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Stimmung, técnica e a instrumentalização da experiência em Androides sonham com ovelhas elétricas? de Philip K. Dick

Stimmung, Técnica E A Instrumentalização Da Experiência Em Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? De Philip K. Dick

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Uma primeira versão deste texto foi apresentada em um encontro do Grupo de Estudo – Atualismo e temporalidades (in)atuais, vinculado ao NEHM/UFOP. Deixo aqui o agradecimento pelo debate e sugestões.

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“O que significa, aqui, dizer que a existência precede a essência? Significa que, em primeira instância, o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define”[1]

Jean Paul Sartre, O existencialismo é um humanismo.

 

 

 

O romance Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968) de Philip K. Dick é um clássico da ficção científica. Além da grande aceitação do público que simpatiza com a literatura distópica e com as obras de Dick, o livro também adquiriu notoriedade por servir de estrutura para o roteiro escrito por Hampton Fancher e David Peoples, que constitui a história do filme Blade Runner. Lançado em 1982, o filme é dirigido pelo diretor britânico Ridley Scott, e em seu elenco estão reunidos Harrison Ford (também famoso pela participação em Star Wars), Rutger Hauer, Edward Olmos e Sean Young.

A produção audiovisual não apresenta a complexidade da narrativa original, sendo que algumas passagens marcantes do livro se perdem ou são dissolvidas vagamente na produção cinematográfica. Mas também, podemos encontrar uma impressionante produção estética e continuidades que nos remetem ao livro, como o nome dos protagonistas, as técnicas, a sociabilidade, e o miolo filosófico central que sustenta a existência de uma semelhança entre Blade Runner e Androides sonham com ovelhas elétricas? Como coloca Philip K. Dick em sua última entrevista, demonstrando certo otimismo com o roteiro do filme: “Os dois materiais se reforçam mutuamente. De forma que a pessoa que começasse lendo o livro iria curtir o filme e quem visse antes o filme iria gostar de ler o livro” (DICK, 2019, p.268).

Escritor norte-americano, Dick dedicou-se amplamente a literatura de ficção científica, dentro da qual estabeleceu sólida influência através da complexidade das personagens, das reflexões e da profundidade em ultrapassar os limites do pensamento voltado apenas aos problemas de sua época. Autor de diversos romances e contos do gênero, Dick foi capaz de antecipar algumas questões importantes de nosso tempo. A ficção científica, de certo modo, lhe dera essa capacidade de perambular entre o possível e o impossível para observar desdobramentos, tendências e situações inéditas de um futuro distante.

O gênero distópico pelo qual o escritor velejava expõe nossa realidade em suas fronteiras, eleva a condição humana ao limite, evidencia nossas fraquezas em lidar com o mundo e com outros sujeitos. Evidentemente, a maior parte desse campo de possibilidades não se realizam concretamente, mas deixam em aberto algumas simulações, que na duração do tempo e na ação humana (voluntária e involuntária) podem estar próximas de nós. Carros voadores, robôs, técnicas de biotecnologia e engenharia genética, catástrofes ambientais, declínios políticos, formas de poder. Em nosso tempo, esses e outros itens abordados pela ficção científica, operam em potencialidades, em momentos de alternação, no vazio, na latência, e na presença. Alguns já estão bem encaminhados em nosso mundo, outros em estado de alerta e em diferentes formas de funcionamento, alguns ainda nem foram imaginados como possibilidade. Dick antecipou coisas importantes que fazem parte de nosso cotidiano, pelo menos em finalidade de operação. Algumas coisas descritas podemos dizer que foram atualizadas e modificadas esteticamente, como é caso das chamadas de vídeo, já presentes na obra em questão.

Philip K. Dick morreu em 2 de março de 1982, alguns meses antes do lançamento do filme Blade Runner, não pôde ver alguma apropriação de sua obra sobre outra forma cultural, não pôde também, ver suas histórias e pensamentos se realizarem ou pelo menos se encontrarem a uma distância curta de realização. Entretanto, os dilemas sociais e filosóficos que Dick nos impusera já estavam no seu tempo, e se apresentam na atualidade com maior intensidade, justamente por suas previsões distópicas e ficcionais estarem localizadas cada vez menos no campo da ficção e cada vez mais no campo do real. Permanece, com a leitura atual de Androides sonham com ovelhas elétricas? o problema existencial, que percorre todos os tempos e mobiliza uma multidão de indivíduos, dos mais diversos tipos, afinal o que é o homem?

