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Syd Barrett e meu pai

Publicado em: Syd Barrett e meu pai

Reflexões sobre a ausência e a perda em forma de música

Pedro Gustavo Faria Maia

Alguns poucos anos antes da formação de Pink Floyd como uma banda, Syd Barrett e Roger Waters eram ainda jovens adultos que moravam em Cambridge, na Inglaterra. A promessa da formação de uma banda, a partir do momento em que ambos estivessem na universidade, em Londres, era fundada. Ambos sonharam e viveram este sonho, juntos, por um muito breve período de tempo. Enquanto o restante da banda construiria suas marcas na história da música, Syd já era parte. Para sempre seria.

No ano de 1968, Syd começaria a se perder. Como bem escrito por Waters: “Após uma reunião na Capitol Records, em Los Angeles, Syd e eu paramos no semáforo em Hollywood e Vine. Syd sorriu para mim e disse, ‘É bom aqui em Las Vegas, não é?’. Então seu rosto escureceu e ele cuspiu uma palavra: ‘Pessoas.’”

A banda, e acima de tudo, o Roger, haviam perdido seu criador, sua fonte. A deteriorização mental de Syd, agravada, especialmente, pelo seu uso exagerado de drogas, o levou a sua saída da banda. O colapso mental de Barrett já estava estabelecido para os outros integrantes da banda. O artista influenciou os passos de cada um dos integrantes do Pink Floyd nos anos seguintes. Syd nunca foi esquecido.

Sucessivos álbuns, turnês e promoções, no fim da década de 1960 a meados da de 1970, expandiram o caminho da banda. Neste curto espaço de tempo, haviam ampliado suas perspectivas de criação e a aplicação de diversos conceitos a seus álbuns. Com este espaço bem construído durante esses anos, a obra-prima de rock progressivo de 1973, The Dark Side of the Moon, era lançada. A revolução estava posta e Pink Floyd era sinônimo de progresso na música. A banda arranjara novos significados à música contemporânea. O ápice da música era alcançado durante aquele ano. Mas e depois?

Diante de um cenário como o de 1973, a banda, no ano seguinte, enfrentou um momento único. A crise criativa no processo conceitual do próximo álbum afetou profundamente cada um dos integrantes. Todos passaram por um processo introspectivo que ia em direção à procura de si mesmo. A ideia e conceito de Wish You Were Here nasce dessa ação, dessa busca. A presença de Syd Barrett se mostrou importante pra todos os envolvidos com a banda no processo de criação para o próximo álbum. Wish You Were Here trata a perda, nas infinitas formas em que ela se manifesta.

You were caught in the crossfire,

of childhood and stardom,

Blown on the steel breeze

Come on, you target for faraway laughter,

Come on you stranger, you legend, you martyr and shine.

O começo do álbum prepara o tom do álbum que virá a seguir. Shine On You Crazy Diamond carrega em si um tipo de poder que, raramente, encontra na música como uma forma de arte em geral. O uso de sintetizadores, no começo da faixa, entrega a tonalidade e a temática da perda. A lenta transição entre as cinco partes que compõem a estrutura da música demonstra o que a banda tinha como visão artística conceitual. A transição entre sintetizadores e o instrumental clássico da banda se dá através de quatro notas que representam a dualidade entre vida e morte, tratada no álbum. Essas quatro notas saem da guitarra de David Gilmour e já demonstram o que virá no decorrer do álbum. A influência de artistas do cenário musical norte-americano, como Pete Seeger e Lead Belly, é bastante visível durante a segunda parte da canção, onde a guitarra sobressai-se como destaque. Não obstante, todos os outros instrumentos também carregam uma importância vital na composição da canção, seja na mistura perfeita entre a bateria e baixo, de Mason e de Waters, respectivamente, e a forma em que o teclado, sintetizador (Wright) e guitarra conversam entre si. Essas características se estendem também através da parte três.

Na parte quatro, temos a primeira aparição lírica do álbum. Como de praxe, as letras também representam o que há de melhor na banda.

“Remember when you were young,

You shone like the sun”

Roger Waters faz sua primeira aparição como letrista (no álbum) com os dois versos acima. Falar sobre as letras de Roger Waters, pessoalmente, soa como um assunto um pouco redundante. São inúmeras voltas com justificativas e explicações do porquê são tão boas ou criativas. Mas, no que toca diretamente o assunto: as letras são boas, pois tocam as pessoas de maneira universal. Quando se trata das letras de Roger, abrangidas aqui durante todo seu período com a banda, elas se provam sempre como letras sólidas, poéticas e profundas. Isso nos chama a atenção por si só, mas, quando incrementadas com a musicalidade da banda, é impulsionada a atingir um novo patamar.

As letras de Wish You Were Here são escritas com o pensamento em Syd Barrett. Elas tratam a infância do artista, o sentimento de Roger para com Syd e seu sentimento de admiração pelo amigo, descrita em diversos versos.

