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Motumbá, Mukuiu, Kolofé | HH Magazine

Motumbá, Mukuiu, Kolofé | HH Magazine

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Foram me chamar, eu estou aqui, o que é que há.

Foram me chamar, eu estou aqui, o que é que há

Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho

Mas eu vim de lá pequenininho

Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho

Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho

(Alguém me avisou)

 

A letra, o ritmo e a melodia de Dona Ivone Lara talvez sejam a única maneira possível de introduzir esse texto, cujo único objetivo é agradecer e homenagear algumas pessoas que vêm me acompanhando e me ensinando muito no desdobramento de minhas atuais pesquisas. Daí as três palavras que intitulam o texto: Trata-se de um pedido de bênção (respectivamente, motumbá para os nagôs; mukuiu para os bantos; e kolofé para os jejes), e tal gesto, aqui, representa minha gratidão pelo dom com o qual tenho sido presenteado nessas tantas “Rodas de Filosofia” que aqui invocarei.

Ainda sobre a epígrafe, esse samba mostra que a “ética da chegada” em uma perspectiva não ocidental não pode ser a do “chegar chegando”, como se diz hoje em dia, ou a do “acabar de entrar no ônibus e já querer sentar na janela”. Quando, numa roda de samba, nos juntamos aos bambas, mesmo que só para nos distrair, é preciso pisar nesse chão devagarinho. E isso, mesmo que tenham ido nos chamar, pois o pudor e o respeito são necessários nessa chegada de quem deve sempre se lembrar de que vem de lá pequenininho.

E, nesse sentido, esse texto nada mais é que um relato sobre alguns chamados que recebi e de como venho tentando responder, devagarinho, a eles e, com isso, como venho tentando encontrar meu lugar nesse campo de pesquisa tão lindo, e pelo qual venho lutando há alguns anos, e que me dá tanta alegria, embora, na maior parte das vezes, esta venha acompanhada de desconforto e até mesmo constrangimento. Falo eu, notadamente, sobre meu lugar no estudo das filosofias africanas e afro-diaspóricas. Com algum pudor, eu me arriscaria a dizer que muitas dessas conquistas para que tais estudos tivessem um lugar na filosofia da UFRJ têm a ver com meu aprendizado com meus alunos, ex alunos, orientandos e amigos. Diria, talvez, que sou eu a grande testemunha de um acontecimento digno desse nome: “As filosofias africanas e afro-diaspóricas na UFRJ”.

Contudo, esse meu aprendizado ou esse meu testemunho, parte de um simples gesto, de me perguntar (como bom leitor de Derrida): como acolher? E, a partir daí: como me posicionar? E é apenas disso que falarei: dos acolhimentos, das posições e de como, hoje, isso marca meu pensamento, minha escrita e remarca minha biografia.

Eu deveria começar falando da importância de minha amizade de décadas com Renato Noguera, e de meu testemunho de como ele se tornou, para mim, a maior referência filosófica em nosso país; alguém sem o qual eu nunca teria a coragem de exercer esse papel que coube a mim no trilhar desse percurso. Contudo, eu não erraria ao dizer que essa amizade, esse carinho e esse respeito foram se intensificando ainda mais nesses últimos oito anos, com a chegada desses aos quais tenho a felicidade de chamar, ao lado de Noguera, de “nossos alunos”.

Ou então, talvez eu devesse, ainda, antes disso, falar do aprendizado que tive, desde o final de minha infância, com grandes amigos que tanto me marcaram: Seu Tranca-Rua, Dona Padilha, Seu Veludo, e tantos outros, alguns que sequer soube o nome, e nem se o tinham. Mas eu quero e preciso começar (pois só a partir daí tal questão, de fato e de direito, se colocou a mim) por relatar um encontro que tenho em 2010, quando a então graduanda Katiúscia Ribeiro me procura para uma conversa.

Eu quero e preciso marcar o quanto aprendi e aprendo com essa amiga filósofa – e não somente sob o aspecto conceitual, o que seria óbvio pelo meu interesse e por sua inteligência aguda, mas, sobretudo, sob o aspecto ético-político das diferentes posições e dos diferentes lugares e discursos. E, mais ainda, preciso sublinhar: sobre minha branquitude.

Dentre muitos e quase-infinitos aprendizados, eu gostaria aqui de elencar, por questão de tempo, apenas dois, mas que foram e são fundamentais para minhas reflexões ainda tão caóticas e incipientes como as que tenho tentado rascunhar nesses últimos anos: o primeiro, ao qual eu chamaria aqui de ético-político, e o segundo, o qual pode ser chamado de teórico-conceitual, se estas divisões fazem algum sentido quando se trata desse pensamento ao qual tanto desejo acolher. E, sabendo que tal divisão não faz sentido algum em termos africanos ou afro-diaspóricos (pois o saber não se deixa dividir e é ele, sempre, epistemológico, ético, estético e político), fala destes dois aspectos como se eles fossem tão distantes apenas para facilitar a dificuldade que encontro ao escrever esse texto, que é escrito absolutamente de coração.

