Pela primeira vez, Honduras leva um alto comandante militar a julgamento por ataques à imprensa
Publicado em: Pela primeira vez, Honduras leva um alto comandante militar a julgamento por ataques à imprensa
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Por
Silvia Higuera -
9 setembro, 2026
Summary
Caso representa um desafio incomum para um alto comandante militar e surge após jornalistas terem pressionado autoridades.
Um caso inédito contra um ex-comandante militar em Honduras, que chamou um grupo de jornalistas de “assassinos da verdade”, pode abrir um precedente para a liberdade de imprensa no país.
Em 1º de setembro, uma juíza determinou que havia provas suficientes para dar andamento a uma audiência preliminar que poderia levar a um julgamento público contra o ex-chefe das Forças Armadas de Honduras, Roosevelt Hernández, por acusações relacionadas a ataques contra a imprensa.
A audiência foi marcada para 14 de setembro. Hernández recorreu da decisão, argumentando que o tribunal excluiu indevidamente documentos apresentados por sua defesa.
Organizações de liberdade de imprensa e direitos humanos em Honduras consideram que o caso é significativo porque é a primeira vez que um comandante militar do posto de Hernández enfrenta um processo criminal relacionado à liberdade de expressão. Hernández também atuou como secretário de Defesa durante o governo da ex-presidente Xiomara Castro, cujo mandato terminou em janeiro de 2026.
“É um caso emblemático e histórico”, disse à LatAm Journalism Review (LJR) Dina Meza, diretora da Associação pela Democracia e pelos Direitos Humanos (Asopodehu), que tem acompanhado os jornalistas que deram início à denúncia contra Hernández.
Meza disse que o processo é resultado da pressão exercida por jornalistas e organizações de direitos humanos para que os promotores levassem adiante o caso.
Eleições perigosas para o jornalismo
A polêmica remonta à campanha eleitoral em que Nasry Asfura foi eleito presidente, tendo assumido o cargo em 27 de janeiro de 2026.
Em novembro de 2024, o Auditor Jurídico Militar das Forças Armadas apresentou uma denúncia ao Ministério Público para abrir processos contra 12 meios de comunicação por supostos crimes de calúnia e difamação.
O dia 9 de março de 2025, durante as eleições primárias, marcou um aumento da hostilidade contra a imprensa, disse à LJR Thelma Mejía, jornalista hondurenha e membro da diretoria da Rede Centro-Americana de Jornalistas (RCP). Naquele dia, 72% das seções eleitorais foram afetadas pelo atraso no material eleitoral. As malas com esse material estavam sob custódia das Forças Armadas.
A imprensa solicitou esclarecimentos sobre o assunto e chegou a pedir ao Ministério Público que investigasse. Isso teria causado o descontentamento de Hernández, disse Mejía.
Primeira página do “FF.AA. Digital,” o jornal oficial das Forças Armadas, em 26 de maio de 2025, com a manchete “assassinos da verdade.” (Captura de tela)
Em 26 de maio de 2025, na capa e nas páginas internas do jornal oficial das Forças Armadas, “FF.AA. Digital”, foram publicadas acusações contra os jornalistas Dagoberto Rodríguez, Rodrigo Wong Arévalo e Juan Carlos Sierra sob o título “assassinos da verdade”. Na revista, eles foram acusados de divulgar informações falsas, o que, para os jornalistas, constituiu um ato de estigmatização, incitação ao ódio e difamação. Essas mesmas acusações foram feitas nas redes sociais, de acordo com a petição do Ministério Público — documento no qual a Promotoria Especial para a Proteção de Jornalistas, Comunicadores Sociais, Defensores dos Direitos Humanos e Operadores da Justiça detalha os crimes dos quais acusa Hernández.