“Come on you stranger,

You legend, you martyr

And shine”

A última parte da canção se dá com uma transição poderosa entre o fim do refrão e o solo de saxofone composto por Dick Parry, que merge a melancolia e a tristeza apresentadas, anteriormente, em toda a canção, o que gera, também, uma inversão ao final da música, onde o ritmo se transforma e ganha força. Isso cria um final muito diferente, uma sonoridade dançante para a canção que outrora se fundava na melancolia, o que estabelece uma nova perspectiva para a próxima faixa do álbum[1].

Uma estática de rádio persistente e duas vozes, uma pertencente a uma mulher e outra a um homem, que cortam o som. Essas vozes foram capturadas de um programa de rádio, em um momento único dos anos 70, durante as gravações do disco nos estúdios Abbey Road. Esse trecho de rádio anuncia o começo da música tema do álbum, onde a canção mais forte do disco tem o início mais sereno. O tema da ausência retorna com força na canção, escrita a respeito de Syd Barrett. O objetivo da canção é claro: nos mostrar o quão forte a ausência de Syd afeta os membros da banda. Seu começo é incerto, nebuloso. Expõe a dualidade do ser humano de uma forma seca. O que pode ser interpretado através das experiências de Waters com a guerra, também abre margens para interpretar as dificuldades em lidar com a decadência mental de Barrett.

O refrão perfura todo o sentido da canção enquanto a banda grita sua perda para todos os ouvidos que os escutam. Junto aos lamentos de sua perda, também confessam estar perdidos. Isso se torna especialmente visível à medida que a canção se esvai em meio a uma mistura tênue entre doce e amargo, uma névoa aparentemente interminável onde continuarão perdidos indefinidamente. Isso se estende até a próxima faixa, a última do álbum.

Shine On You Crazy Diamond, Pts. 6-9 se inicia perdida em uma névoa recheada de uma mistura de sentimentos e emoções em que a banda se encontra. Este processo é quebrado pelo som instrumental da banda, que ressurge e passa a ganhar mais força a cada segundo. Essa força eventualmente decai-se em uma sonoridade que se assemelha a loucura de Barrett. Um instrumental triunfante que apenas desce, se perde e se encontra e se torna forte, cada vez mais. O som pesado se torna ambíguo, com duplo significado. Ao mesmo tempo que aparentemente se perde, se encontra. O reencontro ganha força e a música retorna a um ambiente familiar que antes já fora introduzido. O refrão de Shine On You Crazy Diamond retorna de maneira triunfante sobre o que antes estava se transformando em algo que representava a loucura. Diferente das primeiras partes, as partes 6-9 terminam em um tom de paz. A melancolia se arrasta durante a última parte da canção, algo que causa a retração e carrega uma emoção similar a despedida. Novamente a temática da perda volta à tona. Dessa vez a despedida será eterna e por isso a melancolia traz consigo um peso maior. A parte final da canção faz questão de nos lembrar o peso da perda e da morte. O progresso final da música se dissolve em um tom doce, de liberdade. Um sentimento de leveza que se difere do que antes fora apresentado. A banda entende a perda de seu criador e já não sofre por isso. Passam a admirá-lo com todo o poder que tem em si.

Para mim, o álbum tem proporções gigantescas. Perdi meu pai aos 17 anos de idade, em 2020. As circunstâncias de sua morte e a forma em que ele se foi, naquele momento, se manifestaram em um sentimento de perda que continuaria, indefinidamente. Eu estava perdido. Eu havia perdido uma parte de mim. Assim como o álbum, meu único sentimento e desejo era de que ele estivesse aqui. Que estivesse de volta, que não estivesse distante de onde estou. No fim, estar distante é estar perdido. Ambos se tornam sinônimos. O brilho da vida de meu pai ecoa em mim, tal qual o de Syd ecoa para a música. Assim como um, ambos dobraram as leis da natureza e se esquivaram da morte e do esquecimento. Ambos brilham e se mantêm imortais, para sempre.

 

 

 


Notas:

[1] A próxima faixa do álbum é a Welcome to the Machine, mas aqui, opto por não a tratar. Também não tratarei a Have a Cigar.

 

 

 


Créditos na imagem: Reprodução: https://rock360.com.br/2022/10/17/pink-floyd-syd-barrett-novo-documentario-historia-vida/

 

 

 

SOBRE O AUTOR

Pedro Gustavo Faria Maia

Graduando em História pela Universidade do Estado De Minas Gerais. Possui interesse pelo estudo das Humanidades, Teoria da História e Historiografia. Criador e integrante do projeto de extensão Ciranda do Disco. É representante discente do Departamento de Humanidades da Unidade Divinópolis e integrante do grupo de pesquisa Temporalidades e Histórias Populares.

Fonte: Syd Barrett e meu pai
Feed: HH Magazine
Url: hhmagazine.com.br
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