Mesmo sobre ombros de gigantes a ciência vai regredindo
Publicado em: Mesmo sobre ombros de gigantes a ciência vai regredindo
Por Marcio Luiz Reis e Pimenta, Lais Alves e José Aires Trigo
Introdução
Imagem: JJ Ying via Unsplash.
“Se enxerguei mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes”.
A frase popularizada por Isaac Newton nos lembra de que o conhecimento produzido não decorre exclusivamente do nosso mérito, mas também está vinculado às contribuições de pensadores, pesquisadores e orientadores (os “gigantes”) que nos acompanharam ao longo de nossa formação.
Em meio às restrições à liberdade científica e aos escândalos de fabricação, falsificação ou plágio deliberado, associados à cultura do “publish or perish” e ao uso inadequado da inteligência artificial, torna-se inevitável refletir sobre o que nos levou a essa situação obscena e insustentável.
A explicação mais fácil tem sido culpar a nova geração. Fala-se muito do fator comportamental associado ao jovem que ingressa em um curso de pós-graduação e passa a ter contato com a pesquisa científica. Temos até rótulos que tentam acomodá-los sob certas características como a tão famosa Geração Z (nascidos aprox. 1995-2009), na tentativa de explicar seu modus operandi enquanto indivíduos, o que, na visão de muitos, pode representar uma alternativa para compreender nossos futuros pesquisadores.
Considerando que os problemas mencionados se intensificaram em um período semelhante, o que levou essa geração de futuros pesquisadores, que cresceu hiperconectada à internet, que se posiciona veementemente sobre os mais diversos temas sem qualquer tipo de tabu e que vive sob regras morais sólidas, a sucumbir aos atalhos da contemporaneidade?
O que será que faltou a esse grupo seleto que alcançou o mestrado e/ou doutorado? Teria faltado letramento em inteligência artificial aos nativos digitais, ou será que suas convicções não eram tão fortes a ponto de serem persuadidos pelo produtivismo?
Na outra ponta, por que, mesmo dispondo de ferramentas de integridade da pesquisa, como, por exemplo, o IRIS da Scimago, muitas Instituições de Ensino não investem em iniciativas concretas, orientadas por dados, voltadas ao suporte estudantil, acabando por sobrecarregar o processo de orientação científica?
É a partir dessas inquietações que nos surge uma perspectiva muito mais simples, convencional e mais eficaz para realinhar esse trem desgovernado: a qualidade do processo de orientação científica oferecido a esses estudantes.
A qualidade do processo de orientação científica
Regressão. Essa é a percepção que temos quando somos atropelados por inúmeras denúncias de má conduta científica, sobretudo após o advento das inteligências artificiais.
O website Retraction Watch1 possui em seu banco de dados atualmente mais de 63.000 retratações. A Universidade de Lucknow apresentou uma taxa de 95% das teses de doutorado com indícios de plágio, no artigo de Singh, Academic integrity alert: LU flags plagiarism in 95% of PhD theses submitted this year2, e o uso inadequado da inteligência artificial tem contribuído para a redução da confiança nas pesquisas e para o fomento da desinformação, segundo Gray em seu texto How AI use in scholarly publishing threatens research integrity, lessens trust, and invites misinformation3
Esses e tantos outros problemas impactam diretamente a qualidade da pesquisa científica. Mas o que exatamente é qualidade científica? A qualidade é um dos termos que podem ser interpretados de diversas formas, consistindo segundo Margherita, Elia e Petti em seu artigo What Is Quality in Research? Building a Framework of Design, Process and Impact Attributes and Evaluation Perspectives4, em um conjunto de atributos.
Ainda Margherita, Elia e Petti identificaram, em seu estudo, 66 atributos relacionados à qualidade da pesquisa, abrangendo desde a fase de ideação até sua publicação e disseminação, dentre os quais destacamos: honestidade; rigor; conformidade com a ética; transparência; utilidade; generalizabilidade e significado e valor científico.
, compreendemos a qualidade como o elemento central da confiança atribuída a uma determinada pesquisa e ao seu impacto, em oposição aos atalhos negativos oferecidos pelas inteligências artificiais, como, por exemplo, a produção em massa de artigos, o plágio automatizado, as paráfrases disfarçadas e a coleta de dados sem consentimento, entre outros.
Mas como fazer com que um estudante interiorize essa percepção ou, até mesmo, construa sua própria percepção positiva, compreendendo que se está diante de um aspecto inegociável?
