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Ensinar História, combater Fake News – HH Magazine

Publicado em: Ensinar História, combater Fake News – HH Magazine

O presente relato de experiência busca apresentar uma atividade desenvolvida com turmas de 6º e 7º anos do ensino fundamental II em duas escolas localizadas na Zona Sul de São Paulo, uma da rede municipal de ensino e outra da rede particular.

A atividade, intitulada Dia de Historiador, aconteceu em três anos seguidos (2023, 2024 e 2025), o que nos permitiu certa visão de conjunto, com diferentes turmas e em diferentes contextos, de seu desenvolvimento, potencial e ajustes necessários. Os discentes que participaram possuíam, em sua imensa maioria, entre 11 e 12 anos.

O objetivo da atividade consiste em instigar o discente a pensar: “Como a história é produzida?”. Reflexão essa que se desdobra, também, para o campo dos saberes práticos e cotidianos destes sujeitos.

O Dia do Historiador na sala de aula de hoje

A atividade Dia de Historiador tem por objetivo central possibilitar ao estudante o exercício prático da função de historiador por meio do contato com diferentes fontes históricas. Essa atividade parte de dois pressupostos distintos mas complementares entre si. O primeiro considera que o ensino de história deve, também, abarcar o fazer histórico, a teoria e a metodologia subjacentes a qualquer conhecimento histórico cientificamente produzido. O segundo, por sua vez, entende a importância da criticidade e da reflexão sobre a informação que consumimos em uma sociedade extremamente informatizada (MORAES, 2006; HAN, 2022).

Essa preocupação que informa a atividade aqui discutida, também é compartilhada por Marieta de Morais Ferreira. Embora tenha encontrado sua entrevista apenas quando o Dia de Historiador já estava no seu terceiro ano, Ferreira foi capaz de sintetizar, com muita eloquência, os princípios que fundamentam e embasam o desenvolvimento dessa proposta. Em suas palavras:

A gente tem uma visão de que tem que dar tudo para os nossos alunos, não é? Que tem que dar história de Egito, Grécia, Roma, todos os eventos… E hoje, se eu quero saber uma coisa, entro no Google. Outro dia eu estava vendo uma série na televisão, sobre Luís XIV, e tinha vários personagens, vários eventos, e eu não me lembrava de mais nada daquilo. Mas, também, nunca estudei, para falar a verdade, aquilo. Entra no Google, você hoje sabe tudo o que aconteceu, os personagens… Você pode checar: “Não, esse site aqui é a Wikipedia, não é seguro, não vamos pegar a Wikipedia, vamos pegar um outro site aqui…”. O que eu acho que é muito importante, hoje, para o professor de história, é ensinar a pesquisar. Ensinar a apurar as informações que são fidedignas. E o método histórico é muito útil para isso. E a própria história oral – essa problematização das fontes – no quadro atual, acho que ela tem uma relevância muito grande. Mesmo que você não dê tantos conteúdos, mas se pegar um documento, confrontar com outro documento, fizer aquelas perguntas tradicionais – “quem fala?”, “de onde fala?”, “como fala?” –, você dá para essas crianças, esses adolescentes, esses jovens, ferramentas para eles, minimamente, se situarem nesse mar de informações que recebem todo dia. Porque, mesmo para nós, a quantidade de informações fakes, distorcidas, inventadas… é uma loucura! Então, o método de investigação histórica é uma ferramenta muito importante para ajudar as pessoas a apurar e analisar a informação. […] Então, isso continua tendo relevância e sendo uma ferramenta para enfrentar essa onda de fake news e de volume de informação. É tanta coisa, é tanta coisa… que a gente se perde, sabe? O que é que vale? O que é que não vale? A história tem essa qualidade, essa possibilidade de trabalhar nesse terreno incerto e pantanoso que nós estamos aí enfrentando. (FERREIRA, 2019, p. 237-38)

Trata-se, portanto, de considerar o conhecimento histórico em sua dimensão não estritamente “conteudista”, isto é, dos períodos, recortes e acontecimentos históricos. Ainda que essa visão seja a tradicional e reinante no senso comum do que é a disciplina de História, é preciso também resgatar a metodologia e a teoria da história como conhecimentos essenciais para o discente em sua formação, sobretudo, para usar as palavras acima citadas, neste “terreno incerto e pantanoso que nós estamos aí enfrentando”, infelizmente ainda não plenamente superado, de difusão de fake news[1].

