Em algumas regiões do México, os jornalistas vendem suas reportagens — apenas para sobreviver
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29 julho, 2026
Summary
Repórteres que ganham menos do que o salário mínimo em Oaxaca e Veracruz aceitam pagamentos por matérias, obscurecendo a linha divisória entre o jornalismo e a propaganda paga.
Em uma cafeteria no centro de Xalapa, capital de Veracruz, políticos e empresários se reúnem há décadas para tomar o tradicional café com leite bem quente. Nos últimos anos, essa cafeteria também se tornou um ponto de encontro para jornalistas em busca de trabalho.
A jornalista Quetzalli Vázquez tem observado nesse café uma cena que se repete cada vez mais: repórteres que chegam de manhã cedo para esperar por cidadãos que fazem alguma denúncia pública. Em troca de publicá-la em seus meios digitais — principalmente páginas informativas nas redes sociais —, eles cobram uma taxa. Em geral, cobram de 200 a 500 pesos (12 a 29 dólares).
“Os repórteres registram o depoimento, tiram fotos e depois negociam”, disse Vázquez, diretora do portal de notícias local QUE Noticia, à LatAm Journalism Review (LJR). “Eles publicam nas redes sociais e, com isso, já garantem sua [renda do] dia”.
Os baixos salários, somados ao desaparecimento de empregos estáveis e à falta de benefícios, estão levando um setor do jornalismo local nos estados mexicanos de Veracruz e Oaxaca a adotar estratégias de sobrevivência que estão transformando a profissão. Políticos e autoridades locais também pagam por entrevistas ou cobertura em suas coletivas de imprensa.
Jornalistas desses estados concordam que essas dinâmicas respondem mais à necessidade do que a uma convicção. E alertam que estão erodindo as fronteiras entre jornalismo, propaganda e relações públicas, ao mesmo tempo em que levantam novos dilemas éticos para uma profissão abalada pela precariedade.
“Pode ser que, no início, os jornalistas se sintam forçados [a essas práticas], mas isso acaba se tornando uma espécie de hábito, um estilo de vida”, disse ao LJR o jornalista Ángel Cortés, diretor editorial do veículo digital e-consulta Veracruz.
Quando a renda não dá conta
Muitos repórteres em Veracruz trabalham com um salário abaixo do mínimo e sem previdência social, disse Cortés.
O salário mínimo no México(opens in new tab) é de 9.451 pesos por mês (cerca de 542 dólares). Uma estimativa da plataforma de busca de empregos Indeed indica que o salário médio mensal de um jornalista em Veracruz(opens in new tab) é de cerca de 8.788 pesos (cerca de 504 dólares) — embora Vázquez e Cortés concordem que, na realidade, a maioria de seus colegas assalariados ganha entre 4.000 e 6.000 pesos por mês [entre 229 e 344 dólares]. Outra grande parte dos jornalistas trabalha de forma autônoma, recebendo por matéria, acrescentaram.
A jornalista Quetzalli Vázquez afirmou que os salários dos jornalistas em Veracruz são insuficientes para sustentar uma família. (Foto: Cortesia de Quetzalli Vázquez)
“Os salários em Veracruz são péssimos”, disse Vázquez. “Com isso, obviamente, não dá para sustentar a família. Nem mesmo eles próprios conseguem se sustentar.”
Essa situação tem obrigado os jornalistas a trabalhar para vários veículos ao mesmo tempo ou a criar seus próprios veículos digitais, sem possibilidade de ter acesso aos benefícios previstos em lei.
“Esses jornalistas são os que se veem obrigados a cobrar por matéria quando fazem reportagens, porque precisam se sustentar”, disse Cortés, enfatizando que isso acontece principalmente entre jornalistas em áreas rurais de Veracruz. “Isso não significa que não seja um vício do jornalismo”.