Costa Oeste dos Estados Unidos, Califórnia, São Francisco, 1992. Em um contexto pós-guerra, no qual a Terra encontra-se em declínio civilizacional, coberta por poeira radioativa, descobrimos a história de Rick Deckard. A Guerra Mundial Terminus praticamente extinguiu as condições de vida sobre a Terra, só restavam pessoas de baixo QI, miseráveis, deformados fisicamente, policiais; aqueles que estavam encarregados de fazer o ingrato trabalho de finalizar um projeto de exterminação em massa. A colonização de outros planetas e os avanços tecnológicos da época, permitiram, ao mesmo tempo, uma onda de imigrações para fora da Terra e estabelecer as condições de domesticação e contensão daqueles que estavam marcados para morrer. O vazio amedrontador dos estabelecimentos e moradias, e as paisagens cinzentas definiam aquele ambiente em colapso, angustiante, melancólico, pessimista.

Deckard é um caçador de recompensas contratado pelo departamento de polícia de São Francisco. A manutenção de sua vida dependia disso. Financeiramente decadente, ele se queixava por não poder sequer comprar um animal de verdade, restava apenas aqueles elétricos, idênticos aos verdadeiros. Alguns animais encontravam-se já em extinção devido a poeira radioativa. Seus preços eram altíssimos. Naquele dia, Deckard ajustou seu sintetizador de ânimo programado para que ele fosse ao trabalho, não o contrariou, e saiu de casa a chamado de seu superior Harry Bryant.

Deckard, na verdade era um caçador de androides, réplicas perfeitamente humanas organicamente e intelectualmente. Estes, eram produzidos fora da Terra, em Marte por exemplo. Foram incentivos (mão-de-obra) dados pelo governo, em parceria com a Associação Rosen, para as pessoas que decidissem por sair do planeta, um para cada. A função de Rick era eliminar androides revoltados que haviam voltado para a Terra em busca de liberdade. Mas como diferenciar os humanos daqueles que são idênticos em tudo a eles? Reside aí o dilema ético inicial, em como não aposentar, por acidente, um humano de fato.

Deckard fora chamado aquele dia para um novo trabalho, perseguir e matar alguns androides que se passavam por humanos na Terra. Esse novo tipo de androide, o Nexus 6, era uma obra extremamente avançada da Associação Rosen, sua personalidade havia tornado obsoletos todos os testes de identificação, restando apenas a escala do teste de empatia que levava o nome de seus criadores, Voigt-Kampff. Até esta, que havia se tornado a técnica mais atualizada em diferenciar androides e humanos, foi colocada sob questionamento pela inteligência dos humanoides Nexus 6. A missão de Deckard, que dá o pontapé inicial da trama, é aposentar seis desses novos androides. Polokov. Garland. Luba Luft. Pris Stratton. Roy e Irmgard Baty.

Em paralelo a história de Deckard encontramos o solitário John Isidore, apelidado de “cabeça de galinha” por seu baixo QI, algo que o condenou a passar seus últimos anos na Terra, trabalhando como ajudante de Hannibal Sloat em uma empresa que consertava animais elétricos, idêntica a um centro veterinário. Isidore representa um caso curioso, talvez o ponto mais evidente do paradoxo afetivo entre humanos e os androides. Ele torna-se amigo de Pris Stratton, Roy e Irmgard, quando estes passam a ocupar seu condapto suburbano, até então abandonado. Se por um lado era desprovido de uma racionalidade apurada, seu reconhecimento da necessidade de empatia para realizar-se existencialmente, é algo marcante quando Isidore aceita ajudar aqueles androides a se esconderem dos caçadores de recompensa. Uma dependência existencial de convivência. Traçando assim, um movimento de indefinição sentimental, como Deckard, que problematiza no decorrer da história sua empatia pelos replicantes, evidenciada em sua relação amorosa com Rachel Rosen.

O romance de Dick é um espaço ambicioso de experimentações entre as personagens, a descrição acima buscou apenas apresentar o contexto da obra e abrir para os questionamentos que estão em jogo no livro. É certo que a narrativa aborda as tensões entre as características que definem o humano real e o humano técnico, a intenção de Dick é bagunçar os pressupostos já estabelecidos no interior dessas discussões, provocar a instabilidade de nossa condição humana. Entre a linguagem, o raciocínio e os sentimentos, quais destes podem expressar o que é ser humano? Esquecer como estabelecer relações afetivas é esquecer de ser humano? É possível estabelecer relações mais complexas entre humanos e máquinas inteligentes? O humano é algo imediatamente reconhecido, ou trata-se de uma construção social da realidade? Esses questionamentos são indispensáveis para uma leitura densa da obra de Philip K. Dick.