Katiuscia me faz, desde 2010, pensar em qual é meu lugar nesse campo de conhecimento tão lindo e que desejo tanto ver crescer em nossas universidades; ela me permitiu, de modo paradoxal, assumir meu constrangimento, por ter sido sempre “o homem branco que precisa assinar qualquer pedido de relevância formal”; mas tal permissão ao desconforto assumido sempre veio acompanhado de um apontamento da importância de minha participação, apesar e sobretudo no constrangimento, como uma aposta em um projeto maior. Katiúscia, minha orientanda, filha de Ogùn, me fez entender conceitualmente o que, antes, o seu Tranca Rua das Almas tinha explicitado de forma simples e direta: – “Puta que pariu”, disse ele, “O senhor complica muito. É só isso: o senhor é filho de Ogùn. Tem que abrir o caminho e deixar os outro passar”.

O outro ensinamento, para mim muito importante e que eu queria aqui registrar, diz respeito ao aspecto afetivo desse aprendizado. Katiuscia, aliás, é referência nos estudos do coração preto e do ensinamento, com o qual sempre concordamos, de que pensar é pensar com o coração e que, portanto, tal afetividade é o que marca a experiência do pensamento; não a racionalidade objetiva. Em uma aula minha, seus apontamentos críticos aos casamentos interraciais me fizeram compreender, pela primeira vez, a questão sob uma outra perspectiva: trata-se da denúncia de uma história dos corações pretos, que são doutrinados a, a cada geração, amarem cada vez mais a brancura, desejarem seu próprio embranquecimento e terem sempre sua beleza e seus afetos postos de lado nesse projeto de extermínio da pele negra.

Somo a isso outra aprendizagem importante que, também em uma aula, tive com Ellen Rosa. Perguntando a ela sobre sua provável origem europeia, Ellen me responde que tem ascendência italiana, sabendo precisamente em que momento seus antepassados vieram para o Brasil, onde fica a vila de sua origem etc. Ellen, negra, tem a infinitésima parte de sua ascendência, a europeia, bem determinada, enquanto a maior parte de sua ancestralidade, a negra, permanece desprovida de tempo e de espaço.

Isso me fez compreender, melhor do que qualquer texto, a destruição estratégica da genealogia no processo de escravidão: o negro, ao ser atravessado pelo Atlântico, para se tornar propriedade, precisava ter sua identidade totalmente estraçalhada: perdia seu nome próprio (seu eu), seu sobrenome (sua família), seu espaço (pois ele agora é apenas “africano”), seu tempo e sua história. É graças a isso que hoje posso ensaiar algumas reflexões sobre o potencial de resistência do Candomblé, um fato, para mim, filosoficamente fundamental e que, mesmo tendo frequentado os terreiros desde meus dezenove anos, eu nunca teria condições de compreender.

A reunião quilombista das “famílias de santo” é um empreendimento radical para a reconstrução de uma origem que foi violentamente usurpada, reinventando, em uma coletividade agora escolhida, um novo nome, não mais o nome ocidental, e, com isso, sendo restituída ao negro uma nova família, uma ancestralidade garantida, um lugar enfim, numa “comunidade sem comum” que tem como ponto de encontro apenas a privação violenta importa pelo colonialismo, mas que, nessa falta, encontram as infinitas possibilidades de construção coletiva que pensamento algum em nossa vã filosofia ocidental poderia sonhar.

O que me obriga aqui a um breve suspiro: mesmo com tudo o que aprendi com Lévinas e Derrida, nesse esforço para me colocar no lugar do outro, não consigo imaginar o que é, para uma cultura absolutamente voltada à ancestralidade, não a imediatista e narcisista como a do ocidente, ter justamente esse seu aspecto destituído ao longo do processo colonial. Mas a batalha não foi perdida, pois no porão dos navios negreiros, vieram também, junto de seus descendentes, seus orixás, inquices e voduns.

Também queria agradecer aqui a Lucas Boroto, o aluno que sempre me convidou a pensar nas aulas a questão do elitismo, para a abertura não apenas da universidade para a periferia, mas à urgência de tirar a universidade de se eixo, forçando-a a ir de encontro à periferia e seus saberes. O que, para nós, professores brancos, parecia tão novo à academia (tratar da questão da violência nas favelas, da questão policial), para ele sempre pareceu tão tardio, e seu olhar, não diria de desfastio, mas mais de espanto com o atraso de nossas pesquisas, para mim sempre foi algo extremamente instigante.

