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“O futuro promete”: a precarização do trabalho nas telas do cinema

“O Futuro Promete”: A Precarização Do Trabalho Nas Telas Do Cinema

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O último ganhador do Oscar de melhor documentário, American Factory (2019), era uma boa história, de acordo com Barack e Michele Obama numa conversa com os diretores Julia Reichert e Steven Bognar, bônus do filme oferecido pela Netflix. Nessa conversa, os diretores indicam que tiveram a oportunidade de filmar a fábrica, conversar com os trabalhadores, com o presidente da empresa, vivenciando o seu cotidiano, inclusive uma primeira crise entre os trabalhadores e seus dirigentes. Ainda nesse bônus, Michele ressalta que o filme não vinha com um ponto de vista específico, tendo pessoas contando suas histórias, o que faz o filme ser interessante para ela e sendo um foco da produtora deles, dar oportunidade para boas histórias, ficcionais ou não. De fato, o documentário é também uma péssima constatação do que se tornou uma rotina mundial: trabalhadores super explorados por grandes empresas. Os personagens do filme são empregados de uma indústria chinesa de vidros automotivos, de uma cidade pequena de Ohio, Dayton, que ocupou o local da antiga fábrica da GM, fechada em 2008. A nova oportunidade de trabalho, para homens e mulheres, brancos e negros, jovens e idosos, parecia uma grande chance de recuperar a renda e uma qualidade de vida perdida após a crise que resultou no fechamento da fábrica, apesar da chinesa pagar a metade da hora que a GM.

O documentário inicia com imagens do fechamento da GM, os trâmites para a abertura da empresa chinesa, a inauguração da fábrica em 2015 e depois uma crise entre os trabalhadores americanos e os dirigentes chineses e a batalha para a abertura de um sindicato. As imagens dessa rotina são excelentes, confirmando o que a diretora havia dito sobre a oportunidade que tiveram em estarem presentes em momentos cruciais, até mesmo na crise, quando coletaram depoimentos insatisfeitos e a mobilização para a construção de um sindicato dentro da fábrica. Deste modo, o documentário acaba tendo um ponto de vista e ele foi ressaltado quando na cerimônia do Oscar a diretora pediu a união dos trabalhadores do mundo. Talvez não convinha ressaltar esse ponto para o Obama, que assumiu o governo no ano seguinte ao fechamento da GM e exercia o segundo mandato na ocasião da abertura da fábrica chinesa.

A história contada por American Factory torna-se boa ao nos alertar sobre o futuro, que parece prometer mais precarização para o trabalhador, principalmente com o processo de automação, discussão final do filme quando dirigentes chineses planejam substituir alguns trabalhadores por máquinas que fariam atividades de forma mais eficiente e com um alto padrão de qualidade. O mundo do trabalho e o aumento da sua exploração foram temas de diversos filmes do último ano. Talvez porque seja preciso deixar evidente um caminho sem volta: o da precarização do trabalho, disfarçado em discursos que pregam a autonomia do trabalhador, a meritocracia, a irrelevância de direitos frente a oportunidade de exercer um ofício. Além disso, essa situação não é exclusiva das indústrias americanas. Para isso, ilustro essa resenha com mais dois filmes, um nacional e um inglês.

Estou me guardando para quando o carnaval chegar (2019), de Marcelo Gomes, conta a história de uma cidade, Toritama, em Pernambuco, a maior produtora nacional de jeans com quase todos os moradores envolvidos nessa atividade, fazendo longas jornadas, mas paralisando o serviço com a chegada do carnaval. Esse documentário é narrado pelo diretor, que frequentava a cidade na sua infância e que ao retornar e ver no que ela se transformava conta o mundo daqueles moradores dedicados ao trabalho na produção de jeans e acreditando serem seus próprios patrões, mesmo que para isso precisassem fazer grandes jornadas. Com um ponto de vista específico, o documentarista investe numa narrativa quase poética tentando entender os motivos das pessoas não problematizarem o excesso de trabalho, a falta de diversão (reservada apenas para o carnaval) e o envolvimento de homens, mulheres, jovens, idosos e às vezes crianças no fabrico do jeans, o bom e velho jeans americano.