A noção de distopia forma uma maneira peculiar de pensar o futuro da organização do mundo. Similar a noção de utopia, indica uma relação temporal distante entre presente e futuro, que no desenrolar do agir humano pode ou não se tornar próxima. O caráter diferenciador entre utopia e distopia é que esta, geralmente, é utilizada para expressar uma negatividade em relação ao futuro da existência humana. Mas também, a distopia apresenta a fissura na imaginação que permite enxergar com intempestividade a construção das expectativas compartilhadas por uma sociedade. A distopia é aquilo que permite ao pensamento ir além de qualquer sistema fechado de orientações e decisões, pensar aquilo que é inimaginável enquanto calado, mas que se torna considerável quando essa experiência parece coincidir com alguns encaminhamentos de nosso tempo.

A distopia da técnica e dos sentimentos são problemas fundamentais do mundo contemporâneo. Técnicas são formas de ação orientadas. O uso comum do termo, oriundo do grego téchne, para indicar uma arte ou ciência, está intimamente relacionado a um projeto civilizacional da modernidade, seu imaginário social. A ênfase na técnica é um produto da sociedade moderna, que se tornou imprescindível para a realização desse projeto. A esse conceito podemos atribuir semânticas como a massificação dos processos de produção industrial, e o controle infindável da natureza e do homem. O termo carrega, a partir das transformações do mundo moderno, o estatuto de instrumento inseparável do homem, iluminador, esclarecedor em suas atividades.

O mundo atual ainda conserva, em partes, essa crença. O que se mantém, para alguns, é a certeza de que podemos dominar essas técnicas, ter controle sobre elas e utilizarmos para o bem-estar social. A distopia de Dick, permite justamente quebrar esse pressuposto, para olhar os desdobramentos de uma técnica que domina o próprio homem e determina sua vida. É preciso colocar isso em paralelo com a realidade, para refletir sobre os processos tecnológicos do contemporâneo. A inteligência artificial, a autonomização da indústria, os big datas, devem ser observados nesse óptica, para desvelar em quais proporções somos controlados por economias de poder ou auxiliados em nossa vida prática.[2]

Alguns objetos que encontramos no escrito de Dick, como o sintetizador de ânimo, a caixa de empatia de Wilbur Mercer, e o teste de diferenciação Voigt-Kampff, ilustram de forma precisa essa situação. São técnicas fundamentais daquela sociabilidade, tanto no sentido de utiliza-las para construir estados de ânimos nas pessoas que ocupam aquele planeta em decadência, tanto para distinguir aquilo que é humano, de fato, e aquilo que é uma réplica perfeita de nós mesmos. Em sua riqueza analítica apontam para uma situação na qual aparelhos e técnicas promovem a instrumentalização da experiência. Ao contrário do entendimento moderno da técnica, o livro nos fornece aberturas para pensar em outra perspectiva, na qual as condições possíveis de existência do homem são modeladas pela técnica autônoma.

O sintetizador de ânimo Penfield, por exemplo, ganha destaque já na primeira frase da obra, e dá início a uma discussão entre Deckard e sua esposa, Iran. A caixa Penfield é uma espécie de despertador, mais sofisticado em operação. Sua intenção é sintonizar, deixar que o seu usuário programe como acordar e como agir cotidianamente. Ao contrário da comum irritação que usualmente temos na hora de acordar, ou melhor, de ser acordado, o sintetizador de ânimo atua como um instrumento que seleciona e exclui, de antemão, horizontes sentimentais dentro de um campo possível de ambiências. Assim, nosso comportamento social é estabelecido artificialmente, excluindo o caráter contingente e aleatório de nossa existência.

São ainda mais complexos, em incluir em seu sistema afetividades geralmente incomodas, como a depressão. Ao mesmo tempo que limita escolhas, é um conjunto abrangente de sentimentos disponíveis, que podem ser escolhidos a qualquer momento, e que levam em consideração as variações precisas de estar em contato com o mundo. Se a instrumentalização da experiência, em sua programação, pode despertar os mesmos sentimentos que existem na realidade cotidiana, qual seria a diferença decisiva entre viver aleatoriamente e programar seus atos com precisão? A instrumentalização suspende, por exemplo, o desdobramento de um dia pelo impacto de ser acordado, ela suprime os indivíduos da intensidade do imediato.