E esse assombro provocado por Boroto parece ganhar vida e corpo quando sou procurado pela Ialorisà Mharly Ogùn Mejirè Azevedo que, também ela, sob as mãos de Ogùn, me convoca – ou melhor, docemente me ordena – a experimentar a filosofia como possibilidade de Roda e de coletividade. Meu encontro com Mharly me fez repensar muito de minha trajetória como pesquisador e também minha autobiografia.

Lembro aqui de uma das primeiras conversas com meu primeiro orientando em filosofia africana, Rodrigo dos Santos, e de como seu mestrado, sobre Esù, deveria ser ainda apenas o Ipadè, para que em sua tese, ele pudesse, já tendo agradado Esù, pensar a filosofia como acontecimento, que só pode se dar, como ensina Mharly, sob a forma circular do sirè!

Esse emaranhado de tempos que trago aqui, no qual se entretecem estratos diferentes de passados e futuros, sem presente e sem presença alguma, só é também possível de ser pensado – e escrito – no completo abandono da perspectiva temporal linear do ocidente, pois como, há muito me ensinou Noguera: “A pedra que Esù jogou hoje matou o pássaro ontem”.

Devo aqui render também minha homenagem ao querido amigo Marcelo Moraes, figura pilíntrica cujo crescimento acompanho há anos e cuja história se esbarra com a minha em diferentes pontos, desde o garoto de chinelo que estudava hospitalidade em Derrida até o hoje doutor e especialista nos mestres da periferia. Marcelo sempre trouxe a coragem, o desprendimento e a irresponsabilidade fundamental ao pensamento – e quero aqui não apenas exaltar seus conhecimentos sobre desconstrução, Ubuntu e Teko Porã, mas sublinhar a importância para mim de seus textos sobre Madame Satã, sobre o samba e de sua preocupação com os mestres da periferia.

É graças a Marcelo, em nossas muitas conversas, quase todas elas fora da sala de aula e a maioria em mesas de bar, que retomo ideias abandonadas, como escrever sobre Estamira, a maior filósofa contemporânea brasileira, e que pensamos, juntos, em como dar voz a tantas filosofias que se manifestam nos terreiros através das entidades afro-brasileiras.

Por fim, preciso marcar um encontro, este bem recente, mas que tem se mostrado, para mim, precioso, pois Fábio Borges-Rosário é uma das mentes mais agudas com as quais me deparei em minha vida, portador da sábia sabedoria silenciosa com a qual devo tanto aprender. Entre muitos ensinamentos, Fábio me deu um dos presentes mais valiosos para pensar não só meu percurso recente na filosofia, mas talvez toda a minha vida. Trata-se de um dos verdadeiros dons, como diria Derrida: aquele que se dá sem se saber que está dando e que, por essa razão, traz estampada a marca da verdadeira relação com a alteridade.

Isso se deu em uma outra conversa – e eu queria aqui grifar a contrabibliografia desse texto, pois todo o aprendizado que aqui elenco se deu através da oralidade, em aulas, em conversas, e na maioria das vezes não necessariamente no espaço acadêmico (e aqui valeria um parêntese dentro de um parêntese para lembrar que, em minha vida acadêmica, todas as conversas que realmente importaram e que me definiriam meu rumo filosófico aconteceram em mesas de bares, padarias, cafés etc.).

Então, em uma conversa, Fabio Borges me diz que há dois tipos de religião: as que aceitam que é possível se falar com os mortos e as que dizem que isso é impossível. Esse aforismo filosófico, como uma martelada nietzschiana, me fez repensar toda a minha trajetória, não só na desconstrução, mas como em toda a filosofia, como uma tentativa de ouvir os mortos, pois, para mim, eles sempre apareceram e sempre pareceu possível e, portanto, obrigatória essa conversação.

A hospitalidade incondicional de Derrida, a espectralidade à qual ele sempre se refere como herança e que sempre diz respeito a uma multiplicidade de espíritos que nos convocam, parecem fazer todo sentido como temas filosóficos ao olhar retrospectivamente para o menino que, antes de qualquer pensamento sobre profissão, quando pequeno, sem saber direito o que fazer, ajudava sua mãe que, também sem saber o que e como fazer, deixava virem as entidades que se lhe apresentavam.

Antes de qualquer filosofia, e antes mesmo de qualquer religião, sem saber quem eram ou o porquê estavam ali, sem saber se eram bons ou maus, aquele menino aprendia a conversar com os espíritos. Espíritos esses que se lhe apresentavam sob a face acolhedora de sua mãe, tornada outro pelos estranhos olhares que brilhavam no fundo de seus olhos.

