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Heliogábalo: Imperador ou Imperatriz? | HH Magazine

Publicado em: Heliogábalo: Imperador ou Imperatriz? | HH Magazine

Marco Aurélio Antônio, também chamado de Heliogábalo, foi um imperador romano de origem siríaca. Nasceu e foi criado na Síria até se tornar imperador romano em 218 d.c, aos 14 anos de idade. Era membro da dinastia severiana, que governou o Império de 193 e 235. Durante seu curto governo, foi retratado em diversos documentos textuais, tendo como marca as descrições exageradas de sua indumentária e seus modos, assim como os desvios de certos padrões normativos de gênero.

Recentemente o museu inglês North Hertfordshire, em Hitchin, resolveu alterar os dados do material que expõe ligado a um imperador romano depois de concluir que ele era, na verdade, uma mulher trans[1].A fonte para a decisão é Dião Cássio, senador Romano, especialmente sua descrição de Heliogábalo feita no volume 8º da obra História Romana[2].

Existem muitos aspectos interessantes nas críticas de Dião Cássio ao governo e à figura de Heliogábalo, propomos portanto analisar os aspectos chave da argumentação do Senador afim de avaliar de maneira crítica a decisão quanto ao tratamento de sua figura. Inicialmente podemos entender a forma como Dião o nomeia, referindo-se a ele como falso Antonino[3]. Essa expressão pode ser entendida como uma tentativa de tornar ilegítimo o pertencimento de Heliogábalo à dinastia Severa, e por conseguinte sua autoridade como imperador. Esse aspecto da obra e da crítica de Dião pode possuir muitas origens. De todo modo, como veremos, intensifica-se ao longo da obra, culminando nas críticas mais específicas em relação a sua indumentária, seu comportamento e mesmo suas práticas sexuais, fazendo uso de exageros e indicações de violações do mos maiorium[4] para depreciar o imperador.

Apesar de haver diversas críticas tecidas por Dião aos aspectos políticos do governo de Heliogábalo, uma delas é mais emblemática: a de não respeitar o processo de escolha antes de ocupar cargos públicos, no momento em que se torna o Princeps, de acordo com Dião:

‘’Em ambas, a mensagem ao senado e a carta ao povo, ele declarou-se imperador e César, filho de Antonino, neto de Severo, Pius, Felix, Augustus, pro-cônsul e detentor do poder tribunício, assumindo esses títulos antes que eles tivessem sido votados, e ele usou, não o nome de Avitus, mas o de seu pretenso pai.’’ (Dião Cássio, LXXX, 2, 2-2, 3).

No trecho, Dião acusa Heliogábalo de não respeitar o processo eleitoral para certos cargos, assim como, implicitamente, acusa-o de não interagir com o Senado, comportamento que Dião apresenta como típico de Heliogábalo, mas que, na realidade, é característico de toda dinastia Severa em diferentes graus. Percebe-se que a crítica de Dião e sua constante referência à degradação dos costumes romanos pode estar relacionada a ascensão entre 211 e 222 d.C das facções aristocráticas orientais, que passaram a exercer grande influência na administração do Império Romano, principalmente sob o governo de Heliogábalo. Assim como pelo enfraquecimento desde o início da dinastia Severa do poder do senado e das aristocracias tradicionais romanas às quais o próprio Dião pertencia (ainda que Dião Cássio não fosse itálico e tenha escrito sua obra em grego)[5]. Esse processo pode ter influenciado na crítica de Dião especialmente às caraterísticas de Heliogábalo que eram mais evidentemente Siríacas, que são provenientes de visões estereotipadas em relação a estrangeiros.

Podemos verificar na leitura da História Romana de Dião Cássio a constante referência depreciativa em que, segundo ele, Heliogábalo demonstrava querer se parecer com uma mulher, em seu hábito de raspar o queixo, o uso de maquiagem para pintar os seus olhos, o hábito do imperador de dançar enquanto proferia um discurso, ou mesmo quando caminhava e seus trejeitos ao fazer sacrifícios ou ao ser saudado. Dião Cássio descreve que mesmo em ocasiões em que Heliogábalo se vestia “mais ou menos como um homem”,  ele demonstrava afetação em sua voz e em suas ações[6].

Ao desmontarmos essa sequência de argumentos notamos que o modelo argumentativo de Dião Cassio é uma instrumentalização do mos maiorum a respeito do comportamento das pessoas originárias da região da Síria, sob o estereótipo de que os sírios eram efeminados. Os comentários relativos a raspar o queixo, pintar os olhos e as danças são visões pejorativas acerca das tendências artísticas de Heliogábalo, a “afetação em sua voz” é provavelmente proveniente do fato de Heliogábalo ter apenas 14 anos ao assumir o império. Ele ainda não possuía a voz grave, característica dos homens adultos, mas sim um tom mais agudo, anterior à puberdade, que acabou sendo interpretado e usado como argumento depreciativo para descrevê-lo como efeminado.

