As fotos que contaram a história da democracia do Brasil em risco
Publicado em: As fotos que contaram a história da democracia do Brasil em risco
-
Por
Leonardo Coelho -
24 agosto, 2026
Summary
Em um ensaio premiado, a fotógrafa Gabriela Biló documentou o esforço para reverter uma eleição — e as instituições que, em última instância, defenderam a democracia do Brasil.
Gabriela Biló, 37, fotojornalista do jornal brasileiro Folha de S.Paulo, estava tirando fotos havia menos de uma hora em 8 de janeiro de 2023, em Brasília, quando milhares de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram e depredaram os prédios que abrigam o Congresso Nacional, os escritórios presidenciais e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Foi um momento caótico, perigoso e relativamente curto, mas, para Biló, tornou-se o início de um projeto visual que acompanhou os três anos desde a tentativa de golpe de Estado até o julgamento que acabou condenando Bolsonaro a 27 anos de prisão. O ensaio fotográfico, intitulado “Como Sobrevivem as Democracias” (“How Democracies Survive” em inglês),” recentemente rendeu a Biló um Prêmio Gabo, um dos mais prestigiados prêmios do jornalismo latino-americano.
“Ganhei o prêmio World Press Photo por uma foto que tirei no 8 de janeiro, mas esta aqui é bem diferente, porque trata de um julgamento — das consequências daquele evento”, disse Gabriela Biló à LatAm Journalism Review (LJR), acrescentando que, embora ambas abordem temas políticos, esta é muito mais árida.
“Há pouca ação nas fotos; trata-se mais de ação democrática, ação institucional. E nos meus outros ensaios fotográficos, temos muitas fotos marcantes, mas, neste, acho que o próprio tema é mais impactante.”
O júri do Prêmio Gabo afirmou em um comunicado que o trabalho de Biló conseguiu tornar tangível para o público um conceito abstrato como a democracia.
“Gabriela Biló tece uma narrativa completa e complexa sobre o julgamento de Bolsonaro e a defesa dos direitos humanos em um momento em que a democracia está sob ameaça,” disse um dos jurados.
Em um painel recente na Conferência Abraji 2026, Biló falou sobre os desafios de contar em imagens a história de como a democracia brasileira sobreviveu.
Biló começou sua carreira no fotojornalismo cobrindo notícias do dia a dia em São Paulo para pequenas agências de fotografia. Depois de fotografar os históricos protestos nacionais sobre custo de vida, corrupção e gastos públicos em 2013, descobriu uma paixão pelo jornalismo político. Sua primeira missão em Brasília, cobrindo o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016, reforçou seu interesse em documentar como as decisões políticas moldam as questões sociais.
Biló agora mora em Brasília e construiu um portfólio de outros projetos premiados de fotojornalismo político.
“Como Sobrevivem as Democracias” reúne 10 fotografias em preto e branco que retratam intimamente o que aconteceu durante o golpe fracassado e suas consequências. Sua primeira foto mostra um Bolsonaro isolado atrás de uma janela no Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente do Brasil, em 2022.
O presidente Jair Bolsonaro (PL) em uma coletiva de imprensa no Palácio do Planalto – Gabriela Biló – 10 de outubro de 2022/FolhaPress
“Nesta foto [Bolsonaro] havia perdido o primeiro turno [eleitoral] por uma margem um pouco maior do que sua campanha esperava, e começou a realizar reuniões. Ele estava recluso ali. Passávamos o dia inteiro esperando lá embaixo naquele piso, assando no calor de Brasília, sob o sol, e então ele aparecia, dizia algumas palavras e ia embora”, disse Biló durante um painel na Conferência Abraji 2026, em São Paulo.
Naquela época, ela se lembrou, a atmosfera era tensa e fria.
“Mais tarde descobrimos que foi precisamente durante aquele período que os detalhes finais do golpe estavam sendo redigidos nessas reuniões, então dava para ver que havia algo que ainda não era exatamente tangível,” disse Biló.
A tensão finalmente explodiu em 8 de janeiro de 2023. Naquele dia em campo, ela disse, não estava realmente procurando os ângulos perfeitos — estava apenas tentando se misturar.
