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Seria a nova política de acesso aberto da Fundação Bill e Melinda Gates o início de uma mudança em direção aos preprints? [Publicado originalmente no LSE Impact Blog em abril/2024]

Publicado em: Seria a nova política de acesso aberto da Fundação Bill e Melinda Gates o início de uma mudança em direção aos preprints? [Publicado originalmente no LSE Impact Blog em abril/2024]

Por Richard Sever

Foto: Shane Rounce.

A Fundação Bill e Melinda Gates (a segunda maior fundação filantrópica do mundo) anunciou recentemente uma nova política de acesso aberto (AA)1. Ela exigirá que os artigos resultantes da pesquisa que financia sejam publicados como preprints e não mais cobrirá as taxas de publicação em periódicos científicos. Esta mudança de foco, do artigo de periódico avaliado pelos pares para preprints, alinha-se com uma proposta chamada Plano U2 e marca uma mudança significativa na política de um grande financiador. Isso ocorre em um momento de muita discussão sobre o futuro da publicação científica, uma vez que a avaliação por pares de periódicos está sendo submetida a um exame minucioso e alguns questionam se ela seria mesmo necessária.

A comunidade acadêmica vem discutindo sobre o AA há quase três décadas. Poucos contestam que os artigos que relatam resultados de pesquisas devem, idealmente, ser de livre acesso a qualquer pessoa. Como exatamente conseguir isso, em particular como o AA deve ser pago, tem sido muito debatido desde a “proposta subversiva”3 de Steven Harnad em 1994. Várias abordagens foram propostas (são inúmeras para detalhar aqui), mas basta dizer que cada uma tem seus detratores. Algo que a maioria delas tem em comum é o foco na versão do artigo que foi certificado como “avaliado pelos pares” por um periódico. No modelo preferido pelos publishers comerciais de periódicos e, até recentemente, por muitos financiadores e defensores do acesso aberto, os custos de publicação são cobertos por taxas de processamento de artigos (APCs) cobradas dos autores. No entanto, estas taxas apenas transferem a barreira de acesso dos leitores para os autores. Enquanto isso, os pesquisadores estão se recusando a pagar as quantias envolvidas (mais de US$ 10 mil por artigo, em alguns casos) e, em um clima de ‘publicar ou perecer’, o modelo de negócios pagar-para-publicar faz com que publishers predatórios enriqueçam facilmente.

No entanto, uma solução para o problema do acesso estava disponível há anos, mesmo que não a tenhamos percebido: os preprints, versões preliminares de artigos que ainda não passaram pelo dispendioso e moroso processo de avaliação por pares de periódicos. Físicos, matemáticos e cientistas da computação têm usado o servidor de preprints arXiv, agora hospedado na Universidade Cornell, para compartilhar preprints há mais de 30 anos. Os biólogos se juntaram a eles em massa com o lançamento do bioRxiv pelo Cold Spring Harbor Laboratory em 2013 e, desde então, surgiu uma constelação de servidores sem fins lucrativos, em grande parte específicos para cada disciplina, incluindo chemRxiv, medRxiv e socArXiv, além de servidores como o ResearchSquare e o SSRN, de propriedade de publishers comerciais. Como os servidores de preprints não realizam avaliação por pares, os custos de funcionamento são cerca de duas ordens de magnitude menores do que os dos periódicos e podem ser cobertos de forma centralizada, sem a necessidade de submissão ou pagamento de assinaturas.

Se os financiadores quiserem tornar livremente acessível o trabalho que financiam, tornar mandatório a publicação como preprints é uma maneira simples e fácil de atingir este objetivo: este é o Plano U. A Gates reconheceu a lógica da abordagem e segue os passos de organizações como a Chan Zuckerberg Initiative (CZI), a Michael J. Fox Foundation e a Aligning Science Across Parkinson’s (ASAP), que já exigem que os beneficiários publiquem preprints. Ao fazer isso, estes financiadores garantem que a pesquisa esteja disponível para a comunidade muito antes, o que poderia acelerar significativamente o processo científico. De fato, muitos cientistas observaram que o rápido compartilhamento de dados foi fundamental para a resposta à covid-19.

Onde isso deixa a avaliação por pares? O exame crítico de novas descobertas é claramente essencial para garantir que o progresso seja feito em bases sólidas. A questão é se o processo de avaliação operado pelos periódicos consegue fazer isso de forma eficaz. Considerando que a maioria dos artigos muda pouco durante a avaliação por pares, que quase todos acabam sendo publicados em algum lugar e que a abordagem atual da avaliação por pares dos periódicos é apenas um desenvolvimento relativamente recente, muitos na comunidade científica estão questionando se um julgamento feito em um único momento por 2-3 pareceristas anônimos poderia ser melhorado. Ao dissociar a disseminação de artigos de sua avaliação subsequente, o Plano U criaria oportunidades para formas alternativas de avaliação que não reúnam qualidade, interesse e impacto em um indicador de qualidade unidimensional imutável: o título do periódico. Enquanto isso, uma porcentagem dos artigos que serão lidos apenas por um pequeno número de especialistas já bem equipados para julgá-los pode não justificar uma avaliação formal.

