sueño y mentira de Franco

Entre as 4h30 e as 7h45 de 26 de abril de 1937, em plena Guerra Civil da Espanha, a vila basca de Guernica, conhecida como local de resistência e, portanto, alvo do governo espanhol, foi brutal e violentamente atacada por um bombardeamento, levado a cabo pelas tropas alemãs, lideradas pelo marechal alemão Wolfram von Richthofen, em apoio ao ordens do líder nacionalista, General Francisco Franco, apoiante de Hitler. Um terço da população da vila, cerca de 2300 pessoas, foram mortas ou ficaram gravemente feridas, e a cidade velha foi totalmente destruída.

Guernica bombardeada
26 de abril de 1937
Foto: AP

No início de janeiro de 1937, Picasso havia sido contactado por uma delegação espanhola, convidando-o a participar no pavilhão espanhol da Exposição Internacional de Paris, a inaugurar em maio seguinte. A proposta era que Picasso fizesse uma pintura de 4 por 11 metros, que ocupasse toda uma parede do pavilhão. Como o edifício devia ser demolido depois do evento, a pintura seria feita em tela para que pudesse ser conservada.

Songe et mensonge de Franco
Pablo Picasso, 1937

“Songe et mensonge de Franco” (Sueño y mentira de Franco, ou Sonho e mentira de Franco) é um conjunto de 18 cenas, em duas pranchas calcográficas, as quais deveriam ser vendidas separadamente para suportar os espanhóis afetados pela guerra. Porém, foi decidido vendê-las juntamente com o fac-simile de um poema surrealista escrito pelo pintor durante a sua elaboração, produzidas por Picasso. Este conjunto é considerado como primeira obra de Picasso de conteúdo marcadamente político, contra a guerra civil espanhola e a política franquista, e muitos dos motivos aqui apresentados servem de matriz à pintura Guernica. As primeiras 14 cenas, datadas de 8 e 9 de janeiro de 1937 são, portanto, anteriores ao ataque de Guernica, e têm como tema central Franco, rodeado de referências à mitologia clássica e ao bestiário medieval: Franco sobre um cavalo, com uma espada e uma bandeira (tema que se repete); a caminhar sobre uma corda, com um falo gigante; a atacar o busto da República espanhola; vestido como uma cortesã, com uma flor e um leque; a ser corneado por um touro; de tiara papal e gorro marroquino, a rezar a uma moeda de ouro; a expelir cobras do corpo; a caçar Pégaso; com uma lança, montado num porco; a devorar um cavalo morto; a enfrentar um touro; ou, como um centauro deformado a lutar com um touro. Apenas duas gravuras representam cenas de finais de batalha; um corpo de mulher jazente no chão; um homem e um cavalo mortos. As cenas datadas de 7 de junho, feitas ao mesmo tempo que trabalhava Guernica com que apresentam grande afinidade estilística, trazem claras referências ao bombardeamento: uma mulher a chorar e a olhar para cima; mulher com uma criança a fugir de uma casa em chamas; mulher e criança (mãe e filho) mortos; uma mulher ferida por uma flecha ergue-se entre ruínas face aos filhos.

Picasso’s Guernica came to be the emblem of the moment […]. While the painting ‘s initial semi-abstract form and generalized themes ensured that the masterpiece transcended the historical circumstances of its production in early June of 1937 to become an icon of man’s inhumanity to man. (Jones, & Clark, 2008, p. 423)

Guernica
Pablo Picasso, 1937
Madrid, Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia

A Guernica, para lá das diferentes interpretações que tem sugerido, com leituras que oscilam entre uma propagandística manifestação de protesto contra o bombardeamento da vila basca, efetuado por fascistas estrangeiros no quadro de uma guerra civil, e a complexidade do imaginário pessoal do artista e das suas referências, é uma obra comprometida com o acontecimento e uma tomada de posição política. Picasso faz uma afirmação de lealdade para com o povo espanhol, cujo sentido é acentuado pelo facto de ser expatriado, encontrando-se exilado em França. Numa linguagem modernista, onde se reflete o hibridismo de influências que a geram, Picasso proclama-a como um instrumento de guerra, simultaneamente, ofensivo e defensivo contra o inimigo. Não foi uma criação, também ela, pacífica: as fotografias, pequenas e intimistas, tiradas por Dora Maar, mostram o conflito, as correções, a luta entre o pintor e a sua obra.

O tom cromático evoca o luto. Ou, talvez, o registo fotográfico nos jornais onde Picasso terá conhecido os efeitos dos bombardeamentos sobre uma Guernica aniquilada. Não obstante, intui-se, nestes cinzentos e negros, o sangue e a carne rasgada. Há uma pietà, a mãe que segura o filho morto, sublimando neste sofrimento supremo os corpos amontoados ou decepados – um braço, uma mão a segurar uma espada partida e uma flor inesperada. Há um touro que cai na arena da guerra e há um cavalo cuja língua triangular se torna uma lança cortante. A narrativa é preenchida por sobreposições e interseções. O lamento e os gritos que a percorrem falam do absurdo, do medo, da agonia, do sofrimento e do desespero. Tudo, aqui, é um imenso, atroador grito que ainda hoje ecoa.

Referência bibliográfica:
Jones, C. A,. & Clark, J. (2008). Nationalism and internationalism in modern art. In S. Gopal & S. L. Tikhvinsky, History of Humanity: Scientific and cultural development (v. 7): Twentieth-century (408-446). London: New York: UNESCO, Routledge.


Fonte: Gritos em Guernica – a.muse.arte

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