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o olhar inquieto de Cabrita em Serralves – a.muse.arte

O Olhar Inquieto De Cabrita Em Serralves – A.muse.arte

Exposição “A roving gaze (Um olhar inquieto)
Porto, Museu de Arte Contemporânea de Serralves (20 nov. 2019 – 22 mar. 2020)

Ao fim de 20 anos, Pedro Cabrita Reis volta a Serralves com “um olhar inquieto” e uma nova identidade, numa exposição comissariada por Marta Moreira de Almeida, diretora-adjunta da instituição.

A roving gaze
Cabrita, 2019
Porto, MACS

Ao longo das últimas duas décadas, Pedro Cabrita Reis confirmou a projeção que já tinha, tanto nacional, como internacionalmente, como um dos mais importantes artistas contemporâneos. Autor de uma obra difícil de definir em terminologias convencionais, pela sua idiossincrasia que o leva através de percursos experienciais entre o formal e o conceptual, entre a pintura e a escultura, intercetando-os de referências biográficas. Na exposição de Serralves, o autor (re)inicia-se como Cabrita, a identidade de uma profunda e complexa reflexão de caráter autobiográfico, um ponto de viragem entre o que foi e aquilo que passará a ser.

A roving gaze (Um olhar inquieto)” é uma exposição concebida como a instalação de obra única e colossal, pensada especificamente para o espaço de Serralves, estendendo-se e multiplicando-se ao longo de quatro salas e corredores da ala esquerda do edifício, numa obsessão de materiais, texturas, formas e cores. Segundo o texto institucional, a obra traduz “a relação entre a prática artística de Cabrita Reis e a sua reflexão sobre a função dos museus através da criação de uma única obra de grande escala e forte pendor autobiográfico que percorrerá todo o espaço da exposição sem qualquer preocupação de ordem cronológica” (Serralves, 2019).

A roving gaze
Cabrita, 2019
Porto, MACS

Arte e museografia confundem-se porque o artista é o criador do projeto e do discurso museográfico, tal como a obra se confunde com o suporte. São, de resto, os suportes que asseguram uma linha de continuidade ao longo do percurso expositivo, funcionando como uma marca que lhe confere uma unidade identitária: uma centena de painéis de MDF colocados numa estrutura de pilares de alumínio e iluminado por lâmpadas fluorescentes, cujos cabos serpenteiam pelo chão.

A roving gaze
Cabrita, 2019
Porto, MACS

Alguns destes painéis estão cobertos por um mosaico de fotografias tiradas pelo autor ao longo do tempo, sem ordem, nem nexo aparentes, num amontado de registos de lugares e tempos da sua cartografia pessoal e íntima.

A maioria, porém, desenvolve-se num labirinto caótico de objetos impensáveis, provenientes de múltiplos quotidianos, colados, aparafusados, agrafados, abrindo espaços no painel de suporte, raramente cingidos aos seus limites.

A roving gaze
Cabrita, 2019
Porto, MACS

A obsessão coexiste, em Cabrita, com uma imensurável capacidade de trabalho. Um exaustivo labor de recolhas, de combinações, de experimentações. Esta será a mais imediata perceção ao percorrer a obra. Secundada pela sensação de experiência imersiva, cada vez mais densa, mais exaustiva, mais avassaladora, ao limite do cansaço físico e emocional, mas também de crescente arrebatamento estético.

É lixo, quase tudo o que vemos: restos, detritos, desperdícios, fragmentos, partes desconjuntadas, objetos partidos, móveis despedaçados, as sobras que cada um de nós vai deixando para trás. São materiais banais (madeira, plásticos, borracha, cerâmica, vidro, metais, lonas, telas, tecidos, papéis, vimes…) e objetos triviais (tijolos, mesas, cadeiras, cadernos, janelas, lâmpadas, garrafas, latas, pincéis, pastas de arquivo, destroços de automóvel, cartazes, impermeáveis, laranjas, limões, um vaso com uma roseira viva, um aparelho de ar condicionado, um saco cama, uma gaiola…). É, definitivamente, lixo quase tudo o que vemos, mas que o gesto transformador do artista recuperou numa metafórica obra de arte.

A roving gaze
Cabrita, 2019
Porto, MACS

As metáforas são omnipresentes, no todo e nos detalhes. Por vezes subtis e indecifráveis, outras facilmente reconhecíveis, como as referências a Amália ou ao Benfica) e as citações da própria obra (como a Lifetime e os materiais que lhe são recorrentes) ou as aproximações às obras de Antoni Tàpies, ou de Robert Rauschenberg.

Lifetime
Pedro Cabrita Reis, 2011
Paris, Galerie Nelson-Freeman
Foto: Artmap
A roving gaze
Cabrita, 2019
Porto, MACS

Também a composição está intrínseca em cada um dos painéis e na conjugação do todo. Há um nexo compositivo, uma articulação de cores, de formas, de texturas, que se descobre em cada painel e, sobretudo, em cada detalhe, num percurso que se faz entre avanços e recuos, sem ordem nem determinação.

A roving gaze: composições e detalhes
Cabrita, 2019
Porto, MACS

Esta foi (ou é) das mais extraordinárias exposições que vi nos últimos tempos. Foi (e é) uma reflexão também sobre a museografia, exclusivamente gráfica e sem textos, e que é imersiva, sem o recurso à tecnologia digital; uma reflexão sobre o acúmulo do gabinete de coisas curiosas, exóticas ou banais, e a excessiva racionalização do espaço. É um fragmento de tempo que se agarra, numa sensação quase mística e seguramente hedonista. É, seguramente, uma exposição extraordinária.

A ver, com um olhar inquieto numa busca incessante…

A roving gaze
Cabrita, 2019
Porto, MACS

Referência:
Serralves. (2019). Cabrita; A roving gaze (um olhar inquieto). Acedido em https://serralves.pt/pt/actividades/cabrita-a-roving-gaze-um-olhar-inquieto/?menu=249 
Fotos da exposição: MIR, 2020; mais fotos de detalhes em FB a-muse-arte


Fonte: o olhar inquieto de Cabrita em Serralves – a.muse.arte

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