Empresa pública de comunicação do Brasil retira 180 mil páginas de conteúdo do ar antes das eleições
Publicado em: Empresa pública de comunicação do Brasil retira 180 mil páginas de conteúdo do ar antes das eleições
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Por
Leonardo Coelho -
22 julho, 2026
Summary
Autoridades afirmam que estão seguindo orientações judiciais para evitar dar a impressão de favorecer candidatos durante as eleições deste ano. Jornalistas afirmam que a remoção equivale a censura.
Pedro Vilela, repórter da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), recentemente procurou uma entrevista antiga que havia feito no site da empresa pública federal de comunicação para criar um hiperlink para uma reportagem em que estava trabalhando. Mas, para sua surpresa, a página não estava disponível.
“Era uma entrevista que fiz com Ana Maria Gonçalves, a primeira mulher negra a ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL). Quando tentei acessar a matéria que a EBC havia publicado sobre isso para adicionar ao meu artigo, descobri que ela estava fora do ar”, disse Vilela à *LatAm Journalism Review* (LJR).
Vilela e outros colegas rapidamente perceberam que esse não era um caso isolado. A EBC também havia retirado do ar dezenas de milhares de reportagens, podcasts, programas de TV, fotos e outros conteúdos.
A EBC explicou que não se tratava de um erro nem do resultado de um ataque hacker: a empresa estava seguindo as diretrizes eleitorais.
No Brasil, há um período de restrição de três meses antes do primeiro turno das eleições que proíbe agentes públicos e órgãos públicos de praticarem determinadas ações para evitar o benefício a qualquer candidato. Em nota publicada em 4 de julho, a EBC informou que seguiria recomendações recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República em relação a parte do conteúdo da empresa.
Como resultado, mais de 180,000 links foram retirados do ar, ao menos temporariamente, segundo a presidente da EBC, Antônia Pellegrino. A remoção afetou conteúdos que estavam disponíveis nos sites da EBC, em plataformas de redes sociais e na intranet da empresa entre 1º de janeiro de 2023 e 3 de julho de 2026.
Em um artigo recente, Pellegrino classificou as orientações da Justiça Eleitoral como objetivas e acrescentou que existe uma falta generalizada de compreensão sobre como o jornalismo financiado com recursos públicos se enquadra nas diretrizes eleitorais.
“[Por causa disso] a Agência Brasil optou por arquivar seu acervo — não porque os textos já publicados constituam propaganda governamental, mas porque verificar, um a um, mais de 180 mil artigos em busca de menções a autoridades candidatas ou de termos que pudessem ser considerados publicidade é humanamente inviável”, afirmou, acrescentando que a empresa não dispõe de uma forma confiável de realizar esse tipo de verificação detalhada em larga escala.
O artigo de Pellegrino, juntamente com uma petição da EBC solicitando ao TSE segurança jurídica para o trabalho da Agência Brasil durante o período eleitoral, buscou aliviar a pressão política sobre a empresa pública de comunicação.
Pellegrino foi, em certa medida, crítica às orientações federais. Ela explicou que submeter a EBC ao mesmo padrão aplicado, por exemplo, à assessoria de imprensa de um ministério — e sem uma orientação que reconheça as diferentes funções dessas instituições — acaba, na prática, tratando de forma igual duas entidades governamentais que a própria Constituição concebeu como opostas.
“Não cabia à EBC praticar um ato de desobediência civil quando entrou em vigor o período de restrição. No entanto, cabe à empresa afirmar seu papel específico ao solicitar autorização judicial ao TSE para que a Agência Brasil possa restaurar os milhares de artigos que foram ocultados”, afirmou.
Muitos trabalhadores da empresa pública, porém, não se convenceram pelos esforços da EBC e passaram a criticá-la publicamente.
Recusar-se a retirar as matérias do ar “não seria desobediência civil, como diz Pellegrino, porque os veículos públicos sob o guarda-chuva da EBC produzem conteúdo jornalístico”, afirmou o coletivo de trabalhadores Valoriza EBC em nota. “Nem mesmo seria desobediência civil, já que a interpretação atual nunca foi aplicada em nenhuma eleição anterior. É algo sem precedentes.”
