O jornalismo em quadrinhos no Brasil está se transformando em um balão de fala cada vez maior
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Por
Leonardo Coelho -
2 julho, 2026
Summary
Novas editoras e leitores fiéis estão ajudando o jornalismo em quadrinhos a ganhar espaço no Brasil. E, à medida que a confiança na mídia tradicional diminui, criadores afirmam que esse formato pode criar conexões emocionais que as notícias tradicionais muitas vezes não conseguem.
A jornalista freelancer Cecília Marins conheceu o jornalismo em quadrinhos por um caminho indireto, somente depois de experimentar diferentes trajetórias profissionais na mídia.
Anunciando um torneio de futebol russo aqui, cobrindo a economia para a Forbes Brasil ali. Então, um dia, ela viu uma reportagem de não ficção publicada em formato de quadrinhos que chamou sua atenção.
“Quatro Marias”, de autoria da também formada Helo D’Angelo e Joyce Gomes, era centrada nas experiências de quatro mulheres que fizeram aborto no Brasil.
“Cheguei para ela [D’Angelo] e disse: ‘Olha, eu acabei de ver isso com os meus próprios olhos? Eu realmente quero saber o que é isso e quero aprender’”, contou Marins à LatAm Journalism Review (LJR).
Marins faz parte de uma comunidade crescente de jornalistas de quadrinhos no Brasil — muitos trabalhando como freelancers — que vêm encontrando espaço para suas criações nos veículos de comunicação do país.
Comparada às suas contrapartes na Europa e nos Estados Unidos, a cena brasileira do jornalismo em quadrinhos ainda é modesta em tamanho e alcance. No entanto, há sinais de crescimento desde 2018.
Norberto Liberator é editor da Revista Badaró, a única revista brasileira especializada na publicação de jornalismo em quadrinhos. Lançada em 2019 por estudantes da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, ela recebeu um dos principais prêmios de jornalismo do Brasil: uma menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog.
Para ele, a produção de jornalismo em quadrinhos aumentou muito nos últimos 10 anos, mas ainda precisa superar uma barreira.
“Ainda existe uma forte tendência de isso ser algo que estudantes universitários descobrem durante a graduação, e ainda não chegou ao grande público”, disse à LJR. “Mas acho que tem um enorme potencial para se popularizar justamente porque os quadrinhos são uma mídia que prende a atenção das pessoas.”
E embora o jornalismo em quadrinhos tenha raízes no Brasil que remontam a décadas, foi somente em maio de 2026 que o país realizou seu primeiro simpósio nacional sobre o tema — sediado na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
Entre os participantes estava Mariana Viana, jornalista do Fora do Plástico, um dos poucos sites de notícias que cobrem especificamente quadrinhos no Brasil. Ela disse à LJR que o simpósio evidenciou como a cena nacional de quadrinhos voltados ao jornalismo realmente floresceu nos últimos 15 anos.
“O [Fora do Plástico] existe há quase dez anos. Vimos um crescimento enorme durante a pandemia — o número de editoras aumentou e, embora o número de leitores não tenha crescido tanto, mais pessoas passaram a se interessar por quadrinhos de forma geral. Então esse crescimento também revitalizou nosso mercado a ponto de conseguirmos publicar notícias todos os dias.”
Um campo em expansão, com mais temas e veículos
Augusto Paim, que atua na pesquisa e na produção de jornalismo em quadrinhos desde o início da década de 2010, disse que o mercado evoluiu para algo além de um gênero ou formato, tornando-se uma espécie de campo de atuação.
“E, dentro desse campo, existem inúmeras possibilidades, incluindo novos gêneros para explorar. O mais conhecido é a reportagem em quadrinhos”, disse Paim, autor de “Pequeno manual da reportagem em quadrinhos”, à LJR.
Ele ressaltou que outros formatos podem ser desenvolvidos, como entrevistas, notícias, checagens de fatos, perfis e assim por diante.
A possibilidade de usar o jornalismo em quadrinhos para fazer mais do que apenas reportagens parece ser uma de suas principais forças. Marins, por exemplo, acredita que os quadrinhos podem ser uma excelente maneira de contornar preconceitos.
“As pessoas já não têm muito o hábito de ler textos longos. E têm ainda menos tendência a acreditar nos artigos que leem na internet. Então acho que os quadrinhos são uma forma de usar uma linguagem com a qual as pessoas já estão familiarizadas — uma linguagem que cria uma conexão emocional — e transmitir uma mensagem à qual elas estejam um pouco mais abertas”, afirmou.
Um dos poucos jornalistas de quadrinhos que conseguiu uma posição em tempo integral em um veículo é Pablito Aguiar, que trabalha no site de jornalismo ambiental Sumaúma. Antes disso, porém, ele passou anos se dedicando intensamente a projetos como freelancer.
“Isso me dá mais tranquilidade, sabe, para me concentrar nas histórias, e eles também me dão espaço para criar — espaço para ter tempo de pensar nas reportagens”, contou Aguiar à LJR sobre sua nova experiência. Ele acrescentou que isso mudou sua relação com o ofício, porque agora precisa seguir um rigoroso processo editorial de checagem de fatos, revisão e edição.
“Agora que faço parte da equipe editorial, é um processo que dá mais credibilidade ao que faço e também fortalece os meus desenhos”, disse.
Espaços em crescimento
A jornalista freelancer de quadrinhos Gabriela Güllich atua na área desde 2018 e concentra seu trabalho em direitos humanos e meio ambiente, consolidando-se como colaboradora de veículos como Agência Pública, O Grito! e ((o))eco – jornalismo ambiental.
Ela contou à LJR que os veículos estão cada vez mais receptivos a reportagens ou entrevistas feitas em quadrinhos, e que os editais têm sido mais flexíveis na aceitação de novos formatos.
“No caso da reportagem ‘Liberdade Negada: As vidas de mulheres migrantes depois do cárcere’, que publiquei [ao lado de Nduduzo Siba] na Pública por meio da microbolsa voltada a pautas sobre pessoas egressas do sistema prisional, a proposta foi aceita como parte de uma chamada multimídia para submissões — ou seja, foi publicada ao lado de reportagens em diversos formatos, sem necessariamente precisar se encaixar no molde de um especial em quadrinhos”, disse Güllich.
Embora ela, Marins e Viana concordem que ainda existam muitos desafios para transformar os quadrinhos em sua principal atividade como jornalistas, elas afirmaram que o ambiente tem se tornado mais acolhedor.
Güllich, por exemplo, disse que cada vez mais convenções estão abrindo espaço para palestras e oficinas voltadas ao campo, como a Bienal de Curitiba, o Circuito Amazônico de Quadrinhos e o FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos).
“Nessa troca com o público, fica claro que conseguimos atrair pessoas curiosas dos dois lados”, afirmou. “Sejam leitores apaixonados por quadrinhos, que têm pouco contato com a não ficção e passam a se interessar pelo tema, ou pessoas da área da comunicação que consomem gêneros jornalísticos, mas normalmente não leem quadrinhos e acabam se interessando pelo formato.”
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