A noção de Stimmung parece ser interessante para compreender a relação entre as formas de constituição de uma atmosfera sentimental e sua capacidade em definir nosso comportamento. Não se trata, portanto, de conceder prioridade ao ato de mapear as tonalidades afetivas que podem ser extraídas pelo contato de apreciação e leitura da obra, algo que certamente também está presente, e talvez seja o que motivou a escrita deste texto. É uma perspectiva menos epistêmica e mais ontológica, voltada as próprias condições de possibilidade de experimentar concretamente os mundos da vida. O que está em questão é observar de que forma a técnica e os sentimentos que estão sedimentados no romance podem revelar, em pararelo com a realidade constituída, um impedimento para o desvelar próprio do ser.

Stimmung, está relacionada a descrição de certos humores, climas, afetos e estados de ânimo que manifestam-se historicamente. São horizontes sentimentais que se definem no contato do homem com o mundo, na materialidade do mundo da vida. Assim, podem alterar substancialmente nossa relação com o tempo, com os fenômenos, sujeitos e coisas do mundo. O que me parece importante pensar através da noção de stimmung, é a maneira pela qual é construída a possibilidade de manipulação da experiência sentimental em nossa vida. Nesse sentido, a leitura que proponho neste escrito é que o ponto decisivo para uma classificação de nós mesmos como humanos, é nossa vulnerabilidade ao caráter oportuno no qual manifesta-se a capacidade de ser surpreendido pelos acontecimentos, tanto o êxtase, como a suspensão dos sentidos.

Dois fatores precisam ser levados em consideração. O primeiro está ligado a necessidade humana de estar em sintonia com o mundo, de afastar a estranheza que se pronuncia em nosso lançamento. Pensar em climas sentimentais como esses produtos de sintonia entre o ser e o mundo, é se aproximar de que a produção de afetos é essencial para nossas possibilidades de existência, determinantes de nosso comportamento social. Portanto, atmosferas sentimentais são invariavelmente precisas para nossa performance mundana como humanos. Isso, nos leva ao segundo fator, as formas pelas quais emergem tais climas. O romance de Dick nos apresenta os limites entre as formas naturais de atingir alguma sensibilidade, o impacto imediato, a surpresa, a intensidade, a serenidade no instante de contato com o mundo. E as formas programadas, instrumentalizadas, de se forjar certos ânimos, de escolher, portanto, as determinantes exatas de nossa condição humana.

Androides sonham com ovelhas elétricas? é capaz de demonstrar com precisão todos esses elementos. Mostra que a afetividade é aquilo que estabelece nossa capacidade de reorganização subjetiva e social. Nos apresenta a possibilidade de avanços técnicos para controlarmos com exatidão nossas próprias vidas. Entretanto, nos mostra também que estamos sempre sujeitos a situações inéditas, sentimentos que surgem da imprevisibilidade de nós mesmos, de nossa instabilidade. Essas situações e afetos são a manifestação ontológica de se encontrar contingencialmente com o mundo.

 

 

 


REFERÊNCIAS

DICK, Philip K. Androides sonham com ovelhas elétricas? Tradução: Ronaldo Bressane. – 3 ed. – São Paulo: Aleph, 2019.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Atmosfera, ambiência e Stimmung: sobre um potencial oculto da literatura. Tradução: Ana Isabel Soares. 1.ed. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed PUC-Rio, 2014.

                        . Serenidade, presença e poesia. Seleção e Tradução: Mariana Lage. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2016.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Tradução revisada e apresentação: Marcia Sá Cavalcante; posfácio de Emmanuel Carneiro Leão. 10 ed. Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2015.

THOMAZ DE AQUINO, Ricardo. Hans Ulrich Gumbrecht: presença, “presente amplo” e stimmung. HH Magazine: humanidades em rede, 10 jul. 2019.

 

 

 


NOTAS

[1]SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. Petrópolis: Vozes, 2014.

[2]Ver debate entre Elon Musk (Tesla) e Jack Ma (Alibaba). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=f3lUEnMaiAU

 

 

 

SOBRE O AUTOR

Ricardo Mateus Thomaz de Aquino

É graduando em História pelo Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Tem interesse nas áreas de Teoria da História e História da Historiografia. Atua como bolsista voluntário no projeto de extensão HH Magazine: humanidades em rede, história pública democrática.

Fonte: Stimmung, técnica e a instrumentalização da experiência em Androides sonham com ovelhas elétricas? de Philip K. Dick

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