O Senador extrapola ainda em suas descrições a prática Síria Sacerdotal de circuncisão para acusar em um último argumento o imperador de querer ter uma vagina:

‘’[…]também em circuncisar a si mesmo e se abster da carne de porco, com o propósito de que sua devoção fosse ainda mais pura. Ele havia planejado, aliás, cortar fora os seus órgãos genitais, mas esse desejo era motivado apenas pela sua efeminação: a circuncisão que ele fez era parte dos requisitos do sacerdote de Elagabal, e assim ele mutilou muitos de seus companheiros da mesma maneira…’’ (Dião Cássio, LXXX, 11.1)

Neste trecho Dião fala da prática da circuncisão, parte das atividades dos sacerdote de Elagabal, mas extrapola o argumento algumas páginas à frente afirmando que Heliogábalo teria pedido aos médicos para implantarem uma vagina em seu corpo através de uma incisão[7].

É importante compreender que os argumentos de Dião não são isolados, eles representam uma moral e uma exigência de vestimenta e comportamento que iam para além necessariamente do gênero, mas que dizem também respeito a uma virilidade, própria do exercício do poder, da mesma forma que dizem respeito ao status social do indivíduo como evidência Mennitti: “O homem, se tratando de um cidadão no sentido pleno, e ainda mais se este fosse um senador ou o próprio imperador, por exemplo, não podia ser visto efeminado”[8] .

Mesmo que esses costumes antigos não fossem mais tão rígidos em Roma, eles serviam como ideal de comportamento para os membros da aristocracia e acima de tudo para o Imperador, uma vez que deter  uma  posição  de poder, vivia em  consonância  com  sua  imagem e o exercício do papel de pater famílias, como dono de direitos majoritários sobre sua família e seu domínio e controle do poder também nos problemas da cidade[9]. Ou seja, a crítica de Dião à postura efeminada de Heliogábalo era antes de tudo uma crítica a sua capacidade de governar.

Existem ainda outros dois aspectos centrais no argumento: a questão dos pêlos faciais e de suas práticas sexuais. Primeiro podemos observar que Dião acusa Heliogábalo de querer se parecer com uma mulher por ter raspado o seu queixo e por ter em seguida ordenado a realização de um festival para comemorar esse acontecimento[10]. A retórica de Dião, no entanto, busca referenciar o costume nas cidades helênicas de deixar crescer a barba entre os homens, e associa o ato de raspar com a busca por uma face feminina. Percebemos novamente uma distorção das atitudes de Heliogábalo. Em primeiro lugar, como Kropp[11] argumenta, o sacerdote de Emesa geralmente tem a pele do rosto lisa, ou seja, não tem barba. Portanto, a atitude de Heliogábalo faz referência novamente a sua origem Síria e a comemoração dita por Dião vem do fato de a retirada da barba ser comum entre os governantes de Emesa, um ato memorável e não uma busca pela feminilidade.

Por último, o argumento em relação às práticas sexuais do imperador. Além das acusações de prostituição, Dião critica o casamento de Heliogábalo com a virgem consagrada à deusa Vesta, ou seja, uma quebra do voto de um voto de castidade da jovem que foi vista como uma ofensa aos Deuses. O Senador ainda afirma que o imperador tinha relações com as mulheres apenas para imitar seus movimentos enquanto estivesse com seus amantes homens[12]. Esta última acusação, de imitar os movimentos femininos é emblemático, uma vez que retoma um tema já tratado aqui, a sexualidade devia  ser  vivenciada  de  modo  que  os cidadãos  deveriam  manter sua  postura  de dominação  e controle, não importando se o parceiro sexual fosse do sexo oposto ou do mesmo sexo, desde que  ele  fosse  o  ativo.  Ser viril,  adotar  uma  postura  “máscula”  era igualmente  importante,  pois  ser  “efeminado” era uma demonstração de fraqueza. 

Heliogábalo trans?

O Museu North Hertfordshire, em Hitchin, na Inglaterra, recentemente afirmou que será “sensível” às supostas preferências de pronomes de Heliogábalo, e dará tratamento nas exposições do imperador como uma mulher transexual, no entanto a fonte que sustenta a decisão do museo é justamente Dião Cássio.

O tempo presente trabalha com demandas profundamente válidas acerca do resgate de narrativas históricas que não são gênero-conformativas e que não seguem padrões cishéteronormativos, e a busca por essas narrativas iluminou o campo histórico com novas questões que têm aprofundado nosso conhecimento sobre o passado e dado voz a indivíduos por muito tempo silenciados.

