A história por trás da foto que validou o luto de uma comunidade no Equador
Publicado em: A história por trás da foto que validou o luto de uma comunidade no Equador
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2 junho, 2026
Summary
O fotojornalista Santiago Arcos relembra como capturou uma imagem que se tornou um símbolo da violência indiscriminada do Estado.
O começo de 2025 foi muito difícil para Santiago Arcos. O fotojornalista freelancer equatoriano passou a última noite de 2024 pensando no horror da história que havia coberto naquele dia.
A pauta da Reuters era registrar imagens da audiência de apresentação de um grupo de militares acusados pelo desaparecimento dos irmãos Josué e Ismael Arroyo — de 15 e 14 anos — e de seus amigos Nehemías Arboleda, 15, e Steven Medina, 11. Os quatro meninos haviam sido detidos no início de dezembro, após uma partida de futebol, durante uma operação militar em um bairro conhecido como Las Malvinas, no sul de Guayaquil.
A foto de Arcos tornou-se um dos registros visuais mais impactantes de um caso que chocou o Equador e reacendeu as denúncias de violência estatal e violações dos direitos humanos. (Foto: REUTERS/Santiago Arcos)
Em 31 de dezembro, familiares dos meninos, vizinhos e ativistas se reuniram em frente ao tribunal para exigir o retorno deles em segurança. Poucos minutos depois de o juiz decretar prisão preventiva para os suspeitos, o Ministério Público do Equador anunciou que restos humanos encontrados ao sul de Guayaquil — carbonizados e com sinais de tortura — pertenciam aos menores desaparecidos.
A reação de desolação dos familiares abalou profundamente o fotojornalista, que afirmou que, em 16 anos de carreira cobrindo casos de direitos humanos e desastres humanitários, nunca havia testemunhado uma dor como a que viu naquele momento.
“Foi um golpe devastador. Todo mundo desmoronou. Literalmente todo mundo acabou no chão”, disse Arcos à LatAm Journalism Review (LJR). “Era todo o horror que alguém poderia imaginar.”
No dia seguinte, 1º de janeiro de 2025, Arcos voltou a Las Malvinas para os funerais dos meninos, a fim de documentar o luto daquela comunidade marcada pela violência. Uma dessas imagens venceu o concurso World Press Photo 2026 na categoria South America Singles.
A imagem — que mostra um jovem chorando com a testa apoiada em um caixão envolto em plástico, sustentado por duas mãos, enquanto outra pessoa também se inclina em lágrimas — tornou-se um dos registros visuais mais poderosos de um caso que chocou o Equador e reacendeu acusações de violência estatal e violações de direitos humanos.
Uma imagem que mudou a narrativa
Arcos, também natural de Guayaquil, disse que, na manhã dos funerais, acordou determinado a mostrar ao mundo — por meio de suas imagens — o que estava acontecendo em sua cidade. Ele queria concentrar a narrativa na tragédia, em vez do jogo de empurra e dos ataques políticos que a maior parte da mídia local estava reproduzindo, acrescentou.
“Cheguei sabendo especificamente que tentaria ajudar a trazer a verdade à tona — mudar um pouco o discurso para onde realmente importava”, disse ele. “Para aquilo que tínhamos bem diante de nós: uma tragédia.”
Arcos se juntou a dezenas de colegas logo cedo para acompanhar as famílias e os vizinhos de Las Malvinas — primeiro nas casas das vítimas e, depois, no cemitério — durante funerais que se transformaram em uma enorme reunião marcada pela tragédia e por clamores por justiça.
As multidões dentro e fora das casas dos meninos dificultavam a aproximação dos caixões, disse Arcos. Na casa dos irmãos Arroyo, o fotojornalista conseguiu abrir caminho e subir em um muro inacabado próximo aos caixões. Dali, pôde ver que os caixões estavam envoltos em plástico — uma visão que o fez imaginar em que estado os corpos lá dentro deveriam estar.
“Quando você começa a pensar nas implicações do motivo pelo qual [o caixão] está coberto com plástico, aquela sensação de horror retorna”, disse Arcos. “Eu não via isso desde a pandemia.”
Arcos believes his work helped bring the truth to light in the case of the murdered boys. (Photo: Courtesy Santiago Arcos)
Arcos pensou que deveria fazer uma fotografia que captasse aquilo de perto. Ele se abaixou até o nível do chão, acomodou-se discretamente e cuidadosamente agachado sob um dos cantos do caixão de Ismael — o mais velho dos irmãos — e esperou.
“Acho que fiquei ali por cerca de cinco minutos no total, apenas fotografando”, disse ele. “E bem, quando tirei aquela foto, eu soube que aquela era a foto.”
A imagem — que também foi premiada no POY Latam Awards 2025 — mostra o caixão de Ismael visto de baixo, com a camisa de seu time de futebol sobre ele, enquanto seus companheiros de equipe e treinador choram inconsolavelmente sobre o corpo. Um par de mãos toca o caixão por baixo.
“A fotografia transmite horror por meio de detalhes marcantes e destaca a dimensão da violência e seu impacto emocional”, afirmou o júri do World Press Photo, segundo o anúncio da premiação.
Após o impacto de sua fotografia, Arcos sente que a missão que estabeleceu para si naquela manhã de 1º de janeiro foi cumprida. Não há mais dúvidas, disse ele, de que o mundo tomou conhecimento da tragédia que tirou a vida daqueles quatro meninos, em meio à inação e cumplicidade do governo equatoriano.
“Pareceu uma espécie de reparação — ao menos para a verdade. Eu sei que não é o mesmo para as famílias; para elas, isso não muda nada”, disse Arcos. “A parte mais incrível é que aquela foto agora está nos livros de história. Ninguém jamais poderá removê-la dos vencedores do World Press Photo, e o que aconteceu será conhecido para sempre. Isso agora está gravado em pedra.”
“As coisas estão difíceis agora”
Em fevereiro de 2026, um tribunal de Guayaquil decidiu que 16 soldados eram culpados pelos desaparecimentos forçados dos quatro meninos.
O caso se desenrolou em um contexto de violência marcado pelo estado de emergência decretado meses antes pelo presidente Daniel Noboa, e em meio a denúncias de perfilamento racial e racismo durante operações militares.
Arcos disse que, atualmente, esse clima de violência é quase generalizado no Equador. E isso, acrescentou, também afeta a prática do jornalismo.
A insegurança se soma às condições precárias de trabalho que diversas organizações de defesa do jornalismo vêm denunciando nos últimos anos.
“Recebo constantemente ligações de ex-colegas perguntando se ouvi falar de algum trabalho, porque já não há tanto trabalho quanto antes. Revistas e jornais estão fechando”, disse ele.
Arcos afirmou que a maioria das pautas que grandes veículos de comunicação solicitam a jornalistas independentes como ele diz respeito a temas relacionados à violência, o que coloca profissionais da imprensa em risco constante.
“Muitas vezes, na verdade, eu recuso pautas simplesmente porque não existem garantias de segurança para poder trabalhar em paz”, afirmou.
Atualmente, Arcos combina seu trabalho como fotojornalista com colaborações junto a organizações não governamentais.
A consternação das famílias ao saber que os corpos dos quatro meninos haviam sido encontrados abalou profundamente o fotojornalista, disse ele. (Foto: REUTERS/Santiago Arcos)
Esse artigo foi traduzido com assitência de IA e revisado por Leonardo Coelho
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