“Muita coisa estava acontecendo ao meu redor que eu não fotografei. No máximo eu me virava e tirava algumas fotos porque naquele dia era muito perigoso — muitos fotojornalistas foram agredidos, e seus equipamentos foram roubados,” lembrou Biló durante seu painel.
Apoiadores de Bolsonaro atacam o Palácio do Planalto, em Brasília – Gabriela Biló, 8 de janeiro de 2023/Folhapress
Naquele dia, pelo menos 16 jornalistas foram atacados e ameaçados] enquanto cobriam a tentativa de golpe de Estado. Nos meses que se seguiram às eleições presidenciais de 2022,, muitos dos apoiadores de Bolsonaro protestaram porque se recusavam a aceitar sua derrota.
A própria imprensa também se tornou parte do ensaio fotográfico de Biló. A quinta foto mostra jornalistas em julho de 2025 tentando obter declarações do advogado de defesa de Jair Bolsonaro, Celso Vilardi, após uma extensa investigação sobre o papel do ex-presidente na articulação do golpe.
A presença de jornalistas ocupando o pátio do Supremo Tribunal Federal (STF) serviu como um testemunho visual do papel da imprensa em uma democracia, escreveu Biló nas legendas que acompanham cada foto.
Para Biló, a cena contrasta fortemente com a atmosfera para os jornalistas durante o mandato do ex-presidente, no qual intimidação, assédio e campanhas de difamação eram orquestrados nos mais altos níveis do governo. “Isso é, de certa forma, uma homenagem à imprensa, porque também devemos lembrar que um ataque a um jornalista é um ataque à democracia, e um dos indicadores que usamos para medir a saúde da democracia de um país é o quanto esses jornalistas estão em risco, quantos jornalistas são ameaçados, quantos jornalistas morrem e quantas pessoas abandonam o jornalismo por causa do perigo”, disse Biló.
Ao final das sessões e durante os intervalos, os advogados [de Bolsonaro] saíam pelo térreo do STF, onde eram abordados pelos jornalistas – Gabriela Biló, em 2.set.2025/Folhapress
Para Biló, a cena contrasta fortemente com a atmosfera para os jornalistas durante o mandato do ex-presidente, no qual intimidação, assédio e campanhas de difamação eram orquestrados nos mais altos níveis do governo. “Isso é, de certa forma, uma homenagem à imprensa, porque também devemos lembrar que um ataque a um jornalista é um ataque à democracia, e um dos indicadores que usamos para medir a saúde da democracia de um país é o quanto esses jornalistas estão em risco, quantos jornalistas são ameaçados, quantos jornalistas morrem e quantas pessoas abandonam o jornalismo por causa do perigo”, disse Biló.
A democracia é um conceito difícil de ilustrar, mas Biló fez isso começando por identificar os alvos do golpe, que incluíam o sistema de votação, o STF, o Congresso Nacional e seus rivais políticos.
“Para mim, era uma questão de entender quais pilares são alvos quando uma democracia está sob ataque,” disse Biló ao LJR “A partir daí, retratei esses pilares e consegui representar o conceito de democracia. E chegar a essa conclusão não foi tão complicado porque era algo que eu estava vivendo, eu estava vendo, eu estava testemunhando — então foi quase natural porque estava acontecendo bem diante dos meus olhos, e eu simplesmente retratei o que estava vendo.”
Segundo Manuel Ortiz Escamez, um dos jurados do Prêmio Gabo, apesar dos “retrocessos democráticos que ocorreram ao redor do mundo, o Brasil se levantou em defesa da democracia” em um período no qual autoridades do governo dos EUA têm se intrometido nas eleições em toda a América Latina.
Questionada se esse ensaio poderia servir como parte de uma história ainda maior, Biló disse à LJR que espera que mais capítulos possam surgir.
“Como aprendemos muito bem, a democracia não é algo garantido. É um esforço constante para protegê-la e defendê-la. Não acho que seja algo que possa algum dia ser considerado concluído. Nunca, jamais — não por mim, não por qualquer outra pessoa e não pelas futuras gerações,” disse Biló. “Para mim, só terminaria se eu morresse, mas para a história da política mundial — da política brasileira em particular — acho que é algo sobre o qual temos que permanecer sempre vigilantes.”
Feed: LatAm Journalism Review by the Knight Center
Url: latamjournalismreview.org