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infoTRAUMA #41

Publicado em: infoTRAUMA #41

Imagem | Freepik

“… e, de repente, quando olhei para aquele teste e percebi que estava grávida, senti um misto de alegria e medo profundo, tudo muito rápido, como se a minha vida tivesse mudado em poucos segundos

Este pequeno relato de uma mãe ao saber o resultado do seu teste de gravidez ilustra bem a complexidade e, por vezes, a dimensão paradoxal que a transição para a parentalidade pode encerrar. Trata-se de um período marcado simultaneamente por alegria, expectativa e esperança, mas também por medo, incerteza e necessidade de reorganização.

Esta complexidade começa logo na definição do seu início e do seu fim. Embora o nascimento do primeiro filho seja um acontecimento objetivo e marcante que assinala o início da transição para a parentalidade, para muitos autores, o processo de se tornar mãe ou pai começa antes do nascimento, e, em alguns casos, mesmo antes da gravidez. Quando o casal começa a imaginar a possibilidade de ter filhos, inicia-se também uma preparação interna para novos papéis, novas responsabilidades e uma nova organização familiar. Da mesma forma, esta transição não termina no momento do parto. Continua nos meses seguintes e até estas mães, estes pais e esta famílias conseguirem estabilizar uma nova rotina, uma nova organização e uma nova identidade.

Assim, a transição para a parentalidade não diz respeito apenas ao nascimento de um bebé. Implica o nascimento de um novo “eu” – uma nova identidade enquanto mãe e pai – e de um novo “nós”, agora reorganizado em torno da presença de um filho. Esta é, por isso, uma crise expectável e normativa do ciclo de vida das famílias.

Nascimento de um novo “eu”

Do ponto de vista individual, a parentalidade representa uma transição significativa na vida adulta, associada a uma maior responsabilidade e maturidade. Deixamos de ser apenas filhos de alguém para passarmos a ser pais de alguém. Isto implica assumir um novo lugar dentro de nós: o lugar de alguém que cuida, protege, decide e responde pelas necessidades físicas, emocionais, educativas de outro ser humano. Este lugar exige uma reorganização profunda da nossa identidade pois é necessariamente menos centrado nos nossos desejos, emoções, necessidades e projetos individuais.

A par destas transformações psicológicas e relacionais, também surge um conjunto de mudanças biológicas e hormonais que impactam o nosso “eu”. Durante a gravidez e o pós-parto, o cérebro materno reorganiza-se e regiões mais relevantes para o cuidado de um bebé tornam-se mais ativas, nomeadamente, regiões envolvidas na atenção aos sinais do bebé, na resposta ao choro, ou no reconhecimento de expressões faciais. Embora estas mudanças sejam mais evidentes nas mulheres, por estarem associadas à gravidez e ao parto, a investigação tem vindo a mostrar que os pais também apresentam alterações neurobiológicas relevantes. No entanto, nos pais, estas alterações biológicas parecem depender sobretudo da experiência de cuidado e do grau de envolvimento do pai com o bebé. Estes dados mostram como o envolvimento do pai desde cedo no cuidado do bebé é crítico para construção da relação pai-bebé e para a construção do novo “eu pai”.

Quando o “nós” se transforma em “três”

A transição para a parentalidade é também amplamente descrita como uma fase exigente para o casal. Com a chegada do bebé, há, frequentemente, um maior foco nas necessidades da criança e menos disponibilidade para o casal. Surgem noites sem dormir, alterações na intimidade, novas exigências na amamentação ou alimentação, maior carga doméstica, necessidade de dividir tarefas e, muitas vezes, aumento da tensão e do conflito. De facto, a investigação empírica tem mostrado de forma consistente que a satisfação conjugal tende a diminuir ao longo deste período, particularmente entre a gravidez e o primeiro ano após o parto.

Contudo, convém salientar que esta diminuição não é universal: alguns casais mantêm níveis estáveis ou até relatam melhorias na sua relação. Por exemplo, a percepção de justiça na divisão das tarefas domésticas e dos cuidados ao bebé (especialmente por parte das mães) parece estar fortemente relacionada com um aumento da satisfação conjugal nesta fase. Investir numa partilha equilibrada das tarefas domésticas parece ser, por isso, investir num casal com menos conflito e com mais satisfação conjugal.

Isabel C. Lisboa – Investigadora Doutorada em Psicologia do Desenvolvimento no UNINOVA – Instituto Desenvolvimento de Novas Tecnologias, Universidade NOVA de Lisboa.

Como citar este texto:

Lisboa, I.C. Tornar-se pai, continuar casal – desafios e recursos na transição para a parentalidade. InfoTRAUMA, 41.

Fonte: infoTRAUMA #41
Feed: Centro de Estudos Sociais – Destaques
Url: ces.uc.pt
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