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O que pensam os pesquisadores do ambiente cultural em que trabalham?

O Que Pensam Os Pesquisadores Do Ambiente Cultural Em Que Trabalham?

Por Ernesto Spinak

A fundação Welcome Trust (Reino Unido), que financia diferentes ramos da pesquisa científica com atenção especial à saúde, realizou no final de 2019 um estudo do clima social, econômico, cultural e político das instituições que conduzem pesquisa para compreender o contexto, desafios e práticas desta área específica de trabalho. O levantamento foi realizado com o objetivo de contribuir para melhorar a cultura atual da pesquisa científica. Quatro mil duzentos e sessenta e sete pesquisadores foram entrevistados on-line, em mais de 90 países (embora cerca de 80% estivessem trabalhando no Reino Unido) com perfis em todos os níveis da carreira de pesquisador, desde estudantes e graduados a pós-doutores. O trabalho produziu quatro extensos documentos, com muita informação e gráficos abundantes, que são apresentados nas referências ao final, a partir dos quais foram feitas as seguintes anotações e reflexões.

Principais resultados

Os pesquisadores são apaixonados pelo que
fazem e a grande maioria (84%) se orgulha de seu trabalho, embora uma minoria
(29%) não tenha certeza de poder continuar uma carreira de pesquisador.

Enquanto a maioria sente que sua área está gerando produtos de alta qualidade, também sente intensa pressão para obter resultados, principalmente publicações. Os resultados deste relatório fornecem evidências claras de que existem problemas generalizados na cultura da pesquisa. Aqueles que financiam, publicam, avaliam ou conduzem pesquisas podem usar estas evidências como ponto de partida para implementar soluções e promover mudanças culturais em direção a um ambiente de pesquisa criativo, solidário e inclusivo.

Percepções da cultura de pesquisa

As percepções dos entrevistados sobre a
cultura da pesquisa são difíceis de avaliar completamente, em parte porque
existem muitos fatores e interpretações diferentes em jogo. As experiências e
percepções da cultura de pesquisa são altamente variadas. Verificou-se que as
sensibilidades culturais eram muito diferentes para as pessoas (mesmo entre
indivíduos da mesma instituição ou departamento) e, muitas vezes, as pessoas as
experimentavam de maneira diferente, dependendo de suas próprias
personalidades, de seu supervisor, da instituição, da fase da vida, etc. No
entanto, alguns pesquisadores pareciam estar mais expostos e vulneráveis a
aspectos negativos da cultura do que outros indivíduos. O que para algumas
pessoas pode parecer assédio no local de trabalho, para outras, era direção
firme e eficiente do supervisor.

A maioria dos entrevistados considerou que a pesquisa no Reino Unido ainda está gerando produtos de alta qualidade. Não se espera que a vida de um pesquisador tenha a mesma forma que em outras carreiras; os pesquisadores assumem que escolheram uma vocação altamente competitiva e que isso requer um comprometimento significativo em termos de tempo e energia.

As experiências da cultura de pesquisa são
altamente individualizadas, com um conjunto complexo e interconectado de
condições e comportamentos que provavelmente afetarão os pesquisadores e seus
ambientes de trabalho. As experiências parecem ser variadas, influenciadas por
muitos aspectos de suas situações pessoais, incluindo o estágio profissional, o
ambiente de trabalho e a satisfação no trabalho atual. Além disso, é importante
lembrar que os entrevistados costumam ver a cultura através de suas próprias
lentes, refletindo seus próprios antecedentes, experiências anteriores e vieses.

As percepções em palavras

A maioria das palavras usadas para
descrever as experiências da cultura de pesquisa apresentava um sinal negativo,
como: “competitivo”, “pressionado”, “estressado”, “inseguro”, “métricas”, “desafiador”,
“individualista”. Quarenta por cento acreditam que a atual cultura de pesquisa
está tendo um impacto negativo no nível dos indivíduos, mas se acredita ao mesmo
tempo que beneficia a sociedade. Cinquenta e sete por cento concordam que
existe uma cultura de permanecer longas horas no local de trabalho e 48% se sentem
pressionados a trabalhar estas longas horas.

