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O envelhecimento populacional constitui um dos fenómenos demográficos mais marcantes das últimas décadas, colocando novos desafios às políticas públicas, aos sistemas de saúde e à investigação científica. Entre as dimensões frequentemente negligenciadas neste debate, encontra-se a sexualidade na idade sénior, ainda hoje imersa em mitos que a associam a declínio inevitável ou irrelevância social. É neste enquadramento que surge o estudo Sexual function and pleasure among Portuguese older adults: An approach based on sexual orientation and gender, publicado na revista científica The Journal of Sexual Medicine, e que avalia a função e o prazer sexual em seniores portugueses considerando diferenças associadas à orientação sexual e ao género.
Hoje em dia, é amplamente reconhecido que a sexualidade é uma dimensão central do bem-estar ao longo do ciclo de vida, e sublinha-se que o envelhecimento não deve ser entendido apenas como um processo biológico, mas também como uma experiência social e culturalmente situada. As mudanças corporais que acompanham a idade coexistem com fatores como o estigma associado ao envelhecimento, preconceitos relativos à expressão da sexualidade em idades mais avançadas e, no caso das minorias sexuais, experiências acumuladas de discriminação e exclusão. Estes elementos moldam a forma como a intimidade é vivenciada e significada, influenciando tanto a perceção de satisfação como a construção da identidade relacional. O estudo adota uma abordagem diferenciada ao comparar experiências de pessoas heterossexuais e de minorias sexuais, bem como ao considerar distinções entre homens e mulheres. Esta perspetiva revelou-se particularmente pertinente num contexto em que a investigação tende a tratar a população sénior como homogénea, ignorando desigualdades estruturais e trajetórias de vida diversas.
Ao integrar orientação sexual e género como eixos analíticos centrais, amplia-se a compreensão das múltiplas formas de experienciar intimidade na velhice. Os resultados indicam que a vivência da sexualidade em idades seniores ultrapassa indicadores estritamente clínicos, como a presença ou ausência de disfunção. Sugerem que as dimensões subjetivas (e.g., satisfação, proximidade emocional, qualidade da relação, significado atribuído ao contacto físico) assumem um papel determinante. Simultaneamente, observam-se impactos específicos associados às minorias sexuais, sobretudo no tocante a fatores psicossociais, como a fragilidade das redes de apoio ou a persistência de estigmas, que podem condicionar o bem-estar. Ao afastar-se de uma leitura exclusivamente biomédica e ao privilegiar uma perspetiva biopsicossocial, o estudo evidencia a importância de integrar a sexualidade nas estratégias de promoção de um envelhecimento ativo e saudável. Tal exige a capacitação dos profissionais de saúde para abordarem estas questões sem preconceitos, a criação de contextos clínicos seguros para discutir a intimidade e o desenvolvimento de políticas que reconheçam a diversidade sexual e de género na população sénior.
Mais do que acrescentar dados a um campo ainda pouco explorado, este trabalho convida a repensar o próprio significado de envelhecer. Ao mostrar que desejo, intimidade e prazer não desaparecem com a idade, mas se transformam e adquirem novos contornos, desafia visões estereotipadas que associam velhice a assexualidade ou invisibilidade. Nesse sentido, abre espaço para uma reflexão mais ampla sobre dignidade, reconhecimento e direito à expressão sexual ao longo de todo o percurso de vida, lembrando que envelhecer não implica abdicar da dimensão afetiva e relacional que sustenta o bem-estar humano.
José Alberto Ribeiro-Gonçalves – Professor Auxiliar Convidado da Universidade da Madeira; Investigador Integrado do Centro Universitário de Investigação em Psicologia (CUIP) e colaborador do Centro de Psicologia da Universidade do Porto (CPUP).
Como citar este texto:
Ribeiro-Gonçalves, J. A. Corpo, Identidade e Prazer: Repensar a Sexualidade na Idade Sénior. InfoTRAUMA, 40.