Cinco perguntas: Por dentro do esforço de uma década de uma redação de nicho para explicar o setor de mineração do Brasil
Publicado em: Cinco perguntas: Por dentro do esforço de uma década de uma redação de nicho para explicar o setor de mineração do Brasil
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Por
Leonardo Coelho -
6 agosto, 2026
Summary
Em uma entrevista à LJR, o fundador do Observatório da Mineração, Maurício Ângelo, explica como a expertise aprofundada, a cobertura de longo prazo e a persistência moldaram a abordagem do veículo para cobrir uma das indústrias mais complexas do Brasil.
Nos últimos anos, os elementos de terras raras e os minerais críticos tornaram-se cada vez mais importantes em todo o mundo. No Brasil, um veículo de notícias de nicho já estava bem posicionado para ajudar a cobrir o tema: Observatório da Mineração
O centro de jornalismo investigativo e pesquisa, que se concentra na mineração e em outras indústrias extrativas, foi fundado em 2015 pelo jornalista Maurício Ângelo após o rompimento da barragem de Mariana matar mais de uma dúzia de pessoas, deixar centenas de pessoas desabrigadas e causar um desastre ambiental ao longo do Rio Doce.
Especializado em cobrir o papel da mineração nas crises climáticas, sua economia e seus impactos, Ângelo e sua equipe também realizam pesquisas e lideram esforços de incidência para informar e fornecer contexto sobre a transição energética do carbono para fontes de energia de baixo carbono ou renováveis — uma transição que garanta salvaguardas sociais e ambientais e respeite os direitos humanos.
A LatAm Journalism Review (LJR) conversou com Ângelo sobre a cobertura da mineração no Brasil, o impacto da indústria no meio ambiente, o público que seu veículo alcançou e por que ele acredita que a consistência é fundamental para a sobrevivência de qualquer organização jornalística.
A entrevista foi editada por questões de extensão e clareza.
- A importância dos elementos de terras raras e dos minerais críticos cresceu ao longo dos últimos 10 anos em termos econômicos, geopolíticos e até de defesa. Você pode explicar como a cobertura do veículo mudou à medida que o interesse pelo tema também cresceu?
Embora a questão certamente tenha crescido em importância, relevância e atenção política e regulatória ao longo da última década, eu diria que foi realmente nos últimos cinco anos que os minerais críticos ganharam verdadeiro impulso no Brasil e ao redor do mundo.
O Observatório da Mineração começou sua cobertura em novembro de 2015. No início, nosso objetivo era investigar o que havia levado ao rompimento da barragem de Mariana, a sequência dos acontecimentos, as consequências do desastre e os esforços para responsabilizar os envolvidos.
Ao longo dos anos, essa cobertura se expandiu para outros temas. Como já éramos especialistas em mineração e no setor extrativo de forma mais ampla, naturalmente identificamos esses desdobramentos por meio da nossa cobertura cotidiana. Gradualmente, fizemos dos minerais críticos um foco recorrente e aprofundado da nossa cobertura.
Eu sempre digo que nosso objetivo não é competir com a grande mídia nem produzir notícias de última hora. Em vez disso, buscamos oferecer uma perspectiva mais profunda, mais detalhada, contextualizada, crítica e analítica, recorrendo à experiência, à especialização, às fontes e ao conhecimento acumulado que construímos ao longo dos anos para destrinchar questões que são altamente complexas, altamente técnicas e enraizadas em uma indústria que é, por si só, extremamente técnica.
Em última análise, estamos tentando explicar essas questões ao público por meio das diferentes áreas em que atuamos: jornalismo, pesquisa, incidência e formação. Esses são nossos quatro principais pilares.
Os elementos de terras raras, em particular, tornaram-se especialmente proeminentes ao longo do último ano, em grande parte por causa dos desdobramentos políticos envolvendo o presidente Trump e outros fatores geopolíticos. Isso nos coloca em uma posição interessante porque, de muitas maneiras, fomos uma das primeiras organizações de notícias a cobrir esses temas em profundidade.
- Gostaria de entender o que despertou seu interesse em criar e desenvolver o Observatório da Mineração. Você pode explicar como isso aconteceu?