Os entrevistados desejam mudanças nos critérios de atribuição, de solicitação e de financiamento de fundos para a pesquisa, bem como mudanças na segurança no trabalho e métricas de desempenho e avaliação.

As reclamações

Entre as várias ideias propostas para melhorar a pesquisa, destacam-se:

  • Que as solicitações de fomento sejam anônimas;
  • Maior disponibilidade de pequenos fundos de pesquisa;
  • Maior quantidade de fundos de curto prazo em comparação aos de longo prazo;
  • Maior segurança nas posições de trabalho;
  • Reduzir a importância dos registros de publicação e das métricas;
  • Que a Administração reflita mais sensibilidade frente aos problemas de assédio e discriminação;
  • Aumentar a importância do bem-estar dos indivíduos.

Meu comentário

É um estudo interessante porque,
diferentemente dos trabalhos clássicos em ambientes de trabalho, encontramos
aqui uma população profissional selecionada, que assumiu o esforço e o desafio
de entrar em um campo de “alta exigência”. Uma cultura que pode ser
assimilada ao esporte de alto desempenho. Os países investiram muitos recursos
em atletas com uma projeção de qualificação para os Jogos Olímpicos; é uma
causa nacional. Da mesma forma, os países desenvolveram estratégias de pesquisa
e desenvolvimento, fizeram grandes investimentos, alinharam seu sistema de
ensino superior, com vistas a alcançar máximos resultados de pesquisa. É,
também, uma causa nacional.

Portanto, para uma melhor compreensão do informe, dentre as muitas estatísticas e gráficos dos quatro documentos, parece-me que falta uma análise de correlação entre as várias reivindicações e os perfis dos entrevistados. Caso contrário, não podemos tirar conclusões a respeito dos problemas serem sistêmicos para a cultura de pesquisa ou simplesmente reivindicações de vários grupos de interesse.

Referências

KARLIN, E. Extended review [online]. Wellcome Trust. 2019 [viewed 20 February 2020]. Available from: https://wellcome.ac.uk/sites/default/files/research-culture-literature-review.pdf

LAUCHLAN, E. Research Culture, Quantitative Phase [online]. Wellcome Trust. 2019 [viewed 20 February 2020]. Available from:https://wellcome.ac.uk/sites/default/files/what-researchers-think-about-the-culture-they-work-in-quantitative-research.pdf

MORAN, H. and WILD, L. Research Culture, Opinions Research, Qualitative Report [online]. Wellcome Trust. 2019 [viewed 20 February 2020]. Available from: https://wellcome.ac.uk/sites/default/files/what-researchers-think-about-the-culture-they-work-in-qualitative-research.pdf

What researchers think about the culture they work in: report summary [online]. Wellcome Trust. 2020 [viewed 20 February 2020]. Available from: https://wellcome.ac.uk/reports/what-researchers-think-about-research-culture

Sobre Ernesto Spinak

Colaborador do SciELO, engenheiro de Sistemas e licenciado em Biblioteconomia, com diploma de Estudos Avançados pela Universitat Oberta de Catalunya e Mestre em “Sociedad de la Información” pela Universidad Oberta de Catalunya, Barcelona – Espanha. Atualmente tem uma empresa de consultoria que atende a 14 instituições do governo e universidades do Uruguai com projetos de informação.

Traduzido do original em espanhol por Lilian Nassi-Calò.

SPINAK, E. O que pensam os pesquisadores do ambiente cultural em que trabalham? [online]. SciELO em Perspectiva, 2020 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2020/02/20/o-que-pensam-os-pesquisadores-do-ambiente-cultural-em-que-trabalham/



Fonte: O que pensam os pesquisadores do ambiente cultural em que trabalham?

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