In Memoriam José Augusto Ramos (1942-2026) José Augusto Ramos, Professor Catedr…
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José Augusto Ramos, Professor Catedr…
In Memoriam José Augusto Ramos (1942-2026)
José Augusto Ramos, Professor Catedrático Emérito desta Faculdade de Letras, o primeiro a receber essa distinção há mais de uma década, abandonou ontem este mundo. Era, não tenho outra forma de o dizer, uma pessoa singular e um intelectual extraordinário. O seu percurso científico seria suficiente para o provar. Figura maior do biblismo, exegeta vindo de um mundo que já não existe, grande hebraísta, poliglota impenitente, teve um trajecto científico irrepetível de capuchinho quinhentista, que o levou da terra que nunca esqueceu à complexa hermenêutica aprendida em Roma e em Jerusalém, de onde trouxe um cosmopolitismo feito de uma aparente simplicidade com que provavelmente já nascera.
Foi tudo na FLUL: director do Departamento de História, depois Presidente do Conselho Científico da Escola, Director da Área de História e, finalmente, assumindo um salvamento que viria a dar frutos, Director do Centro de História, então a braços com uma profunda crise. Poderá dizer-se que a arquitectura actual da Área a que pertencia lhe deve o impulso (re)fundador, ainda que uma das suas virtudes maiores fosse precisamente nunca perder de vista a floresta a que a árvore pertence. Por isso o acompanhámos todos num momento crucial da FLUL, também ele de crise, essa constitucional, que entre 2007 e 2009, era ele Presidente do CC, fez perigar o seu futuro. A Comunidade FLUL nunca lhe agradecerá o suficiente o papel que então teve.
Na História Antiga assumiu muito mais do que a coordenação científica: tinha a visão de um mundo Mediterrânico articulado, o que lhe permitia superar dicotomias académicas então em uso, entre o Próximo Oriente Pré-Clássico e o mundo helenístico de que Roma é a principal herdeira e difusora. Em lugar dessa oposição via JAR uma complexa estratigrafia intercomunicante de base sempre oriental, intuição que lhe vinha da demorada observação dos textos e das palavras dentro dele, numa arqueologia sem objectos mas muitos discursos que lhe restituía o passado com tanta eficácia quanto os estudos de campo ou a abordagem artística e artefactual. Num mundo (e numa academia) crescentemente iconódulo, valerá seguramente a pena guardar a tradição iconoclasta que a sua práctica científica representa. Esse mesmo método era servido por uma prodigiosa capacidade de manter o rumo no interior da aparente divagação, lugar de uma livre associação de ideias sem fim, na qual tantas vezes participei, a dois e a três. Dos paralelos com a práctica analítica tinha de resto consciência plena (o seu primeiro texto, hoje perdido, intitulando-se precisamente psicanálise e confissão).
Permitirão, por isso, que termine com uma(s) nota(s) pessoais. Conheci-o em 1985 num curso intensivo de Acádico, ambos estudantes, ainda que ele já um professor assistente. Ele, claro, foi o melhor aluno da turma. Mais tarde, com o Professor Luís Filipe Barreto, fui seu vice no Departamento de História e depois no Centro de História onde lhe sucedi na direcção. De uma forma ou de outra todos trabalhámos com ele na FLUL desses anos. No círculo mais próximo comecei, nesse tempo, a chamar-lhe Ábba, pai, no aramaico que lhe era familiar. Ele deixava, com a bonomia sorridente, mas feita de exigência severa, que sempre teve. Todos, os que com ele convivemos e os que lhe sucedemos na presidência do Conselho Científico da FLUL, e das direcções da Área, do Departamento e do Centro de História, continuaremos sempre a chamar-lhe Ábba.
Hermenegildo Fernandes
Director da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
(também representando os Directores da Área de História, José Damião Rodrigues, do Departamento de História, Nuno Simões Rodrigues e do Centro de História, José da Silva Horta)
📷 Sessão de Homenagem a José Augusto Ramos, FLUL, 15 de Maio de 2024.
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