A promotoria também incluiu a declaração feita pelo general em um evento público, no qual acusou o jornalista José Adán López de ser um suposto membro do crime organizado, bem como o aparecimento de faixas em vários pontos de Tegucigalpa com fotografias de jornalistas e a legenda “Assassinos da verdade, armas de desinformação em massa, não querem que haja eleições”. Os responsáveis se identificaram como Movimento Popular Hondurenho e não indicaram qualquer ligação com as Forças Armadas.
O documento de acusação do Ministério Público apresenta uma análise que indica que a linha editorial da revista das Forças Armadas mudou com a chegada de Hernández, assim como os discursos públicos.
De acordo com a acusação do Ministério Público, Hernández responde por acusações de incitação à discriminação e de violação de direitos fundamentais, incluindo a liberdade de imprensa e de expressão.
Oportunidade para fortalecer o jornalismo
De acordo com um relatório recente da C-Libre, as agressões contra a imprensa e defensores aumentaram 19,6% no contexto eleitoral do país. Segundo o relatório, o principal agressor foi o aparato estatal: 22,8% das agressões vieram de funcionários do governo da ex-presidente Xiomara Castro, 49% das Forças Armadas e 17% da Polícia Nacional.
A Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) detalhou em seu relatório anual de 2025 as ações das Forças Armadas, incluindo aquelas descritas na denúncia do Ministério Público.
“Em um contexto de deterioração progressiva do debate público e da liberdade de expressão em Honduras, este Escritório também manifesta sua preocupação com os inúmeros relatos de estigmatização e intimidação dirigidos contra a imprensa por membros das Forças Armadas”, escreveu a RELE em seu relatório. “Essas ações se manifestam tanto em discursos públicos proferidos por seus altos comandantes quanto na instauração e na ameaça de processos criminais, que parecem ter como objetivo intimidar e silenciar jornalistas que investigam as ações dessa instituição”.
O julgamento contra Hernández pelos ataques das Forças Armadas à imprensa hondurenha não teria sido possível sem uma longa luta por parte das organizações Asopodehu e Jovens Promotores e Defensores dos Direitos Humanos (Joprodeh), disse Meza.
Essas organizações pressionaram o Ministério Público durante três semanas para que divulgassem o documento da investigação.
“Tivemos que exercer pressão constante e forte por três semanas antes que emitissem a acusação. Com nossas investigações, descobrimos que eles haviam arquivado a acusação, apesar de já estar pronta, e denunciamos possíveis acordos obscuros feitos às escondidas. Assim, pressionamos com repetidas aparições públicas”, disse Meza.
Javier Acevedo, diretor do Centro de Investigação e Promoção dos Direitos Humanos (Ciprodeh), disse que o momento em que o caso foi apresentado poderia gerar dúvidas de que o julgamento tenha motivações políticas. Os promotores apresentaram o caso em novembro de 2025, pouco antes de Asfura assumir o cargo, cuja vitória na eleição presidencial também marcou uma mudança no partido político no poder em Honduras.
Mas Acevedo também disse acreditar que o processo contra Hernández é um “marco” para aqueles que atacam a imprensa e, de modo geral, quando algum crime é cometido.
“Pode servir como precedente jurídico e jurisprudência sobre o que fazer em relação a algumas ações que possam significar coação ou restrição à liberdade de expressão”, disse Acevedo.
Acevedo considera positivo que o caso possa servir como referência na hora de apresentar denúncias semelhantes e exigir que se siga a mesma linha de investigação. Ele disse que isso também ajudaria os jornalistas vítimas de outros crimes a continuarem pressionando para obter justiça. “Já que temos muita impunidade nos casos contra jornalistas”, disse ele.
Para Mejía, será também uma medida para conter possíveis confrontos com o novo governo do presidente Asfura.
“Acreditamos que, neste governo, provavelmente não haverá um confronto com a mídia tão forte quanto no passado”, disse Mejía. “Mas isso não significa que não vá ocorrer; creio apenas que eles serão mais estratégicos e mais inteligentes quanto às formas como tentarão controlar a opinião pública.”
Traduzido com assistência de IA e revisado por Leonardo Coelho
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