Essa situação não é exclusiva de Veracruz. No estado vizinho de Oaxaca, nos últimos cinco anos, o fechamento de veículos de comunicação tradicionais(opens in new tab) agravou a deterioração das condições de trabalho dos profissionais da imprensa. Isso também acelerou o surgimento de meios digitais: entre 60% e 70% dos jornalistas que trabalhavam nos meios tradicionais extintos agora tentam se sustentar com seus próprios portais ou páginas informativas, de acordo com Humberto Cruz, presidente do Fórum Nacional de Jornalistas e Comunicadores – Seção de Oaxaca.
“A imensa maioria dos colegas tem migrado para as plataformas digitais e para o trabalho autônomo”, disse Cruz à LJR.
Os jornalistas que trabalham de forma independente chegam a receber valores mínimos — cerca de 120 pesos (7 dólares) ou menos — por matéria, e muito poucos têm previdência social, disse Cruz. Essa situação se repete na maioria dos municípios do estado, acrescentou.
“É como um apoio simbólico”, disse Cruz.
Assim como em Veracruz, os jornalistas de Oaxaca também têm sido forçados a cobrar para cobrir eventos de autoridades, candidatos ou organizações políticas, disse Cruz.
Sobrevivência, mas a que custo?
Após 15 anos lutando para manter seu portal de notícias Página 3(opens in new tab), em Oaxaca, com colaborações, recursos de organizações e o apoio de seu filho, a renomada jornalista Paulina Ríos tomou uma decisão que por anos havia evitado: aceitou um acordo de publicidade com as autoridades locais.
“Isso me permitiu ter dinheiro para cobrir minhas despesas”, disse Ríos à LJR. “Mesmo que seja muito pouco, pelo menos dá para se sustentar.”
A esse acordo se somaram mais dois, com os quais ela consegue cobrir custos operacionais como o serviço de internet, energia elétrica e a hospedagem do site, disse ela. Em troca, ela publica diariamente materiais sobre ações do governo, principalmente vídeos.
Ríos disse que, até agora, tem conseguido lidar com os compromissos que esses acordos implicam sem comprometer sua linha editorial. No entanto, ela admite que não se sente totalmente à vontade e que a situação a afetou emocionalmente.
“Certa vez, chegaram a me dizer: ‘Ei, Paula, olha, você está me incomodando com essa matéria […]. Vou cancelar o acordo com você’. E eu respondi: ‘Bem, cancele o acordo, tudo bem, mas essa é a verdade, não vou retirar a matéria’”, contou Ríos. “Está ficando cada vez mais difícil permanecer, aguentar e tentar ser independente nessas circunstâncias”.
Manter um portal de notícias fica ainda mais complicado com o surgimento de dezenas de páginas informativas no Facebook, administradas por pessoas que se apresentam como repórteres e participam de coletivas de imprensa ou fazem reportagens nas ruas com seus celulares, disse Cruz.
Menos de 5% dessas páginas de notícias em Oaxaca geram receita por meio das plataformas digitais, além de que, em muito poucos casos, contam com financiamento publicitário da iniciativa privada local, acrescentou Cruz. Portanto, a maioria busca receita por meio de funcionários públicos ou governos.
Isso, acrescentou ele, sem dúvida compromete, em maior ou menor grau, as linhas editoriais e acaba afetando a qualidade da informação no ecossistema de mídia do estado.
“É quase um exercício de cumplicidade”, disse Cruz. “‘Você me dá, eu publico o que você me mandar e cuido de você’”.
Conferencia de prensa #EnVivo del Gobernador Salomón Jara Cruz, informando al pueblo de Oaxaca.https://t.co/3JJLyRauNX#Oaxaca #México @salomonj @jesusromerooax @molotovmx
@rocioss @Eltiotonysoy@ComSoc_GobOax pic.twitter.com/y9DY7R4WkI— El Altavoz de la Izquierda (@elaltavozdelaMX) May 25, 2026
Este artigo foi traduzido com a ajuda de IA e revisado por Leonardo Coelho
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