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Mãe de Iansã | HH Magazine

Mãe De Iansã | HH Magazine

Publicado em: Mãe de Iansã | HH Magazine

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Se você é uma mulher de Iansã, preste atenção nessa história: você não precisa, sequer, de fato ter filhos, pra ouvir que é uma mãe negligente[1]. Eu, cada vez que vou ao veterinário, levar Caramelo (que, frequentemente, se arrebenta brigando na rua, porque teve o mau exemplo de crescer em um lar violento) ouço que estou criando meu filho errado, com pouco cuidado e muito solto, em um mundo onde a rua é, claro, muito perigosa…

No começo, depois de tantos sermões da veterinária, sempre dizendo coisas como ele pode comer veneno, ele pode ser sequestrado, ele pode morrer e, por fim, você está sendo uma mãe negligente…[2] Eu voltava arrasada de culpa pra casa e, durante um dia, no máximo, porque ele é rebelde e mal acostumado, conseguia deixar ele preso em uma vida pra gatos (que muitas crianças, também, vivem) que se chama criação indoors. De resto, os gatos criados dentro de casa, dizem, vivem em média quase o dobro dos que vão na rua.

Eu, que não acredito em estatística, muito menos sobre a morte, acredito mesmo é que ninguém morre de véspera, e gato muito menos… Morrer, claro, um dia ele vai. E quem sou eu, pobre coitada, pra ter o poder de livrar o meu filho das misérias e violências do mundo? Se eu morasse em um apartamento, óbvio, o meu gato seria criado indoors e muito feliz como muitos são, mas, como eu moro em uma casa e um dos maiores prazeres da vida dele, pasmem, é cagar no mato e fora da caixa, quem seria eu pra tirar esse prazer, do meu filho bicho? Ele volta, literalmente, saltitando depois da cagadinha dele! É uma gracinha de ser ver!

Embora eu não acredite em estatística não estou, de jeito nenhum, desqualificando os veterinários que, de resto, vão indo bem melhor do que muitos médicos… Ao contrário, aqui na serra o atendimento (com o que chamam de preços populares) para animais, me deixou chocada. Você entra e em uma sala muito bem equipada onde pelo menos cinco pessoas, entre os estudantes em formação e os veterinários que ensinam a clínica, atendem seu gato! Parece, mesmo, uma espécie de Plantão Médico animal. E eu, que não tenho plano de saúde, se um dia ficar doente, prefiro ser atendida ali, óbvio, do que na UPA. De resto, a clínica é longe e fica láaaaaaaa em frente ao cemitério do Caingá – que é a parte desse latifúndio que cabe, em uma espécie de linha direta sem qualquer parada para o cuidado, a todos os que vão morrer sem sequer passar pela hedionda UPA. Uma cagada na saúde, aliás – uma mistura de hospital de guerra com açougue – que teve a ver bastante com o PT… Ou eu tô confundindo?

Se você ainda não me xingou, mentalmente, ou em voz alta, de mãe de pet, ainda há tempo! Mas, pro seu governo, Pet é aquele cara que defendeu o socialismo no programa da Ana Maria Braga e que jogou no Flamengo até o dia daquela despedida, no Engenhão (eu fui) em que o resultado ficou Flamengo 1 X 1 Corínthians… Também podia, quem sabe, ser uma música do Caetano, cantando com aquele sotaque dele, só pra você: “Você é uma mulher pét pét pét, chata, judiciosa e pétulante…” Caramelo é meu filho, sim, mas com o Diabo que, inclusive, registrou no nome dele a criança:

 

A Padilha tem um gato

Que não é de brincadeira

Meio dia ele é gato

Meia noite Exu Caveira

 

Fora isso tudo, ele nasceu de parto normal, embaixo da bananeira. E a única coisa muito estranha, pra qual eu realmente não estava preparada, foi cuspir uma bola de pelo junto com a placenta pela boca debaixo – bola de pelo e placenta que, inclusive, quem comeu não fui eu, mas a terra…

É claro que, como todo gato e filho do Diabo, ele não é apenas o meu filho: ele é um sábio sufi, um macaco do Tibete, um gato de guarda comunista durante a Revolução Cultural, um coelho comilão em alguma história de Ana Maria Machado, uma onça pintada extremamente selvagem no Pantanal mato-grossense, a reencarnação do meu avô Pérsio – tem dias que ele tá igualzinho mesmo, a cara do velho, que também era meio “russo”! – e tudo aquilo mais no que ele quiser se transformar.

O que importa nessa história, mesmo, é que eu amo o meu filho. E que vocês, com essa chatice de chamar os outros de mãe de pet, podem ir todos pro inferno! Aliás, vocês já viram alguém chamar, pejorativamente, um homem de pai de pet? Eu nunca vi, não…

 

 

 


NOTAS

[1] Por muitos motivos, na minha vida e entorno, eu vejo muitas mulheres de Iansã carregando esse estigma. Quem sabe, um dia eu consigo escrever “mais seriamente” sobre isso, uma vez que essa é mesmo uma questão que me toca muito uma vez que, eu mesma, sou filha de uma Mãe Ensandecida (e maravilhosa) de Iansã…

[2] Essa é uma frase que nunca ninguém deveria dizer pra uma mulher, incluindo os filhos dela. E aqui é onde o meu eu-lírico entra pra pedir desculpas… Você sabe, então, quanta negligência, antes de te negligenciar, a sua mãe sofreu? Essa é uma pergunta que fica pra História…

 

 

 


Créditos na imagem: Louis Wain, Cat and her Kittens. Courtesy of Chris Beetles Ltd.

 

 

 

SOBRE A AUTORA

Fernanda Miguens

Fernanda Miguens é tradutora. Doutora em Filosofia pela UFRJ (2018) com tese sobre a tradução dos dogmas judaicos do leste-europeu para a realidade carioca, no século XIX, pelas mulheres judias apelidadas de polacas. Mestra em Filosofia pela UFRJ (2014), com dissertação sobre algumas das traduções/versões do que chamamos de “filosofia oriental” para o Ocidente. A tradução de Corpos em aliança e a política das ruas – notas sobre uma teoria performativa da assembleia, da filósofa Judith Butler, para a Editora Record e A metade que nunca foi contada – a escravidão e a construção do capitalismo norte-americano, do historiador Edward E. Baptist, para a editora Paz & Terra, são os seus trabalhos mais recentes.

Fonte: Mãe de Iansã | HH Magazine
Feed: HH Magazine
Url: hhmagazine.com.br
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