Relato da aplicação em sala de aula

Com base nos últimos três anos de aplicação e desenvolvimento dessa atividade, pode-se oferecer, brevemente, o seguinte relato de experiência organizado em uma lógica linear do “passo a passo”, com comentários mais específicos quando necessário[2].

A atividade Dia de Historiador ocorre apenas quando os discentes já estão suficientemente familiarizados com algumas noções básicas para que a tarefa prática proposta possa fazer sentido. Portanto, em primeiro lugar, é imprescindível que noções como fonte histórica, crítica da fonte e até mesmo do que faz o historiador estejam claras e assimiladas pelos discentes.

Feito isso, a próxima etapa é a separação dos grupos, parte essencial para a execução do trabalho. Neste ponto, sempre optei pela escolha dos grupos por parte do docente. Tal procedimento colabora para mesclar discentes com diferentes níveis de conhecimento, além de proporcionar uma maior integração entre os diferentes estudantes, afinal atividades práticas e interativas como essa, se bem supervisionadas e orientadas, contribuem para uma melhor interação entre a classe.

Postos em grupos, o docente deve separar as “caixas”, momento este realizado fora da sala de aula. Aqui as Caixas são entendidas como portadoras das fontes históricas (como se vê nas fotos abaixo). Se uma classe, por exemplo, formar seis grupos, o docente deve, então, elaborar seis caixas com fontes diversas a fim de garantir que cada grupo deve se ocupar de alguma caixa, evitando ociosidades. Da mesma forma, deve garantir que cada grupo circule, normalmente em sentido horário, em cada caixa a partir de um tempo previamente estabelecido e comunicado aos discentes, de modo a garantir que cada grupo analise cada uma das caixas.

Preparados os discentes, separados os grupos e caixas montadas, partimos finalmente para o Dia de Historiador. Nestes anos de desenvolvimento da atividade, ocupamos lugares distintos da sala de referência (seja da turma ou do professor, variando conforme a escola). Na escola da rede particular, utilizamos o espaço do Mezanino, próximo ao Anfiteatro, enquanto na rede municipal, utilizamos outra sala de aula que estava livre.

 No dia da atividade, os discentes são orientados a, a partir de cada caixa, considerar e imaginar que aquela caixa significa uma sociedade antiga, cujos sinais de existência encontrados pelos historiadores não passam de poucos vestígios do passado, sendo estes as fontes de cada caixa. Dá-se, então, o comando e os grupos circulam entre as caixas, abrindo-as e descobrindo em cada uma delas diferentes fontes e, a partir disso, passam a elaborar hipóteses sobre cada uma delas.

Figura 1 e 2: discentes dos anos de 2023 e 2025 analisando as fontes presentes em cada caixa.

 

Observa-se na imagem acima o momento de interação entre os grupos, as caixas e as fontes. É oportuno dizer que espera-se dos discentes não o “acerto” nas hipóteses elaboradas a partir das fontes encontradas. Trata-se muito mais de observar e instigar o olhar crítico à esses objetos, provocando-os à elaboração de hipóteses e reflexões críticas sobre o que estão analisando. Justamente por isso, aliás, os objetos podem ser os mais variados. Para ficarmos nas imagens: podemos propor o uso de impressões de vasos de cerâmica antigos, canos ou correntes de plástico.

Como suporte nesse momento de análise, os estudantes recebem uma “Ficha de Análise” que contém basicamente duas tarefas: 1) conforme a quantidade de caixas, elaboramos quadros para que possam descrever seus achados (as fontes) e realizar suas interpretações (as hipóteses); 2) uma pergunta final, de teor dissertativo-reflexivo, em que eles devem responder: “Por quais razões as fontes históricas são importantes para o trabalho do historiador? Quais são os limites das fontes históricas?”. Espera-se, assim, que as reflexões possam ser sistematizadas para servirem de material para análise e avaliação do docente.

Figuras 3 e 4: momento de preenchimento das fichas com as turmas de 2024 e 2025.

 

Nas imagens acima é possível observar justamente o momento de sistematização das informações. No que diz respeito à esse procedimento, observamos ao longo das atividades, dificuldades dos estudantes de atenderem ao duplo comando de: a) descrever os objetos encontrados; e, ao mesmo tempo b) elaborar hipóteses a partir desses objetos/fontes. Muitas vezes, vemos apenas a descrição ou apenas a hipótese. Trata-se, portanto, de eventual alteração no comando dos enunciados, de modo a ficar mais claro o que devem fazer.