Questionada pela LJR por e-mail sobre a decisão, a assessoria de imprensa da EBC respondeu enviando três links que, segundo informou, explicavam as razões da medida e as ações subsequentes. Os três estavam fora do ar..
O episódio é o capítulo mais recente da conturbada relação entre os jornalistas da EBC e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Muitos jornalistas reclamam que a aplicação generalizada das regras eleitorais torna difusa a fronteira entre o jornalismo de interesse público e a comunicação governamental.
Colunistas políticos, como Guilherme Amado, relataram que alguns integrantes de alto escalão do governo Lula estão extremamente preocupados com a possibilidade de que conteúdos da EBC e de outras instituições — como o Arquivo Nacional, responsável pela preservação dos registros históricos do país — sejam “monitorados de perto” pela oposição política, como o Partido Liberal (PL), de Flávio Bolsonaro, apontados como conteúdos que violariam o período de restrição de três meses e utilizados para apresentar representações à Justiça Eleitoral.
“Em mais de 20 anos na empresa, nunca vi algo tão absurdo quanto isso. Essa remoção em massa de conteúdo, sem qualquer critério além da data de publicação, para depois avaliar um a um o que poderia ser considerado ‘sensível’, demonstra a persistente confusão entre um serviço público de comunicação e a comunicação institucional do governo”, disse a jornalista da EBC Akemi Nitahara à LJR.
Em 2023, após Lula retornar ao poder depois dos quatro anos de governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, o então presidente da EBC, Hélio Doyle, afirmou que a prioridade da nova administração era restabelecer a separação entre o jornalismo público e a comunicação governamental.
“Vemos a EBC como o grande instrumento que temos para produzir uma comunicação pública de qualidade, que realmente alcance as pessoas e preste um serviço público. No caso do jornalismo, pretendemos deixar muito claro o que é jornalismo de interesse público e o que é informação governamental”, afirmou.
Entidades representativas dos jornalistas consideraram a recente remoção em massa de conteúdo pela EBC como prova de que esse objetivo ainda não foi alcançado. A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) classificou a remoção como censura e afirmou que ela representa um ataque direto à autonomia da EBC, prometendo adotar medidas judiciais para restaurar o conteúdo.
A ABCPública, organização brasileira sem fins lucrativos que representa trabalhadores da comunicação pública, afirmou que a remoção de conteúdos tem sido uma prática comum há anos em todas as esferas de governo.
O clima entre os jornalistas da EBC agora é de tensão e incerteza diante do período eleitoral deste ano.
“Tudo o que aprendemos a fazer como jornalistas, de repente, deixou de ser válido. Por exemplo, como produzir uma reportagem sobre uma campanha de vacinação sem mencionar o Ministério da Saúde, sem fornecer contexto? É isso que está sendo imposto a nós”, disse Carol Barreto, funcionária da EBC, à LJR.
“Como vai funcionar a cobertura do processo eleitoral? Também não sabemos”, acrescentou. “O risco que enfrentamos é ter uma cobertura muito superficial, que apenas informe as datas e os horários da votação, sem abordar nenhuma das grandes questões nem fazer qualquer análise mais aprofundada, porque tudo pode ser interpretado como propaganda.”
Dados internos recentes da EBC, reunidos por funcionários e compartilhados com a imprensa brasileira, mostraram que a audiência caiu 65% desde que o conteúdo foi retirado do ar.
A ex-ouvidora da EBC Joseti Marques disse à LJR que, embora não considere a recente remoção de conteúdo como censura, ainda assim se trata de um episódio grave e desanimador.
“É o reconhecimento tácito, por parte do governo e da direção da empresa, da falta de importância que ambos atribuem a um bem público, qual seja, o sistema público de comunicação administrado pela EBC, justamente em um momento em que se reconhece cada vez mais a crescente importância da comunicação para promover a consciência crítica na sociedade”, afirmou.
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