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O alarde da mídia em torno de um medicamento experimental no Brasil reaviva receios antigos

Publicado em: O alarde da mídia em torno de um medicamento experimental no Brasil reaviva receios antigos

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Potencial tratamento para lesões na medula espinhal dá esperança a muitos, mas frenesi da cobertura traz de volta velhos fantasmas.

Em março, durante o mês da história das mulheres, uma palestra sobre a presença feminina na ciência na Universidade de São Paulo chamou a atenção de milhares de pessoas. Em três minutos, um auditório com 600 lugares teve todos os ingressos esgotados.

O motivo incomum foi o grande interesse em uma cientista específica convidada para falar no evento: Tatiana Sampaio, cientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que atualmente pesquisa uma nova molécula que pode ser um tratamento potencial para lesões na medula espinhal, chamada polilaminina.

Atualmente em estágios iniciais de ensaios clínicos, esse tratamento experimental ainda não está disponível ao público, embora pacientes venham tentando judicializar sua entrada nos testes mesmo em meio à crescente falta de evidências sobre sua eficácia.

Desde os primeiros meses de 2026, o interesse pela polilaminina explodiu em um frenesi de cobertura que caminha em uma linha tênue entre esperança e exagero.

Um exemplo de afirmações exageradas veio do jornal O Tempo, que publicou uma manchete dizendo “O que é a polilaminina, o medicamento brasileiro que regenera a medula óssea e reverte a paraplegia”, enquanto a Época Negócios publicou um artigo com um título mais sensato: “Como a polilaminina será usada para tratar lesões na medula espinhal que causam paraplegia e tetraplegia”.

Muitos, no entanto, ficaram cada vez mais cansados do hype. Alicia Kowaltowski, médica e colunista da Nexo, afirmou sem rodeios em sua coluna que as pessoas não deveriam permitir que a “cura” para a paraplegia se tornasse a nova “pílula do câncer”, citando um caso antigo em que o frenesi nas redes sociais e a ação política permitiram que um composto comprovadamente ineficaz contra o câncer fosse produzido e vendido legalmente como terapia contra o câncer no Brasil apesar da falta de evidências laboratoriais de que fosse eficaz. 

Por causa disso, jornalistas brasileiros de ciência e saúde passaram a se interessar mais na molécula e a escrutinar o tratamento e a cientista por trás da polilaminina. Muitos encontraram paralelos com casos antigos que justificam a necessidade de moderação diante do furor público.  

Chloé Pinheiro, repórter de saúde da VEJA e produtora do podcast Ciência Suja, disse à LatAm Journalism Review (LJR) que não ficou surpresa com o frenesi em torno do tratamento e da forma como ele vem sendo coberto.

“Claro, havia a esperança de que tivéssemos aprendido algo com a pandemia, mas, na realidade, as editorias de ciência e saúde [no jornalismo] estão desorganizadas e sob intensa pressão para aumentar a audiência”, disse ela. “Então, quando algo assim surge, a mídia tende a embarcar na história — sem jornalistas qualificados para interpretar as evidências e com mais preocupação com o potencial da manchete de atrair leitores.”

Pinheiro cita casos semelhantes no passado que se misturaram em um furacão de interesse público crescente e a necessidade de moderação científica e jornalística. Houve o exoesqueleto robótico do cientista Brasileiro Miguel Nicolelis em 2014, além das reportagens sobre cloroquina contra a COVID, fosfoetanolamina [a já mencionada “pílula do câncer”], o medicamento para Alzheimer Aduhelm, que foi descontinuado, entre outros.

O ex-presidente da Associação Brasileira de Ciências Farmacêuticas (ABCF), Flávio Emery, disse à LJR que o entusiasmo nas redes sociais desempenhou um papel fundamental na criação de uma cobertura excessivamente otimista

“[A polilaminina] não recebeu o devido reconhecimento como candidata a medicamento. A forma como foi tratada na maioria das reportagens que vi apresentava a molécula como a solução para um grave problema de saúde. Em outras palavras, a solução já estava lá e era abrangente o suficiente para resolver um caso grave”, disse ele.

O primeiro sinal de alerta para os jornalistas sobre a polilaminina surgiu em setembro de 2025, quando repórteres foram convidados pela empresa Cristália (detentora da patente da substância) para um evento de divulgação dos resultados do estudo piloto original. O próprio estudo piloto — que não passou por revisão por pares — estava paralisado desde 2021 devido a problemas com sua patente.

Meghie Rodrigues, repórter científica freelance e co-presentadora do podcast Ciência Suja, lembra-se do ceticismo em relação àquela coletiva de imprensa. Nela, a empresa [Cristália] usou aquele estudo piloto para chamar a atenção para a molécula.

“Quando você é um repórter especializado, já se mostra cético em relação a certas alegações, porque entende como funciona o método científico e conhece as etapas de um ensaio clínico”, disse ela à LJR.

Rodrigues, no entanto, entende que, para colegas que estão cobrindo o calor do dia a dia e não possuem esse mesmo repertório técnico, é muito mais difícil ser cético.  

“Se uma empresa farmacêutica está divulgando um produto, você meio que assume que tudo deve ter ocorrido bem até aquele ponto”, afirmou. “Às vezes você nem sabe por onde começar. Se você não sabe quais são as fases de um ensaio clínico, nem vai saber como fazer essas perguntas. Aí fica fácil acabar com informações conflitantes, alegações exageradas ou uma cobertura um pouco mais sensacionalista.”

O caso da “pílula do câncer”, citado anteriormente, se destaca como um capítulo infame da história científica brasileira. O furor público — e político — foi tão grande que seu uso acabou sendo aprovado em 2016 apesar de não haver qualquer indicação de que funcionasse.  

Atualmente, a principal diferença é que, no caso da polilaminina, a substância ainda está em estudo.  

“Ainda há muito mais perguntas do que respostas — ao contrário da fosfoetanolamina, que, mesmo nos estágios iniciais da pesquisa clínica, já havia sido comprovada como ineficaz. Aquilo foi uma fraude”, disse Rodrigues à LJR.  

“Ainda existem muitos testes e estudos a serem feitos, incluindo ensaios clínicos com grupo de controle, que ainda não foram realizados e precisam ser feitos”, ela disse.

Marília Marasciulo, repórter freelancer da Galileu e da Courthouse News, disse que o tema da polilaminina mostra que o interesse público por ciência e saúde não é necessariamente escasso.

“Pelo contrário, o que percebo é que, especialmente quando temos histórias envolvendo promessas de cura, descobertas biomédicas e, às vezes, até algo como exploração espacial, as pessoas realmente se interessam”, disse ela à LJR.

Pinheiro avalia que jornalistas não devem evitar discutir temas supervalorizados no jornalismo científico e de saúde, mas isso deve ser feito com cautela redobrada.

“Uma forma que encontro para equilibrar isso é usar manchetes mais neutras”, disse. “Poderíamos usar uma manchete como ‘por que notícias sobre polilaminina devem ser lidas com cautela’, ou uma ainda mais neutra como ‘o que a ciência diz sobre a polilaminina’, para não afastar o leitor logo de cara.”

Ela também aponta que — em meio à crescente polarização — os repórteres não devem abraçar a falsa equivalência (o chamado “dois-ladismo”) e devem sempre deixar claro onde a “ciência” se posiciona em determinado tema. 

Fonte: O alarde da mídia em torno de um medicamento experimental no Brasil reaviva receios antigos
Feed: LatAm Journalism Review by the Knight Center
Url: latamjournalismreview.org
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