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No Cafezal, de Georgina de Albuquerque: processos criativos em transformação

Publicado em: No Cafezal, de Georgina de Albuquerque: processos criativos em transformação

A trajetória de Georgina de Albuquerque (1885-1962), artista plástica e professora nascida em Taubaté, São Paulo, é a temática central de minha monografia de graduação e dissertação de mestrado. Por isto mesmo, tive muitas dúvidas sobre o que escrever sobre a artista e suas obras, se seria posível trabalhá-las em um texto mais curto. Pioneira no exercício de altos cargos tal como a direção da Escola Nacional de Belas Artes, a trajetória de Georgina facilmente renderia uma longa série de textos e reflexões para a coluna. Para uma primeira proposta, trouxemos a obra No Cafezal (1930), uma pintura a óleo. A questão da representação de figuras femininas em obras de Georgina também marca a diversidade de narrativas e realidades em entrecruzo.

A linha dos rostos e chapéus das figuras humanas é a primeira parte da composição na qual pousamos os olhos. A mulher de roupas claras à direita utiliza uma ferramenta que, voltada ao centro da tela, liga os planos da narrativa: as duas figuras à frente, as mulheres à esquerda e o fundo campestre. Assim, o olhar segue o caminho proposto de forma objetiva pela artista. A paleta em tons quentes e o uso da técnica impressionista em No Cafezal traz certa simplicidade estética e acolhimento. A perspectiva contextual da obra, no entanto, revela vários elementos possíveis de serem postos em discussão.

A pesquisa de Manuela Henrique Nogueira (2016) traz uma série de chaves de leitura aprofundadas para os três grandes temas presentes na obra: gênero, trabalho e raça. O trabalho feminino, que toma quase toda a representação, parece contrastar com a única figura masculina à direita. Inclinado e em observação, o homem guia nosso olhar de volta às mulheres trabalhadoras, tal como um lembrete de qual é verdadeiramente o assunto principal da obra, a presença e atuação das mulheres nos plantios de café do Brasil. A ausência de um conflito entre gêneros é trabalhada no contexto do início do século XX em que a cafeicultura, rapidamente desenvolvida no Brasil e motivo de alta demanda de mão-de-obra, muitas vezes levaria as mulheres para trabalharem no mesmo tipo de serviço braçal que os homens realizavam. Na passagem da escravatura para o trabalho assalariado, temos ainda o aspecto da imigração europeia – sobretudo, a italiana, onde veremos a chegada de novos costumes e modos de viver sendo adaptados à realidade brasileira e em constante troca com esta última.

O que identificamos nesta obra, ao longo da realização dos estudos, é que No Cafezal marca uma mudança de foco para Georgina; até o fim da década de 1920, suas obras tendiam a representar com mais frequência personagens e cenários elitistas cariocas. No Cafezal, embora não traga a aridez do trabalho no campo, traz uma transição de olhares por parte da artista, que passará a se focar mais na realidade popular e em temas como o trabalho nas regiões interioranas ou suburbanas brasileiras. Em Roceiras, também de 1930, Georgina parece relembrar a temática do trabalho feminino no campo mas, desta vez, através de uma estética e conceitos que se aproxima daquelas vistas no movimento Modernista. Georgina, em sua entrevista a Angyone Costa em 1927, num momento inicial do modernismo, demonstrava não entender completamente as propostas dos novos artistas. Entretanto, mostrava-se empenhada nas novas técnicas e possibilidades discursivas, inclusive para lecionar a estudantes que nelas tivessem interesse. Considerando-se a não linearidade da trajetória artística, é importante que nos atentemos ao momento do artista e ao que acontece ao seu redor e como este se refletem em suas produções. Isto pode ajudar na melhor compreensão de amplos cenários em suas interligações, seus detalhes e conexões que talvez passassem despercebidos numa análise isolada da obra.

A partir da década de 1930, a mudança de perspectivas de Georgina não estará apenas em suas obras. O amadurecimento e a ampliação de horizontes resultaram em voos mais altos – participações em eventos internacionais, concursos bem sucedidos e grande articulação com importantes instituições e entidades do campo artístico dentro e fora do Brasil. Estas atuações, assim como as de suas colegas, desenhariam um novo panorama para as artistas brasileiras, com melhor estrutura educacional e de circulação de obras e artistas pelo País, além da projeção da arte brasileira no mercado internacional. No Cafezal, como é possível perceber, se faz um ponto importante não apenas na carreira individual de Georgina, como também na mudança de aspectos estagnados ou lentos em transformações na arte acadêmica, então voltada quase totalmente à cultura europeia ou ao que melhor se assemelhava a ela. Estes pontos de transição – obras, trajetórias, discursos – são importantes às pesquisas que tratam da arte brasileira como fruto de uma maior integração e apropriação dos elementos culturais nacionais que se inicia com a chegada do modernismo.

 

 

 


REFERÊNCIAS

NOGUEIRA, Manuela Henrique. Georgina de Albuquerque: trabalho, gênero e raça em representação. (Mestrado em Filosofia). Programa de Pós-Graduação em Culturas e Identidades Brasileiras, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016.

 

 

 


Créditos na imagem: Reprodução. No Cafezal. In: Google Arts & Culture – Partner: Pinacoteca de São Paulo. S. L: Google Arts & Culture. Disponível em: https://g.co/arts/KsFLBPmq6bat1QMb8

 

 

 

SOBRE A AUTORA

Paula de Souza Ribeiro

Graduada em História pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e Mestranda em História pelo PPGHIS-UFOP. Possui ênfase de atuação nas áreas de História da Arte, Antropologia Social, Curadoria e Patrimônio Cultural. É aluna do curso de Curadoria pelo CEFART/ Palácio das Artes em Belo Horizonte, além de atuar como artista visual independente. Membra do Grupo de Pesquisa Justiça, Administração e Luta Social – JALS, sediado na UFOP. Fundadora do grupo autônomo Linguagens e Percursos Artísticos – GELP. ART.

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