Eu venho de uma região que foi afetada pelo rompimento da barragem de Mariana. Sou do norte do Espírito Santo, que foi diretamente impactado. O Rio Doce deságua no Oceano Atlântico na cidade de Linhares.
Linhares faz divisa com São Mateus, uma cidade onde tenho família e onde já morei. A área costeira ao redor de São Mateus abriga muitas comunidades quilombolas, bem como outras comunidades tradicionais ribeirinhas, de pescadores e marisqueiras.
As praias que frequento desde que nasci estavam entre as áreas mais duramente atingidas pelo rompimento da barragem de Mariana.
Na verdade, levou muito tempo para que aquela região fosse oficialmente reconhecida como afetada no processo de compensação e reparação. Em certa medida, muitas dessas áreas — e especialmente as pessoas que vivem nelas — ainda não foram.
Essa conexão pessoal — como alguém que acabou sendo afetado pelo desastre — foi o que me motivou a fundar a organização.
- Como um veículo de notícias tão altamente especializado se sustenta financeiramente?
É complicado. Não vou fingir o contrário, especialmente para os jornalistas que estão lendo isto. É obviamente extremamente difícil, extremamente complicado e muito delicado. Ao longo desses 10 anos, passamos por muita coisa e enfrentamos muitos desafios.
Nosso modelo financeiro não é muito diferente do da maioria dos veículos de notícias independentes e alternativos. Mas, como somos realmente uma publicação de nicho — somos 100% dedicados à mineração — estamos em uma posição bastante incomum.
Isso criou enormes desafios no curto, médio e longo prazo — desafios que continuamos enfrentando hoje. Nós nos sustentamos por meio de financiamentos de apoiadores brasileiros e internacionais, com uma variedade de projetos envolvendo jornalismo investigativo, relatórios técnicos e, ocasionalmente, trabalhos de consultoria.
Também realizamos campanhas de financiamento coletivo. Elas não arrecadam uma grande quantia, mas periodicamente pedimos aos leitores que reconheçam o valor do nosso trabalho e contribuam com o site, diante dos enormes desafios de produzir jornalismo, pesquisa, incidência e capacitação em um campo tão complexo e sensível — um campo em que enfrentamos ameaças, sabotagem e assédio de inúmeras formas. Não vou entrar em detalhes aqui, mas houve muitos.
A mineração se cruza com todas as esferas de poder de maneiras que o público consegue imaginar — e de muitas maneiras que provavelmente não consegue. Isso torna esse trabalho extremamente difícil. Ao longo dos últimos 11 anos, vimos muitos projetos de jornalismo dedicados a diferentes áreas de cobertura surgirem e depois desaparecerem. Não é fácil.
E ainda estamos aqui, apesar das enormes dificuldades. Não vou fingir o contrário. Não tenho uma fórmula mágica. Este não é apenas um problema do Observatório da Mineração. É um desafio enfrentado por todo o ecossistema do jornalismo, pelo setor de mídia, pelo mundo das organizações sem fins lucrativos, pelo movimento ambientalista — por todos os envolvidos nessa cadeia mais ampla de trabalho.
- Justamente por ser uma editoria tão especializada, imagino que muitos jornalistas mais jovens hesitem em sugerir pautas ao Observatório da Mineração. Cobrir mineração exige conhecimento prévio? Como os jornalistas devem pensar sobre pautas envolvendo mineração, minerais críticos, elementos de terras raras e temas relacionados?
A mineração é uma área com uma curva de aprendizado mais íngreme e mais exigente. Leva tempo para alguém aprender, compreender e se tornar capaz de fazer reportagens, escrever, investigar e verificar fatos sobre essas questões.
Naturalmente, construir uma rede de fontes e adquirir conhecimento sobre o setor é mais difícil do que em muitas outras editorias.
Ao mesmo tempo, como [a mineração] se relaciona com tantas questões conexas — e como a cobertura sobre mineração e questões ambientais se expandiu, melhorou e ganhou destaque nos últimos anos — sua importância cresceu. Os rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho, o desastre da Braskem e questões mais amplas de geopolítica, clima e energia contribuíram para tornar esses temas muito mais relevantes.
