Não proibir, mas governar: como esses meios de comunicação tradicionais na América Latina estão regulamentando o uso da IA em suas redações.
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8 julho, 2026
Summary
Três jornais contaram à LJR como implementaram políticas, capacitação e mecanismos de supervisão para integrar a IA como uma ferramenta estratégica.
Há pouco mais de dois anos, os editores do Listín Diario, um dos jornais mais antigos da República Dominicana, começaram a perceber que o estilo de escrita de seus jornalistas estava mudando.
Havia rumores de que alguns haviam começado a usar inteligência artificial (IA) generativa para corrigir suas reportagens, mas ninguém falava abertamente sobre isso.
“Era como aquele segredo que todo mundo conhece dentro da redação”, disse Yadimir Crespo, coordenadora da unidade de investigação do veículo, à LatAm Journalism Review (LJR). “Parecia que as pessoas tinham vergonha de dizer se usavam ou não.”
Em janeiro de 2026, o Listín Diario anunciou aos seus leitores que estava implementando diretrizes para o uso da IA por seus jornalistas. (Foto: Cortesia do Listín Diario)
Na época em que os modelos de IA generativa começavam a ganhar popularidade, Crespo e outros editores sabiam que a chegada dessa tecnologia às redações era inevitável. Mas, em vez de tentar detê-la, decidiram abordá-la de forma estratégica.
Eles realizaram uma pesquisa anônima na redação para saber quem estava usando IA, quais ferramentas utilizavam e para quais finalidades, não para proibi-la, mas para adotá-la com controle, disse Crespo.
A pesquisa revelou que, de fato, grande parte dos funcionários do Listín Diario estava usando alguma forma de IA. A partir desses resultados, e tomando como referência os manuais de uso de IA de veículos internacionais como The New York Times, Financial Times e The Washington Post, o jornal dominicano começou a elaborar suas próprias diretrizes.
Em vez de tentar frear o uso da IA, alguns veículos tradicionais da América Latina estão aprendendo a governá-la. Manuais internos, capacitação e espaços de experimentação fazem parte das estratégias para integrar essas ferramentas às redações sem sacrificar a transparência, o rigor editorial nem a responsabilidade dos jornalistas.
A IA já faz parte do trabalho cotidiano de muitas redações ao redor do mundo. Mas, enquanto seu uso se expande principalmente em tarefas como transcrição, edição e desenvolvimento de produtos, de acordo com um relatório recente do Instituto Reuters, a formalização de normas internas para regulamentá-la ainda é limitada e desigual, segundo dados do Center for News, Technology & Innovation (CNTI).
“Nos veículos tradicionais, que talvez empreguem mais pessoas, mas sejam em menor número, existem mais diretrizes e políticas mais desenvolvidas sobre o tema”, disse à LJR Matías Cervilla, secretário de assuntos profissionais do Sindicato de Prensa de Buenos Aires (SiPreBA), da Argentina.
Cervilla é um dos autores do relatório “Apontamentos para uma regulamentação da Inteligência Artificial nos Meios de Comunicação”, elaborado pelo SiPreBA, pela Federação Argentina dos Trabalhadores da Imprensa e pela Fundação Heinrich Böll, publicado em maio de 2026. O documento revelou que sete em cada dez trabalhadores da imprensa argentina que usam IA no trabalho consideram que seus veículos não possuem políticas claras sobre o uso dessa tecnologia.
Estabelecer limites
O jornal El Espectador, de Bogotá, Colômbia, teve que pedir desculpas públicas aos seus leitores em novembro de 2025, depois que foi descoberto que um estagiário usou IA durante meses para gerar conteúdos, inventar citações e criar fontes inexistentes. O veículo assumiu a responsabilidade por ter permitido que esses conteúdos passassem pelos controles de qualidade e os retirou de seu site.
O caso evidenciou os riscos de não contar com políticas claras, supervisão editorial e protocolos de verificação sobre o uso da IA em uma redação.
Quando o Listín Diario, sediado em Santo Domingo, apresentou em janeiro seu manual de uso de IA, deixou claro que o documento estabelecia “linhas vermelhas” sobre os usos aceitáveis dessas ferramentas. Crespo disse que a principal preocupação dos editores era que seus jornalistas delegassem seu trabalho à IA, em detrimento da qualidade editorial que caracteriza o veículo desde sua fundação, em 1889.
“A regra número um, da qual não abrimos mão de jeito nenhum, é que nenhum artigo pode ser criado totalmente por inteligência artificial”, disse Crespo. “Também que nenhuma ferramenta de IA tome decisões por nós, mas que tudo seja baseado no critério humano.”
“Linhas vermelhas” semelhantes também existem nas políticas do jornal El Comercio, de Lima, Peru, que colocou em prática um manual de cerca de 10 páginas no início de 2026. O documento define a implementação da IA como um trabalho integrado e multidisciplinar, além de estabelecer claramente os princípios de responsabilidade sobre seu uso, disse Lorena Obregón, coordenadora do Media Lab do jornal.
Um exemplo da estratégia de IA do El Comercio é a série de projetos interativos que o veículo criou para as eleições de 2026 no Peru. (Foto: Captura de tela do El Comercio)
“A IA não assina reportagens, não tem critério e, portanto, não vai assumir consequências legais nem éticas”, disse Obregón à LJR. “Os jornalistas devem ser os últimos responsáveis por cada palavra, dado ou imagem publicada. Se a IA cometer um erro, uma alucinação, o protocolo exige correção e transparência pública.”