É necessário que haja intencionalidade, contágio emocional e empatia. Trata-se da construção de processos interpessoais positivos, da oferta de suporte socioemocional ao longo da aprendizagem e, sobretudo, do estabelecimento de um contrato pedagógico entre orientador e aluno, fundamentado em valores desde o início do processo de orientação científica.
O compartilhamento da visão acerca do que se espera do aluno ao longo de seu curso, bem como daquilo que é inegociável e constitui o alicerce da qualidade científica, tem o potencial de converter princípios abstratos (como rigor, ética e autonomia, por exemplo) em compromissos operacionais, além de projetar o pesquisador de que a sociedade necessita.
O processo de orientação científica
Wolff em seu artigo O papel do professor na orientação de trabalho científico5 , entende que para a orientação científica ser bem-sucedida, o orientador deve reunir competências técnicas, psicossociais e conceituais que lhe permitam conduzir a trajetória do jovem pesquisador no processo de compreensão da realidade, de busca ou produção do conhecimento e de capacitação para a elaboração de pesquisas).
Todavia, a autora, ao ampliar a sua reflexão, destaca que são as experiências adquiridas na realização de pesquisas científicas que levam o pesquisador a se tornar orientador.
Ou seja, “Os Gigantes” de outrora são fundamentais, pois são eles que nos conduzem para que nossas experiências sejam exitosas e fazem com que nossas falhas, decorrentes da pouca maturidade científica ou mesmo da imprudência marcada pela impulsividade da juventude, se transformem em melhoria contínua e entusiasmo para ir além, e não em um episódio de retratação, fruto do imediatismo e da vaidade de ser reconhecido pelos pares antes da hora.
Por essa razão, esse processo não deve ser conduzido de forma mecanizada, nem reduzido ao mero desdobramento dos tópicos presentes em um livro de metodologia científica, pois não se está diante apenas de um tema de pesquisa, mas da formação de um indivíduo que precisa compreender seu papel perante a sociedade e a sua responsabilidade diante ao conhecimento difundido.
Dessa forma, considerando que o modelo de aprendizagem da pós-graduação brasileira tem o processo de orientação científica como um de seus pilares, torna-se fundamental revisitar as práticas adotadas e enfrentar os problemas anteriormente mencionados.
Quando abordamos as práticas aplicáveis à orientação científica, um caminho que nos parece bastante promissor vem da convergência de cinco dimensões:
- Epistemológica: compreender teorias, conceitos e lacunas reais de pesquisa;
- Metodológica: saber desenhar e executar estudos com rigor;
- Ética: ir além de formulários e assumir responsabilidade sobre o conhecimento produzido;
- Afetiva-formativa: criar um ambiente onde o aluno possa errar, questionar e aprender com segurança;
- Letramento em inteligência artificial: usar tecnologia com criticidade, e não como atalho.
Ao adicionar a inteligência artificial como um tema que deixa de ser um modismo e se integra às demais dimensões consagradas, elevamos a orientação científica a um patamar contemporâneo, garantindo que o pesquisador desenvolva as competências digitais que atualmente medeiam a produção do conhecimento.
Além disso, contribui-se para a formação de um sujeito crítico e resiliente, capaz de não aderir aos atalhos da contemporaneidade, tais como a utilização de pré-prints sem validação, ghostwriting, salami slicing e cartéis de autocitação, entre outros.
Conclusão
O início da trajetória científica costuma ser solitário e desafiador. Trata-se de uma etapa em que, independentemente de sua maturidade pessoal, o orientando necessita do apoio do orientador para direcionar, qualificar e aperfeiçoar suas ações e entregas. É o momento em que o orientador não é apenas um especialista, ele precisa ser a referência técnica e comportamental.
O processo de orientação científica não se reduz a um simples exercício de correção de manuscrito, assim como o combate à má conduta científica não se efetiva pela imposição de regras mais rígidas ou de uma fiscalização intensiva. Trata-se de um processo de troca, reflexão e construção dos princípios que fundamentam a pesquisa científica e do comprometimento com a formação integral do pesquisador, ou seja, depende de relações formativas mais sólidas.
Quando a produtividade deixa de ser o único indicador e passa a dividir espaço com a integridade, a ciência muda e os orientadores assumem com plenitude o papel de “gigantes contemporâneos”, modelando valores inegociáveis de rigor, ética e transparência por meio da escuta ativa, do feedback dialógico e da coautoria responsável.
Assim, sobre os ombros uns dos outros, não apenas preservamos a capacidade de enxergar mais longe, mas também asseguramos que os atalhos que ameaçam o valor da investigação científica não sejam cogitados.
