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À medida que a mídia brasileira adota os mercados de previsão, especialistas alertam para a distorção eleitoral

Publicado em: À medida que a mídia brasileira adota os mercados de previsão, especialistas alertam para a distorção eleitoral

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Veículos de comunicação estão citando plataformas de apostas não regulamentadas ao lado de pesquisas baseadas em levantamentos. Críticos dizem que esses mercados são facilmente manipulados e não refletem de forma confiável o sentimento dos eleitores.

Além das pesquisas eleitorais, os consumidores de notícias no Brasil agora precisam se acostumar com uma nova ferramenta controversa usada por jornalistas para monitorar a corrida presidencial em andamento: os mercados de previsão.

Com os mercados de previsão, qualquer pessoa pode apostar no resultado de eventos futuros do mundo real — sejam os resultados de uma partida de futebol, o anúncio público de que vida alienígena existe ou o local do casamento das celebridades Taylor Swift e Travis Kelce. Mas eles também envolvem eventos mais sérios, como o resultado de um ciclo eleitoral.

E essas previsões movimentam muito dinheiro. Segundo análise do Pew Research Center, o volume negociado nessas plataformas subiu de menos de US$ 5 bilhões em setembro de 2025 para cerca de US$ 24 bilhões em abril de 2026.

Agora, até a mídia tradicional — pelo menos nos EUA — começou a formar parcerias com plataformas de mercados de previsão. A CNN, por exemplo, assinou uma parceria com a plataforma Kalshi e exibe suas probabilidades em tempo real nas transmissões.

No Brasil, alguns veículos de comunicação estão usando mercados de previsão como fonte na cobertura da corrida presidencial, colocando-os no mesmo patamar das pesquisas tradicionais de opinião.

Mas nem todos estão entusiasmados. Alguns especialistas estão pedindo cautela e transparência.

“O problema é que isso não são pesquisas”, disse o antropólogo da tecnologia brasileiro David Nemer, professor da Universidade da Virgínia, à LatAm Journalism Review (LJR). “Eles refletem o comportamento de quem está disposto a colocar dinheiro em jogo, e não necessariamente a opinião do eleitorado brasileiro. Além disso, esses mercados podem ser influenciados por grandes apostadores, campanhas coordenadas e até atores interessados em moldar percepções específicas sobre a eleição.”

Globalmente, à medida que surgem mais evidências de uso de informação privilegiada e influenciadores patrocinados por essas empresas parecem estar semeando dúvidas sobre o processo eleitoral, há preocupação genuína sobre como essas plataformas podem ser usadas para fins políticos. Países como Portugal, Alemanha, Austrália, Irlanda e Malta demonstraram preocupação com o crescimento dos mercados de previsão durante suas próprias disputas políticas.

Desde 26 de abril, as plataformas de mercados de previsão estão em um limbo regulatório no Brasil, oficialmente proibidas de oferecer e negociar quaisquer apostas relacionadas a entretenimento, política ou eventos esportivos. Ricardo Morishita, secretário nacional do consumidor do Ministério da Justiça e Segurança Pública, afirmou que plataformas não autorizadas não oferecem garantias mínimas e expõem usuários a altos riscos.

Apesar da decisão, tanto a Kalshi quanto a Polymarket ainda mantêm previsões online ativas sobre a eleição brasileira, destacando a dificuldade de regular empresas que não estão sediadas no país.

Alguns veículos continuaram usando as plataformas de previsão como ponto de interesse. Tanto o Poder360 quanto o Valor Investe explicaram a incerteza jurídica enfrentada pelas empresas no Brasil, mas ainda assim publicaram as atualizações mais recentes da corrida eleitoral com base nos mercados de previsão.

Até jornalistas de televisão conhecidos, como Guga Chacra — que tem 1,5 milhão de seguidores — publicaram sobre o tema no X, usando os resultados da página de apostas da Polymarket sobre a corrida eleitoral brasileira de 2026.

Questionado, Guilherme Alpendre, diretor de operações do Poder360, disse à LJR que adotam uma política editorial aberta em relação ao uso de plataformas de mercado preditivo como fonte jornalística.

“Essas plataformas produzem dados que refletem a percepção coletiva de milhares de pessoas sobre eventos futuros. Essas informações têm valor jornalístico para leitores interessados no cenário político”, disse Alpendre. “O papel do Poder no jornalismo, ao reportar esses dados, é o mesmo de sempre: informar o que existe e o que está sendo dito, deixando a análise e as conclusões para o leitor.”

O que há em uma previsão?

Neale El-Dash — doutor em Estatística pela Universidade de São Paulo — explicou que, apesar de parecerem semelhantes, a natureza das pesquisas e dos mercados de previsão é muito diferente.

“Quem eu acho que vai ganhar é uma coisa. Em quem eu vou votar é outra”, disse ele à LJR. Para El-Dash, fundador do agregador de pesquisas eleitorais PollingData, a questão mais relevante aqui é a amostra.

“Quando realizamos uma pesquisa de opinião pública ou uma pesquisa eleitoral, selecionamos uma amostra, ou seja, um subgrupo da população, e apenas esse subgrupo pode participar da pesquisa. Selecionamos essas pessoas de uma forma que, por assim dizer, permita que representem a população. No caso do mercado de apostas, qualquer pessoa pode entrar lá e fazer quantas apostas quiser, então não há controle”, disse El-Dash.

O estatístico deu o seguinte exemplo para ilustrar a diferença: explicou que, em um mercado de apostas, uma pessoa pode apostar quantas vezes quiser; assim, quem tem mais dinheiro fará mais apostas e exercerá influência ainda maior sobre os resultados.

“Pensando em futebol, é como se fizéssemos uma eleição para determinar qual time é o mais popular e permitíssemos que a mesma pessoa votasse várias vezes. O que aconteceria? O cara que é mais torcedor votaria [no time dele] repetidamente. Então você acaba com uma pesquisa sobre quais times os torcedores mais fanáticos apoiam, e não quais times a população apoia. Isso poderia distorcer completamente o resultado”, disse.

Nemer afirmou que isso está no centro de sua preocupação de que a mídia possa usar esses mercados não como indicador complementar, mas como medida de intenção de voto.

“Ela deixa de apenas refletir expectativas e também passa a moldá-las. Em outras palavras, a aposta se torna uma ferramenta de influência política”, disse ele à LJR.

Implicações éticas para jornalistas

Tudo isso cria uma área cinzenta que é difícil para jornalistas navegarem.

Rogério Christofoletti, professor de ética da Universidade Federal de Santa Catarina, disse à LJR que vê com grande preocupação o uso, pela mídia, dos mercados de previsão como “pesquisas informais”.

“No jornalismo, a regra de ouro deve ser a transparência. As matérias precisam deixar muito claro quando estão lidando com conjuntos de dados derivados de apostas, projeções estatísticas ou pesquisas de opinião pública. Tratar esses dados da mesma forma contribui para enganar o público; manipula o cenário e, assim, afeta a percepção das pessoas sobre a realidade. Isso é uma questão técnica e ética”, disse.

Christofoletti explica que o problema técnico é que esses materiais não são comparáveis, e o problema ético é que isso contribui para a distorção da cobertura jornalística em um período tão sensível quanto o atual.

Fonte: À medida que a mídia brasileira adota os mercados de previsão, especialistas alertam para a distorção eleitoral
Feed: LatAm Journalism Review by the Knight Center
Url: latamjournalismreview.org
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