No Brasil, o algoritmo está ganhando – e as redações estão se adaptando
Publicado em: No Brasil, o algoritmo está ganhando – e as redações estão se adaptando
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Por
Leonardo Coelho -
9 junho, 2026
Summary
Quase metade dos usuários brasileiros da internet desconfia dos veículos de comunicação, segundo uma nova pesquisa. Os veículos de comunicação estão experimentando grupos no WhatsApp e a construção de comunidades para acompanhar essa tendência.
Hoje em dia, as notícias circulam menos pela primeira página do que pelo chat de Whatsapp da família.
A maioria dos brasileiros obtêm as suas informações através das redes sociais e de aplicações de mensagens, de acordo com uma pesquisa divulgada em abril por três organizações que ajudam a moldar a política da Internet no maior mercado digital da América Latina. E quando se trata de confiança, amigos e familiares parecem ter uma vantagem sobre a imprensa tradicional.
A pesquisa, realizada entre agosto e setembro de 2025, entrevistou mais de 5.000 usuários da Internet com 16 anos ou mais sobre os seus hábitos online, incluindo como acessam e verificam informações, utilizam as redes sociais e identificam desinformação.
Foi realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, pelo Centro de Informações sobre Redes do Brasil e pelo Centro Regional de Estudos sobre o Desenvolvimento da Sociedade da Informação.
Os números pintam um quadro preocupante para as organizações de notícias. Cerca de 72% dos utilizadores afirmaram que acessam as informações diariamente através das redes sociais, enquanto 60% obtêm as suas notícias através de aplicações de mensagens — a esteira transportadora algorítmica de vídeos reencaminhados, notas de voz e sabedoria política não solicitada.
Quase metade, 48%, afirmou não confiar nas informações produzidas por órgãos de comunicação profissionais. Um número menor, 39%, disse não confiar no conteúdo partilhado por amigos e familiares.
A pesquisa aborda a questão da desinformação indo além de questões individuais e ajuda a compreender como a informação se espalha, disse Bernardo Ballardin, analista do Centro Regional de Estudos sobre o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, à LatAm Journalism Review (LJR).
Os dados também confirmam algo que muitos já suspeitavam: os brasileiros mais jovens e mais velhos consomem informação de formas muito diferentes — e os usuários mais velhos parecem mais vulneráveis a serem enganados online. Os entrevistados mais jovens relataram ter-se deparado com deepfakes com maior frequência, os dados mostraram.
“Os indivíduos mais velhos estão menos conscientes da circulação de deepfakes no seu dia-a-dia e podem ter maior dificuldade em identificá-los”, afirmou Ballardin.
Os jornalistas reagiram aos resultados com uma mistura de alarme e aceitação sombria. No Correio Sabiá, o primeiro meio de comunicação brasileiro a distribuir notícias diretamente pelo WhatsApp, o diretor Maurício Ferro disse que a pesquisa apenas quantificou o que muitos na mídia já sentiam: na era dos chats em grupo, o boca a boca reina supremo.
“É muito mais provável que confie num determinado jornal… quando alguém muito próximo de si recomenda essa fonte de informação”, disse Ferro à LJR.
Essa lógica está no cerne da estratégia do Correio Sabiá. O meio transformou a construção de comunidades em algo mais próximo de um modelo de negócio, criando grupos no WhatsApp onde os leitores interagem não só entre si, mas também com os repórteres.
“Esta é uma forma de construir relações muito profundas”, afirmou Ferro.
No veículo de notícias online Nexo, sediado em São Paulo, os editores também priorizam encontrar canais de distribuição que não dependam de redes sociais ou mecanismos de busca, disse o editor-chefe Antônio Mammi.
“O Nexo está muito preocupado com isso”, disse Mammi. “É algo de enorme importância ao qual devemos prestar atenção.”
Mas na CTRL+Z, uma organização sem fins lucrativos focada em desafiar o domínio das plataformas das grandes empresas tecnológicas sobre o fluxo de informação, a estratégia para atender ao público vem acompanhada de uma dose de ceticismo em relação aos canais de comunicação.
A cofundadora Tatiana Dias disse que as organizações de notícias passaram anos a remodelar as suas redações em função das exigências das redes sociais. Reescreveram títulos para algoritmos, redesenharam produtos para métricas de envolvimento e perseguiram audiências em plataformas que, para começar, nunca foram realmente construídas para recompensar o jornalismo.
“Escrevemos para robôs”, disse Dias à LJR. “Nos distanciamos mais e mais das pessoas comuns.”
No entanto, abandonar as redes sociais também não é uma opção — especialmente porque inquéritos como este mostram o quanto essas plataformas moldam agora a forma como as pessoas consomem informação no Brasil.
“Precisamos de estar onde as pessoas estão e comunicar nas línguas e formatos que elas usam”, disse Dias. O objetivo, acrescentou ela: “Hackear o sistema a partir de dentro.”
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