Nota
1. How to buy a scientific paper; creating responsible authorship culture; sanction authors for hallucinated references?. 2026. [viewed 08 May 2026]. Available from: https://retractionwatch.com/2026/03/21/weekend-reads-how-to-buy-scientific-paper-creating-responsible-authorship-culture-sanction-authors-hallucinated-references/↩
2. SINGH, A. Academic integrity alert: LU flags plagiarism in 95% of PhD theses submitted this year. 2026 [viewed 08 May 2026] Available from: http://timesofindia.indiatimes.com/articleshow/129665165.cms?utm_source=contentofinterest&utm_medium=text&utm_campaign=cppst↩
3. GRAY, A. How AI use in scholarly publishing threatens research integrity, lessens trust, and invites misinformation. 2026. [viewed 08 May 2026] Available from: https://thebulletin.org/premium/2026-03/how-ai-use-in-scholarly-publishing-threatens-research-integrity-lessens-trust-and-invites-misinformation/↩
4.MARGHERITA, A., ELIA, G. and PETTI, C. What Is Quality in Research? Building a Framework of Design, Process and Impact Attributes and Evaluation Perspectives. Sustainability. 2022, vol. 14, no. 5 [viewed 08 May 2026]. https://doi.org/10.3390/su14053034. Available from: . https://www.mdpi.com/2071-1050/14/5/3034↩
5.WOLFF, L.D.G. O papel do professor na orientação de trabalho científico. Cogitare Enfermagem. 2007, vol. 12, no.4. [viewed 08 May 2026] https://doi.org/10.5380/ce.v12i4.10062. Available from: https://revistas.ufpr.br/cogitare/article/view/10062↩
Referências
GRAY, A. How AI use in scholarly publishing threatens research integrity, lessens trust, and invites misinformation. 2026. [viewed 08 May 2026] Available from: https://thebulletin.org/premium/2026-03/how-ai-use-in-scholarly-publishing-threatens-research-integrity-lessens-trust-and-invites-misinformation/
How to buy a scientific paper; creating responsible authorship culture; sanction authors for hallucinated references?. 2026. [viewed 08 May 2026]. Available from: https://retractionwatch.com/2026/03/21/weekend-reads-how-to-buy-scientific-paper-creating-responsible-authorship-culture-sanction-authors-hallucinated-references/
MARGHERITA, A., ELIA, G. and PETTI, C. What Is Quality in Research? Building a Framework of Design, Process and Impact Attributes and Evaluation Perspectives. Sustainability. 2022, vol. 14, no. 5 [viewed 08 May 2026]. https://doi.org/10.3390/su14053034. Available from: . https://www.mdpi.com/2071-1050/14/5/3034
SINGH, A. Academic integrity alert: LU flags plagiarism in 95% of PhD theses submitted this year. 2026 [viewed 08 May 2026] Available from: http://timesofindia.indiatimes.com/articleshow/129665165.cms?utm_source=contentofinterest&utm_medium=text&utm_campaign=cppst
WOLFF, L.D.G. O papel do professor na orientação de trabalho científico. Cogitare Enfermagem. 2007, vol. 12, no.4. [viewed 08 May 2026] https://doi.org/10.5380/ce.v12i4.10062. Available from: https://revistas.ufpr.br/cogitare/article/view/10062
Links externos
Sobre Marcio Luiz Reis e Pimenta
Marcio Luiz Reis e Pimenta é doutorando em Engenharia de Produção no CEFET/RJ. Como pesquisador, tem interesse de pesquisa nas linhas de Estudos Organizacionais, especialmente em temas relacionados ao Terceiro Setor, a Governança Socioambiental e os aspectos ligados a Sustentabilidade. É membro do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Educação a Distância do Instituto Federal do Paraná e do Grupo de Pesquisa em Práticas, Saberes e Condutas da Universidade Federal Fluminense.
Sobre Lais Alves
Lais Amaral Alves é professora do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ) no Departamento de Engenharia Mecânica. É professora convidada do Núcleo de Pesquisa e Pós Graduação (NPPG) da Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Sobre José Aires Trigo
José Aires Trigo é professor da Universidade Estácio de Sá atuando em nível de Graduação, Pós-graduação Lato Sensu e Pós-graduação Stricto Sensu. É também Coordenador Adjunto do Mestrado Profissional em Administração e Desenvolvimento Empresarial (MADE).
PIMENTA, M.L.R. Mesmo sobre ombros de gigantes a ciência vai regredindo [online]. SciELO em Perspectiva, 2026 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2026/05/08/mesmo-sobre-ombros-de-gigantes-a-ciencia-vai-regredindo/
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