Se para esses trabalhadores o momento do carnaval é o de escape, o que podemos pensar sobre os trabalhadores do carnaval, principalmente dos informais que têm nessa festa uma oportunidade de renda extra? Fazendo apenas um adendo a essa discussão, no Rio de Janeiro a maior festa da cidade está em momento de resistência. Na gestão do prefeito anterior (Eduardo Paes), apenas os ambulantes cadastrados e que vendessem uma cerveja específica poderiam acompanhar os blocos. Os demais corriam o risco de terem suas mercadorias apreendidas. Atualmente, o carnaval da cidade maravilhosa tem sido quase inviabilizado pela prefeitura, ocupada por um religioso que com desculpas relacionadas ao ordenamento da cidade pretende reduzir cada vez mais o carnaval de rua prejudicando, exatamente, esses trabalhadores informais (e porque não os motoristas de aplicativos, herdeiros de uma economia em decadência). No Rio de janeiro, nem todos têm permissão para pular carnaval, muito menos de trabalhar. No entanto, muitos que estão na informalidade acreditam que esse é um novo caminho de produção de renda, acreditando estarem independentes de regras e horários, apesar de estarem também sem direitos.

Um filme ficcional e atualmente nos cinemas trata desses outros trabalhadores autônomos, o Você não estava aqui (2020) de Ken Loach, mesmo diretor de Eu, Daniel Blake (2016). A boa história dessa vez é sobre os profissionais que atendem às demandas do e-commerce, em franca expansão no mundo. O filme conta a vida de um homem de meia idade, casado e com dois filhos, atingido pela crise de 2008 (ano também do fechamento da fábrica da GM e período de crise econômica mundial) e que entra para uma empresa de entrega de mercadorias. Seu contratante afirma que ele será um prestador de serviço, não um empregado, fazendo seu próprio salário de acordo com o seu desempenho, precisando ter para isso sua própria van e se responsabilizar em entregar tudo na hora, sendo vigiado por um pequeno aparelho que apita em caso de paralisação maior que 2 minutos. Paralelo a isso, vê a sua vida familiar em crise diante da sua ausência em casa, assim como a de sua esposa, impedindo-os de controlar a ida do filho mais velho à escola. Numa passagem marcante, o pai insiste que apenas estudando e indo a escola e a universidade o filho poderia ter um futuro melhor. Nesse momento, o filho o rebate perguntando se o futuro melhor seria esse, o de entregador de mercadorias. O futuro que esse menino enxergava estava diante dos seus olhos e era representado pelo seu pai cada vez mais explorado pelo patrão que o controlava até no momento de fazer necessidades básicas.

Entre trabalhos formais, como os da fábrica chinesa, da indústria de jeans do sertão do Brasil e do entregador de mercadorias, todos eles estão num mesmo caminho: o da precarização do trabalho que serve de justificativa para grandes empresas, visíveis ou não, convencerem esses trabalhadores de que o sucesso se chega com trabalho forte, com longa jornada e sem organização entre seus pares. Afinal, a ideia de autonomia está nos discursos daqueles que convencem homens e mulheres de que ser o próprio patrão é a nova revolução industrial, sem saber que tudo continua mais do mesmo, exceto para quem bate o cartão. Se a crise de 2008 está agora gerando filmes que a usam como mote, mal podemos esperar por outras obras ficcionais ou de documentários que retratem as consequências do que estamos vivendo hoje no mundo do trabalho, entre desemprego e trabalhos informais cada vez mais precarizados, mas com roupagem de empreendedorismo. O futuro de fato promete,e não serão boas histórias.

 

 

 


Créditos na imagem: American Factory – Netflix.

 

 

 

SOBRE O AUTOR

Renata Figueiredo Moraes

Professora de história do Brasil (UERJ) e atualmente pesquisa temas ligados ao mundo do trabalho no século XIX e XX

Fonte: “O futuro promete”: a precarização do trabalho nas telas do cinema

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