As políticas do Listín Diario e do El Comercio coincidem ao afirmar que a transparência, na forma de uma identificação clara do conteúdo gerado por IA e de explicações sobre o uso dessa tecnologia em qualquer outro processo, é obrigatória.
“A transparência não prejudica a credibilidade. Pelo contrário: acredito que você ganha mais credibilidade quando consegue explicar como fez algo”, disse Obregón.
A proteção das informações é outro elemento importante nas políticas de uso da IA. O manual do El Comercio estabelece que é proibido alimentar ferramentas de IA com informações confidenciais, sensíveis ou protegidas por propriedade intelectual, disse Obregón.
“Não devemos entregar esse tipo de informação indiscriminadamente para o treinamento de algoritmos de terceiros sem que existam, pelo menos, acordos de benefício mútuo”, disse Obregón.
Sob o mesmo guarda-chuva
O El Comercio também optou por integrar a IA à redação de forma ética e organizada, em vez de restringi-la. Para isso, desenvolveu políticas que inicialmente buscavam prevenir erros e proteger o rigor jornalístico, mas que, seis meses após sua implementação, tornaram-se um modelo de governança integrado ao fluxo de trabalho, disse Obregón.
“Houve uma transição de um marco ético para uma maturidade tecnológica em relação ao uso da IA”, disse Obregón. “Passamos de uma fiscalização rígida, de dizer ‘você não deve usar isso’, para recomendar e criar espaços seguros e formais para testar ferramentas.”
Isso foi possível transformando o Media Lab do El Comercio em uma espécie de “hub” para o uso da IA, disse Obregón. Nesse “hub”, representantes de diferentes áreas do veículo experimentam ferramentas de IA e analisam, com base em critérios jornalísticos, a conveniência de adotá-las nos fluxos de trabalho.
Obregón disse que um exemplo dos resultados dessa estratégia são os projetos interativos que o Media Lab desenvolveu para as eleições presidenciais e legislativas no Peru, publicados entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Esses projetos foram possíveis graças ao uso de agentes de IA e fluxos automatizados.
“Assim poderemos tornar a utilidade da IA verdadeiramente transversal”, disse Obregón. “Para que o uso da IA não fique restrito a iniciativas isoladas, é preciso que tudo seja regido sob um mesmo guarda-chuva.”
Capacitação e diretrizes para trazer segurança
O relatório do SiPreBA revelou que existe uma demanda urgente nas redações da Argentina por capacitação específica sobre o uso de ferramentas de IA. Noventa por cento dos profissionais da imprensa entrevistados responderam que há deficiência na capacitação oferecida por suas empresas de notícias.
Os diretores do El Cronista, jornal de Buenos Aires especializado em economia, finanças e negócios, perceberam que a capacitação em IA faria uma diferença estratégica. Por isso, buscaram entender como seus repórteres e editores estavam usando a IA. A partir daí, começaram a capacitar as equipes editorial, comercial e de análise de dados com consultores externos.
O jornalista Alejandro Di Russo disse que a capacitação é um dos pilares fundamentais para garantir o uso ético da IA na redação do El Cronista. (Foto: Alejandro Di Russo no LinkedIn)
“Acho que o principal desafio na redação diante de um novo conhecimento é saber usá-lo, para quê, como e da maneira correta”, disse Alejandro Di Russo, editor da área Audiences Member do El Cronista. “Isso começou a ser levado em consideração há cerca de dois anos e, no último ano, de forma intensiva, com capacitações, cursos e outras iniciativas.”
Embora o El Cronista não tenha um manual de diretrizes para o uso da IA, existem orientações definidas pela gerência e colocadas em prática pelos líderes de cada equipe, disse Di Russo.
Nessas diretrizes, a capacitação é um dos principais pilares para garantir o uso ético dessa tecnologia, disse Di Russo. A passagem de um uso experimental para um uso mais profissional teve impacto positivo na produtividade e no melhor aproveitamento do tempo, acrescentou.
“Esse tempo é usado para pensar em outras estratégias, pensar melhor nos títulos e produzir mais e melhores reportagens”, disse Di Russo. “Obviamente a quantidade de reportagens aumenta, justamente porque fica muito mais fácil concluí-las.”
Por sua vez, o El Comercio firmou alianças estratégicas com empresas de tecnologia como Perplexity e Google, que incluíram treinamento em suas respectivas ferramentas de IA generativa. A Google News Initiative também ofereceu esse tipo de capacitação para membros de mais de 20 redações, incluindo a do Listín Diario.
Crespo disse que tanto a capacitação quanto o estabelecimento de políticas para o uso ético da IA contribuíram para dar mais segurança aos jornalistas, que em muitos casos sentiam incerteza diante da adoção dessa tecnologia em seu trabalho.
“Eles se sentem mais confiantes por poder ter [o manual] sempre à mão para verificar se realmente estão cumprindo as normas éticas, não apenas com o veículo, mas também com o público a quem devem satisfação”, disse Crespo.
Feed: LatAm Journalism Review by the Knight Center
Url: latamjournalismreview.org