Este movimento de resgate, no entanto, precisa ser feito com certa cautela, uma vez que nossas categorias modernas muitas vezes podem deixar de lado características sociais e políticas que são particulares às sociedades que esses indivíduos viveram. Resgatar narrativas como as de Heliogábalo, colocam de fato uma visão conservadora e fundamentalista em jogo, e nos permite pensar uma trajetória onde reivindicações acerca dos padrões de gênero e sexualidade sempre existiram. Afirmações como “no meu tempo isso não existia” caem por terra e nos permitem pensar uma história onde, pelo contrário, sempre existiu. O caminho escolhido pelo Museu North Hertfordshire, no entanto, não é o mais prudente e pelo contrário concede uma identidade a Heliogábalo que certamente seria mais bem empregada em outros indivíduos, e que deve ser resgatada para outras figuras, mas não para Heliogábalo.

Apesar da análise aqui proposta, trazer à tona conceitos como masculinidade, feminilidade e virilidade,  não há um ideal fixo. Os   homens   romanos, nem mesmo o próprio imperador, se encaixam permanentemente ou mesmo  seguiram  à risca  os  requisitos  e  princípios  da  sociedade e da  moralidade;  Nos dizeres de Joan Scott “Os homens e mulheres reais não cumprem sempre, nem cumprem literalmente, os termos das prescrições de sua sociedade ou de nossas categorias analíticas” [13].

Heliogábalo é um exemplo de como o discurso acerca dos papéis de gênero em Roma são classificações muito frágeis, apesar da análise aqui se focar na retórica de Dião Cássio que sustentaram a decisão do museo, uma análise comparativa com Herodiano por exemplo, iria expor muito mais do que as distorções e falsas acepções de Dião, mas também visões dicotômicas em relação a muitas das posturas, não  havendo  uma  só moral e sexualidade na sociedade Romana.

A categoria fixa “homem” e os elementos como “masculinidade” e “virilidade” citados aqui algumas vezes, são categorias  vazias  e  transbordantes[14]. Essa análise buscou relativizar como os ideais que transparecem nas críticas de Dião não são necessariamente postulados acerca de posturas de gênero, mas colocações que expõem preconceitos a costumes estrangeiros e hipérboles do autor, utilizados como recursos retóricos para deprecia-lo, mas que de fato expõem a fragilidade desses conceitos.

 

 

 


Referências:

CASSIUS DIO. Dio’s Roman History. Trad. Earnest Cony. London/Harvard: William Heinemann, Harvard University Press, s/d.

CORRÊA, Ariel Garcia. As perspectivas elaboradas por Dião Cássio e Herodiano sobre as práticas político-culturais do imperador Heliogábalo (séc. III dC). 2019.

MENNITTI, Danieli. O ideal de virilidade na obra de Marcial. Anais da ANPUH- SP,

Campinas, 2012 a

SCOTT, Joan. Gênero: Uma Categoria Útil para a Análise Histórica. Traduzido pela SOS: Corpo e Cidadania. Recife, 1990

VEYNE,  Paul. Sexo  e  poder  em  Roma. Prefácio:  Lucien  Jerphagnon. Tradução:  Marcos  de  Castro.  Rio  de Janeiro : Civilização Brasileira, 2008. 253 p

 

 

 


NOTAS:

[1] https://www.bbc.com/portuguese/articles/c97rdr4mzypo

[2] CASSIUS DIO. Dio’s Roman History. Trad. Earnest Cony. London/Harvard: William Heinemann, Harvard University Press, s/d.

[3] Dião Cássio, LXXX, 1.1

[4] “moral  cujo ponto  de referência  é  a  moral  dos  antepassados,  essa  moral  rígida  e bastante  austera  do passado  republicano  e  mais  fortemente  agrário  e  rural,  era  ainda  o referencial.  Ser  efeminado,  não  ser  viril, era  trair  o mos  maiorum” (MENNITTI, 2012a).

[5] CORRÊA, Ariel Garcia. As perspectivas elaboradas por Dião Cássio e Herodiano sobre as práticas político-culturais do imperador Heliogábalo (séc. III dC). 2019.

[6]  Dião Cássio, LXXX, 14.3- 14.4.

[7]  Dião Cássio, LXXX, 16.7

[8] MENNITTI, 2012

[9]  VEYNE, 2008, p.240

[10]  Dião Cássio, LXXX, 14.3-14.4

[11] 2010, p. 202

[12] Dião Cássio, LXXX, 13.1-13.4

[13] SCOTT, 1990, p.20

[14] Idem p.20

 

 

 


Créditos na imagem: The Roses of Heliogabalus (1888). Oil on canvas. by Lawrence Alma-Tadema

 

 

 

SOBRE A AUTORA

Lívia de Oliveira Mendes

Cursando a graduação em História pela Universidade Federal de Ouro Preto, desenvolvendo pesquisa acerca da Vida e da Obra de Sor Juana Ines la Cruz. Atua na assessoria editorial do portal de humanidades HH Magazine, compõe o programa de estágio World Wide Teach-In pela Bard College, e é volutária no Arquivo Lésbico Brasileiro.

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