skip to Main Content

Paráfrase de Carlos Drummond de Andrade – Bibliotecários Sem Fronteiras

Paráfrase De Carlos Drummond De Andrade – Bibliotecários Sem Fronteiras

Publicado em: Paráfrase de Carlos Drummond de Andrade – Bibliotecários Sem Fronteiras

texto de Edson Nery da Fonseca, publicado na Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG, v.1, n. 2, 1972.

resumo: Parafraseando o poema “Mãos Dadas”, de Carlos Drummond de Andrade, define-se o que deve ser o bibliotecário de uma época interdependente, condenando-se o isolacionismo, o tecnicismo e a fraseologia bibliofílica.

1 — O POEMA

Em Sentimento do Mundo, terceiro livro de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1940, encontra-se um dos seus melhores poemas: “Mãos Dadas”. De tanto o ler, acabei decorando este poema que nos ensina a solidariedade, condenando tanto as atitudes passadistas como as futuristas, tanto o romantismo piegas como a exploração de temas prosaicos, tanto a independência — impossível numa época interdependente — como todos os tipos de alienação.
Um dia, farto de ver as bibliotecas brasileiras preocupadas com tanta “coisa obsoleta” — como diria o Machado de Assis da crônica sobre “O Velho Senado” — desabafei com esta paráfrase do primeiro verso de “Mãos Dadas”:

Não serei o bibliotecário de um mundo caduco!

Ocorreu-me, agora, a ideia de parafrasear todo o poema, especialmente para esta nova revista da Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal de Minas Gerais.

Nesta paráfrase não faço mais do que exprimir uma atitude de oposição ao conservantismo, ao isolacionismo, à mania infantil por máquinas e a outros males crônicos da biblioteconomia mundial.

Aos que estranharem a forma poemática parafraseada, responderei antecipadamente com a declaração que Fernando Pessoa colocou num poema do seu heterônimo como Álvaro de Campos; sendo engenheiro naval, ele fazia questão de dizer que era técnico mas tinha técnica “só dentro da técnica”: fora disso era “doido, com todo o direito a sê-lo”.

2 — A PARÁFRASE

BIBLIOTECÁRIO DE MÃOS DADAS

Não serei o bibliotecário de um mundo caduco
Também não me deixarei encantar pela biblioteconomia do futuro
Estou no balcão de referência e contemplo os leitores da biblioteca

Seus estudos alimentam a minha esperança
Mas considero, perplexo, o enorme universo dos livros
Deste mundo tão grande somos apenas uma parte
A tarefa é comum, trabalhemos de mãos dadas.

Não serei o escravo de um código obsoleto e de um sistema ultrapassado
Não direi que a biblioteca é hospital de almas
e o livro um amigo silencioso que não falha
O leitor é o meu objetivo: o leitor adulto, o leitor juvenil, o leitor infantil
O aluno e o professor, o neoalfabetizado e o pesquisador científico

Para cada leitor existe um livro
e para cada livro encontrarei o seu leitor.

3 — COMENTÁRIO

Em biblioteconomia, mundo caduco é o das Norme per il cataloqo degli stampati, o das Anglo-American cataloging rules, o das Rules for descriptive cataloging, o da Classificação Decimal de Melvil Dewey, o das frases em que se compraz uma bibliografia langorosa.

No extremo oposto está a fascinação idiota por equipamentos anunciados como deuses ex-machina da chamada “explosão bibliográfica” e suas soluções. Como em tudo o mais, a virtude situa-se no meio termo: nem informaticofobia nem informaticomania.

O balcão de referência é, sem dúvida, o lugar mais importante da biblioteca. Em vez de receber o leitor como um importuno que vem perturbar seu sossego, o bibliotecário deve estar tanto mais alegre quanto mais cheia de leitores estiver a biblioteca.

Uma perplexidade, entretanto, sempre o assalta e ninguém a exprimiu melhor do que Ortega y Gasset quando exclamou: “Hay ya demasiados libros”. A consciência desse problema — “el libro como conflicto” — deve levar-nos a evitar o isolacionismo, colaborando com os outros bibliotecários e contribuindo, assim, para a formação de uma rede ou sistema de bibliotecas.

As normas de catalogação e os sistemas de classificação bibliográfica são necessários, mas devem estar a serviço dos leitores — e não dos bibliotecários que, em muitos casos, deles se utilizam exatamente pour épater le lecieur — como os sábados a que se referia Jesus Cristo em conhecida parábola.

A biblioteca não é o “hospital de almas” da frase acaciana. Se ela faz alguma coisa pelas almas será antes saculejá-las do que hospitalizá-Ias. De alguns livros sabemos que contribuem em menos para salvar do que para perder as almas. Foi lendo livros de Cavalaria que Dom Quixote enlouqueceu. Depois de ler o romance Fabrizzio Luppo, um jovem mexicano suicidou-se, deixando carta dramática para o autor, Carlo Coccioli, que desde então passou a residir no México, onde escreveu, entre outros inúmeros livros, Un Suicide. Antes, aliás, desse episódio que poucos conhecem, houve a famosa cadeia de suicídios provocada, na Europa, pelo Werther de Goethe. Na biblioteca particular de um dos Inconfidentes mineiros — o cônego Luís Vieira da Silva — encontraram os sequestradores de seus bens 270 obras em cerca de oitocentos volumes, segundo os Autos da Devassa da Inconfidência Mineira. Uma dessas obras era, nada mais nada menos do que a famosa Encyclopédie organizada por Diderot e D’Alembert, obra que pelo seu caráter subversivo impedia qualquer biblioteca de ser ou considerar-se “hospital de almas”. Sobre o assunto, como se sabe, Eduardo Frieiro escreveu excelente ensaio bibliográfico.

Nos chamados beaux vieux temps, o livro podia ser considerado como “amigo silencioso que não falha”. Hoje, não! Com a explosão bibliográfica ele transformou-se num quase inimigo, como salientou Ortega ao escrever que o bibliotecário atual “habrará de ejercer la policia sobre el livro y hacerse domador del libro enfurecido”.
Ao contrário do bibliotecário da antiguidade — que precisava antes conservar que difundir o livro, por ser este um objeto raro — o bibliotecário moderno preocupa-se mais com o leitor, seja qual for a sua idade, nível cultural ou condição social.

A paráfrase termina aludindo a duas das conhecidas Five laws of library science, estabelecidas pelo bibliotecário indiano S. R. Ranganathan: “Every reader his book” e “Every book its reader”. Aparentemente, na distinção entre estas duas leis existe apenas um trocadilho. Na realidade, porém, elas são complementares.

Quando afirmamos que para cada leitor deve existir um livro, colocamos — como explica Ranganathan — um problema nacional, que é o da responsabilidade que têm os governos de favorecerem leitura para todo o povo e não apenas para uma elite. Disse Anísio Teixeira, no título de um de seus livros, que Educação não é privilégio. Nem educação nem biblioteca, digamos completando o saudoso educador, que sabia muito bem não ser possível a existência de uma coisa sem a outra.

Ao estabelecer “every book its reader”, Ranganathan tinha em vista a indispensável adequação de cada livro aos diferentes gêneros de leitores: diferenças etárias, psíquicas e éticas. Censuras de ordem religiosa ou ideológica não são admissíveis; mas pelo próprio fato de que nem todo livro é “o amigo silencioso que não falha” e de que as bibliotecas não são “hospitais de almas”, há que restringir-se a leitura de certos livros de acordo com a idade, a psicologia e a formação de cada leitor.

This Post Has 0 Comments

Comentar

Back To Top