Também é importante enfatizar que muitos dos desafios que o sistema de publicação enfrenta ao avaliar artigos (verificação de identidade, procedência de dados, manipulação de imagens, paper mills etc.) não são detectados durante a avaliação por pares, mas por outros processos de verificação de conteúdo. Muitos destes processos não são realizados de forma eficaz pela maioria dos periódicos ou são terceirizados. As solicitações dos publishers para que as instituições assumam maior responsabilidade pelas verificações de integridade reforçam a ideia de que elas também poderiam ser dissociadas da avaliação por pares, assim como o próprio plano da Fundação Gates para um servidor que as inclua. Os financiadores devem fazer parte desta conversa e participar da definição das normas da comunidade. A nova política da Fundação Gates afirma que eles “defenderão a avaliação por pares”. A discussão sobre quando e como isso deve ocorrer em um contexto mais amplo e o reconhecimento dos custos envolvidos devem fazer parte desta defesa.

O surgimento de um ecossistema mais desacoplado dependerá de outros financiadores. Será que os principais financiadores, como o Howard Hughes Medical Institute (HHMI) e a Wellcome Trust seguirão Gates? Até o momento, eles têm dado seu apoio aos preprints, mas não têm se manifestado a respeito de mandatos. No entanto, ambos apoiam o Plano S e, francamente, o Plano S 2.0 se parece muito com o Plano U. E o que dizer do elefante na sala, os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH)? O recente memorando da Office of Science and Technology Policy (OSTP) exige que os artigos financiados pelo governo dos EUA sejam gratuitos, mas não fornece fundos adicionais. Se os órgãos governamentais, como os NIH, decidirem que os preprints se qualificam, como o bioRxiv e o arXiv sugeriram4, os autores teriam um caminho fácil para tornar os artigos gratuitos, sem precisar encontrar um montante extra de US$ 5 a 10 mil para cobrir taxas de processamento de artigos (APCs).

É interessante notar que o NIH já está viabilizando um piloto no qual os preprints financiados pelo NIH são depositados no PubMed Central (PMC), o repositório de acesso aberto do National Center for Biotechnology Information (NCBI). Muitos presumiram que esta é a primeira etapa para que o PMC indexe todos os preprints, porém, ao invés, ela reflete a função do PMC como repositório de ciência financiada pelo NIH. Considerando o endosso tácito do governo implícito na inclusão no PMC, parece improvável que eles abram as portas para qualquer preprint não revisado, mas será que preprints de outros financiadores, como a Fundação Gates, poderão entrar? Teremos que esperar para ver. De qualquer forma, foi estabelecido um precedente para a inclusão com base na fonte, e não no conteúdo, e devemos pensar muito sobre as implicações disso ao considerarmos como desenvolver sinais de confiança para a informação.

Notas

1 TOROK, E. Who loses when scientific research is locked behind paywalls? [online]. Bill & Melinda Gates Fundation, 2024 [viewed 10 April 2024]. Available from: https://www.gatesfoundation.org/ideas/articles/research-paywall-open-access

2 SEVER, R., EISEN, M. and INGLIS, J. Plan U: Universal access to scientific and medical research via funder preprint mandates. PLoS biology [online]. 2019, vol. 17, no. 6, e3000273 [viewed 10 April 2024]. https://doi.org/10.1371/journal.pbio.3000273. Available from: https://journals.plos.org/plosbiology/article?id=10.1371/journal.pbio.3000273

3 Subversive Proposal [online]. Wikipedia. 2024 [viewed 10 April 2024]. Available from: https://en.wikipedia.org/wiki/Subversive_Proposal

4 bioRxiv and medRxiv response to the OSTP memo – an open letter to US funding agencies [online]. bioRxiv. 2023 [viewed 10 April 2024]. Available from: https://connect.biorxiv.org/news/2023/04/11/ostp_response

Referências

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Sobre Richard Sever

Richard SeverRichard Sever é cofundador dos servidores de preprint bioRxiv e medRxiv e diretor assistente da Cold Spring Harbor Laboratory Press em Nova York. Ele é PhD em biologia molecular pela Universidade de Cambridge e atuou como editor de vários periódicos científicos.

Artigo original em inglês

Is the Bill and Melinda Gates Foundation’s new OA policy the start of a shift towards preprints?

 

Traduzido do original em inglês por Lilian Nassi-Calò.

SEVER, R. Seria a nova política de acesso aberto da Fundação Bill e Melinda Gates o início de uma mudança em direção aos preprints? [Publicado originalmente no LSE Impact Blog em abril/2024] [online]. SciELO em Perspectiva, 2024 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2024/04/24/seria-a-nova-politica-de-acesso-aberto-da-fundacao-bill-e-melinda-gates-o-inicio-de-uma-mudanca-em-direcao-aos-preprints-publicado-originalmente-no-lse-impact-blog-em-abril-2024/

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