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Tempo de Páscoa, entre a sombra que desce e a luz que se anuncia – a.muse.arte

Tempo De Páscoa, Entre A Sombra Que Desce E A Luz Que Se Anuncia – A.muse.arte

Consensual angel spinning this word’s thread
he descends
and light-sensitive darkness
follows him down.
Geoffrey Hill

Há, na obra de Mário Rita, vislumbres de espiritualidade que citam, de forma jamais explícita, uma tradição iconográfica cristã. Por vezes, apenas o título orienta a leitura e define a perceção da representação. Certamente, serão títulos conferidos postumamente à criação, pelo que esta se desenvolve subjetivamente a comandar o gesto que define o traço.

Crucificação
Mário Rita, 2015
Carvão sobre colcha de seda
Foto: Valdemar Ricardo Alves, 2015
Descida da cruz
Mário Rita, 2015
Carvão sobre colcha de seda
Foto: Valdemar Ricardo Alves, 2015
Ressurreição
Mário Rita, 2015
Carvão sobre colcha de seda
Foto: Valdemar Ricardo Alves, 2015

(Re)ver este conjunto de pinturas – Crucificação, Descida da cruz e Ressurreição –, enunciáveis como um tríduo pascal pela referência aos três dias entre a morte e a páscoa, coloca-nos perante a metáfora deste tempo. Revemo-nos nestas figuras que tombam, dobradas sobre o próprio sofrimento e solidão.

O lirismo das linhas a carvão que se desenham sobre colchas brancas de seda, deixando apenas percetível a textura do padrão que fica subjacente, sugere, mais do que uma figura, os seus gestos, atitudes, emoções. Prendemo-nos à perceção do desprendimento, da contenção, da frugalidade, como a um reflexo no espelho, porque tudo isso nos é exigido, agora.

A Crucificação (sem a representação visível da cruz, apenas subentendida) é um corpo onde ainda se percebe o vigor, nos joelhos que se apertam, nos braços que se agarram a um apoio oculto, mas onde a cabeça se apaga e descai, enquanto que, na Descida da cruz, o corpo morto é um perfil curvo onde as linhas se tornam indecisas, entre a duplicação e a obliteração da matéria em transformação.

A Ressurreição prolonga o abatimento do corpo crucificado e descido da cruz. Não é vitoriosa, nem será divina. É um renascimento profundamente humano, o deste corpo (a figura mais corpóreo das três representações) que renasce, que simula erguer-se e contrariar o próprio peso, mas que se apoia em duas hastes, numa possível alegoria à cruz que ficou para trás. Também aqui, somos nós e esta é a imagem da nossa ressurreição no futuro em que queremos acreditar. Também nós, havemos de nos erguer, mas não seremos os mesmos. Estaremos, talvez, mais lúcidos ao acordar destas sombras, mas havemos de nos apoiar na memória dos dias e na experiência que nos transforma.

Nesta Páscoa diferente, os dias mantêm-se quaresmais de incerteza e isolamento, como uma escuridão sensível a abater-se sobre a nossa existência quotidiana, mas não eliminam a esperança. Sabemos que estamos juntos, unidos na certeza do que é essencial e na expetativa dos dias que virão. Ainda havemos de renascer na claridade da primavera que se anuncia.


Fonte: Tempo de Páscoa, entre a sombra que desce e a luz que se anuncia – a.muse.arte

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