E só hoje compreendo que é tal a tarefa que herdo de me pai que, em sua mesa, com seu bico de pena e seu nanquim, dava contorno, luz e sombra, aos anjos e demônios que se apresentavam a ele.

Hoje, posso pensar, graças à graça de Fabio Borges, que essa escuta é o que, desde minha infância, me definiu como filósofo, e não algo da ordem da teoria ou do conceito, pois, se ele diz que há dois tipos de religião, eu o parafrasearia para afirmar o mesmo com relação à filosofia: existe uma filosofia que não apenas aceita a possibilidade de se falar com os fantasmas, mas que deseja isso, que tem isso como sua meta, pois sabe que são esses outros que constituem o que há de mais próprio ao pensamento.

Hoje, posso ver o quanto esse aprendizado com os espíritos foi, e é ainda, fundamental para que eu alcançasse o que posso chamar de minha posição e meu gesto filosóficos, sempre marcados por essa preocupação com a absolta alteridade.

Hoje, parece-me claro que só posso falar disso que falo hoje, e de tudo que tenho falado desde meu primeiro escrito, graças a esses outros cujo nome de alguns sequer sei; mas, também, me parece claro que, hoje, aqui e agora, só posso falar disso tudo graças a esses outros que estão aqui nomeados, cujo nome sei muito bem, e aos quais nunca deixarei de agradecer.

Esse texto, portanto, não foi nada senão uma homenagem a tantos outros, vivos ou encantados, possíveis ou impossíveis de nomear, ancestrais ou não, a todos esses que me ajudam a pensar através do assombramento.

E, como última homenagem a essas experiências inesquecíveis, e que não entram no texto apenas para ilustrar, mas porque expressam minha mais verdadeira filosofia, dou voz aqui à Concheta Perroni, minha falecida Mãe de Santo e com quem muito aprendi, fosse em minha infância, vendo-a cuidar de minha mãe, de meu pai – estes dois que também hoje se somam à imensidão de espectros que me põem a pensar – ou, mais recentemente, em nossas conversas quando passava as tardes de sexta-feira, ajudando-a em suas tarefas espiritais, cambonando e ouvindo-a falar.

Como mostram os recentes escritos de Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino, a sabedoria de terreiro é algo crucial para o pensamento, e hoje posso afirmar que o maior aprendizado que tive sobre a relação com a alteridade, sobre a hospitalidade incondicional, veio da boca dessa mulher inesquecível, também de Ogum: aos médiuns em desenvolvimento, ao invés de determinar para quem eles deveriam se concentrar para “facilitar” a incorporação, ela propunha a abertura ao desconhecido e a experiência da alteridade radical: “deixa vir quem tem que vir”, dizia ela – disso eu nunca esqueci, e tomo isso como profundo ensinamento epistemológico, estético, ético e político, pois pensar (e, logo, escrever) nada mais é que deixar vir quem tem que vir.

Comecei esse texto com três palavras, pedidos de bênçãos em três línguas diferentes, para poder pisar devagarinho nesse chão que tanto respeito e admiro, e para saudar essas tantas pessoas que me constituem como pensador. E termino, também, com três palavras, mas opto agora por um encerramento nesta língua do outro quem mesmo não sendo para mim familiar, é a menos estranha: o Iorubá.

Nessas três palavras com as quais encerro esse texto, o “eu” se coloca diante do outro, em três perspectivas diferentes e complementares de respeito e gratidão, como um gesto filosófico de reconhecimento à anterioridade dos outros e de nossa constituição desde e a partir deles.

E foi tal gesto de gratidão, reconhecimento e respeito que eu gostaria que esse escrito tivesse conseguido aqui reproduzir: motumbá (meu pedido de benção), mojubá (meu respeito oferecido), mo dupè (meu agradecimento)!

 

 

 


Créditos na imagem: [Pinacoteca – Carybé]

 

 

 

SOBRE O AUTOR

Rafael Haddock-Lobo

Rafael Haddock-Lobo é mestre e doutor em Filosofia pela PUC-Rio e professor do Departamento de Filosofia da UFRJ e dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia (UERJ) e do PPGBIOS (UFRJ). Coordena o Laboratório X de Encruzilhadas Filosóficas e é autor de “Da existência ao infinito” (Loyola), “Derrida e o labirinto de inscrições” (Zouk), “Para um pensamento úmido” (Nau) e “Experiências abissais” (Via Verita). Atualmente desenvolve pesquisas sobre filosofia e cultura popular brasileira. Contato: outramente@yahoo.com

Fonte: Motumbá, Mukuiu, Kolofé | HH Magazine

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