De modo geral, esse é o desenvolvimento da atividade aqui proposta, responsável por instigar nos estudantes o que há de central, mas muitas vezes despercebido pelo senso comum, da atividade do historiador: o trabalho com as fontes (FARGE, 2017).

Por fim, pode-se dizer que a atividade aqui apresentada tem alcançado interessantes resultados no que diz respeito à percepção dos estudantes acerca da construção do conhecimento histórico. Como bem afirma Marta Rovai (2019), em uma sociedade com tantas informações (inclusive históricas) é fundamental que os discentes possam exercer o papel de sujeitos ativos e não apenas consumidores passivos dessas inúmeras produções que informam diferentes pontos da vida.

No que diz respeito especificamente ao conhecimento histórico, essa atividade serve, como percebemos pela análise das fichas individuais de cada estudantes, reflexões como, aqui adaptadas:

 

“O historiador precisa das fontes para saber o que aconteceu, não pode escrever qualquer coisa”.

“As fontes são importantes para conhecer o passado, sem elas não saberíamos o que aconteceu”.

“As fontes também não contam tudo, tem que ver o que elas dizem e o que elas não dizem”.

Respostas como essas indicam que, certo modo e considerando as especificidades de turmas de 6º e 7º anos, nossos objetivos têm sido alcançados. Desde o início do Fundamental II, já são provocados a estranhar o passado, entender os mecanismos de apreensão científica dele e, ao mesmo tempo, se colocarem como sujeitos frente a ele. Para traçar um paralelo com Marta Rovai ao propor atividades de natureza semelhante com os depoimentos de presos e torturadores disponibilizados pela Comissão Nacional da Verdade, entendemos que:

Em sala de aula, o educador deve atuar sempre como um provocador, um acionador de questionamentos e mediador de saberes. Diante de tamanha quantidade de informações e de testemunhos disponibilizados publicamente, ele pode estimular, junto aos meninos e meninas, rodas de conversa que levem a cogitar: diante de tamanho registro e da facilidade de acesso aos grupos de trabalho e às tomadas de depoimentos, por que vivemos um processo em que ainda se nega o passado ou se defende a banalização do horror? (ROVAI, 2019, p. 103-104)

Ainda que os conteúdos sejam distintos, a forma é a mesma: o historiador no mar de informações que nossos discentes facilmente têm acesso, o educador “deve atuar sempre como um provocador, um acionador de questionamentos e mediador de saberes”.

 

 

 


NOTAS

[1]  Neste trabalho, a noção de fake news é entendida em seu sentido literal: notícias falsas. Espera-se dos discentes que, a partir das reflexões desenvolvidas no Dia do Historiador, possa-se construir habilidades e competências que dêem conta de criticar, analisar e discutir as informações – não apenas históricas – que estes sujeitos encontrarão ao longo da vida.

[2]  Em um desses Dia de Historiador (2023) a atividade foi publicizada no site do colégio onde ocorreu: https://www.escolapinheiro.com.br/blog/historiadores-por-um-dia-6o-ano/. Neste link, pode-se encontrar diferentes fotos do ocorrido.

 

 

 


Referências

FARGE, A. O sabor do arquivo. São Paulo: Ed. USP, 2017.

HAN, B-C. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Petrópolis: Vozes, 2022.

HERMETO, M.; FERREIRA, R. de A. Entrevista com Marieta de Moraes Ferreira: uma trajetória em (o que hoje chamamos) história pública. Revista História Hoje, São Paulo, v. 8, n. 15, p. 223–238, 2019. DOI: 10.20949/rhhj.v8i15.560.

MORAES, D. (org.). Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Maud, 2006.

ROVAI, M. G. de O. Ensino de história e a história pública: os testemunhos da Comissão Nacional da Verdade em sala de aula. Revista História Hoje, São Paulo, v. 8, n. 15, p. 89–110, 2019. DOI: 10.20949/rhhj.v8i15.506.

 

 

 


Créditos na imagem de capa

Arthur Harder Reis

 

Fonte: Ensinar História, combater Fake News – HH Magazine
Feed: HH Magazine
Url: hhmagazine.com.br
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