Isso exige pesquisa aprofundada e muita leitura. Não há atalhos. Embora a IA agora possa ajudar as pessoas a pesquisar de forma mais rápida, eficiente e profunda do que simplesmente recorrer ao Google ou a outras ferramentas de busca, dependendo do nicho que você cobre, ainda é preciso sentar e ler. É preciso conectar os pontos. Você precisa fazer o trabalho intelectual antes — com cuidado, método e reflexão. Com muita frequência, jornalistas freelancers — e jornalistas de modo geral — não fazem isso.
Como gradualmente me tornei um especialista — primeiro por meio do meu trabalho no Observatório da Mineração e depois na academia, que por si só também é outro nicho — converso regularmente com jornalistas, dou entrevistas e ajudo repórteres com ideias de pautas, fontes e recomendações.
O que frequentemente vejo é que muitas pessoas chegam completamente despreparadas. Elas querem fontes, recomendações ou outro tipo de ajuda, ou aparecem para uma entrevista sem terem feito pesquisa suficiente, sem dedicar tempo para refletir sobre o assunto previamente. E isso se aplica a qualquer editoria do jornalismo. Seja qual for o tema que você esteja cobrindo, é preciso voltar ao básico e fazer bem o básico. Só então você poderá se tornar um especialista, seja em mineração, questões ambientais, literatura, cultura, cinema, música, bancos centrais, saúde ou educação.
- Qual você vê como o maior impacto do Observatório da Mineração?
Nós não medimos nosso impacto por visualizações de página, número de seguidores, alcance ou outras métricas brutas. Uma obsessão pelo tamanho da audiência, curtidas e visualizações definitivamente não impulsiona o Observatório da Mineração nem determina nossa cobertura editorial.
Acho que o maior impacto que temos — e que qualquer organização jornalística séria dedicada a temas importantes pode ter — remete ao que mencionei antes: fazer um trabalho de qualidade de forma consistente, todos os dias. Isso não é fácil.
Você consegue produzir um trabalho de alto padrão de forma consistente, seja você um veículo de notícias de nicho, um restaurante, um diretor de cinema ou uma banda? Álbum após álbum, filme após filme, refeição após refeição, pauta após pauta. Você consegue produzir um trabalho de qualidade de forma consistente, com processos sólidos por trás dele? No jornalismo, você consegue produzir uma cobertura que ninguém mais está fazendo — ou que ninguém mais está fazendo exatamente da mesma maneira? Essa é a parte mais difícil. E isso é um impacto enorme.
É claro que, além desse trabalho do dia a dia, também produzimos ocasionalmente investigações exclusivas, reportagens aprofundadas e projetos especiais. Algumas de nossas reportagens motivaram investigações por parte do Ministério Público, do Judiciário e das defensorias públicas, levando a mudanças concretas no mundo real.
Isso é maravilhoso. É gratificante. Empolga jornalistas, financiadores e leitores igualmente porque oferece uma história clara para contar sobre o valor do seu trabalho. Mas isso não é o jornalismo do dia a dia. Não acontece todos os dias, todas as semanas ou todos os meses.
O que é muito mais importante é manter essa consistência — ter clareza de propósito e dedicação, e até aceitar que os números da sua audiência possam ser modestos. Jornalistas, financiadores e todos os envolvidos nos ecossistemas que cobrimos — e no jornalismo de forma mais ampla — não podem julgar o sucesso apenas pelas visualizações de página. Essa é uma maneira intelectualmente, praticamente e até espiritualmente empobrecida de enxergar as coisas.
É claro que é importante alcançar o maior número possível de pessoas. Todo mundo quer que seu trabalho tenha um público amplo. Mas acho que a conversa precisa ser mais profunda, mais madura e mais cheia de nuances do que isso.
Quer o Observatório da Mineração dure mais 10 anos ou feche amanhã, terei um orgulho imenso do que realizamos ao longo dos últimos 11 anos: produzir de forma consistente um trabalho de alta qualidade em uma área extraordinariamente difícil, apesar de incontáveis horas de dedicação e de repetidos episódios de assédio, sabotagem e ameaças. Sem dúvida, contribuímos para uma discussão pública mais madura durante o que foi uma década decisiva e histórica para a mineração, o extrativismo, a economia política, a geopolítica e o debate climático no Brasil — temas cujas consequências continuarão a moldar a década que estamos vivendo agora e os anos que virão.
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