O Brasil é complicado. Esse veículo oferece explicações
Publicado em: O Brasil é complicado. Esse veículo oferece explicações
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Por
Leonardo Coelho -
9 setembro, 2026
Summary
Às vésperas da eleição presidencial deste ano, o cofundador do The Brazilian Report, Gustavo Ribeiro, conversa com a LJR sobre como ajudar o público estrangeiro a entender o país para além das manchetes.
Há uma frase famosa atribuída ao compositor de bossa nova Tom Jobim — “O Brasil não é para principiantes” — que perdurou e se aplica particularmente bem à política do país. Nesta temporada de campanha presidencial, pelo menos dois ministros do Supremo Tribunal Federal se envolveram no que está se tornando um dos maiores escândalos de corrupção da história do país, tensionando ainda mais a relação cada vez mais contenciosa do Brasil com os Estados Unidos.
E os jornalistas brasileiros precisam acompanhar o ciclo incessante de notícias. Para aqueles que fazem reportagens para públicos no exterior, no entanto, eles também precisam sintetizar, fornecer contexto e explicar para seus leitores.
Esse é um dos papéis do The Brazilian Report (TBR), um veículo brasileiro voltado especificamente para públicos estrangeiros. Gustavo Ribeiro, fundador do veículo e jornalista, disse que, quando começou a desenvolver a ideia para a publicação, ele e a CEO e cofundadora Laura Quirin sentiam que o Brasil era retratado de forma desproporcional por sites de notícias internacionais como exótico e caótico, com análises vindas de correspondentes estrangeiros, empresas de consultoria e think tanks estrangeiros.
O objetivo do TBR, disse Ribeiro, não era apenas traduzir o Brasil para públicos estrangeiros, mas também ajudar o Brasil a falar por si mesmo.
A LatAm Journalism Review (LJR) conversou com Ribeiro sobre a eleição, as crescentes tensões entre Brasil e EUA, e a manutenção de uma identidade brasileira enquanto atende a um público internacional. A entrevista foi editada para fins de extensão e clareza.
1 – O Brasil está passando por uma eleição altamente polarizada, com as tensões geopolíticas com os Estados Unidos desempenhando um papel. Como tem sido o processo de cobertura para você e seus colegas?
Numa eleição polarizada, o volume de barulho é enorme: declaração, resposta, réplica, tudo vira manchete. O nosso trabalho é justamente o oposto: separar o que é ruído do que de fato mexe com mercado, com decisões de investimento, com a posição do Brasil no tabuleiro geopolítico.
Procuramos sair do declaratório. Em vez de repetir o que fulano disse, tentamos explicar por que ele disse aquilo, o que cada ator quer, quais são as motivações por trás dos movimentos. Isso vale muito mais do que a frase do dia.
2 – Qual o equilíbrio que você, enquanto jornalista brasileiro, tem que ter pra noticiar, explicar e contextualizar o Brasil para estrangeiros, retirando o supérfluo sem perder a nossa identidade brasileira?
O primeiro passo é realmente conhecer o público: quem está lendo, o que essa pessoa já sabe e o que precisa para tomar decisões. Mas o equilíbrio está em não entregar apenas o que eles querem, mas o que precisam entender sobre o Brasil. Às vezes, isso significa passar três parágrafos explicando por que o Centrão funciona da maneira que funciona, porque, sem isso, nada do restante faz sentido.
O que removemos é o redundante, não o caráter brasileiro. E preciso dizer que o fato de nossa CEO, Laura Quirin, ser franco-brasileira e não jornalista ajuda muito. Ela é nossa estrangeira residente. Ela lê tudo pela perspectiva de alguém que não nasceu dentro do jogo e faz as perguntas óbvias que nós, como brasileiros, já não enxergamos. Isso ajuda a corrigir muitos dos nossos pontos cegos.
3 – O Brazilian Report passou de um site de notícias tradicional para um veículo fechado e focado em newsletters. O que levou a essa decisão e quais foram suas principais consequências financeiras e editoriais?
Houve alguns fatores. O primeiro foi o comportamento do nosso próprio público. Sempre tivemos produtos pagos, e as newsletters estavam incluídas no plano mais caro.
O que percebemos foi que os assinantes queriam receber o conteúdo, não ir ao site para procurá-lo. O produto que as pessoas mais valorizavam já era a newsletter. O segundo fator foi estratégico: não queríamos depender tanto dos algoritmos das redes sociais, que podem mudar as regras do jogo sem aviso. Uma base de dados de e-mails pertence a nós, ninguém pode tirá-la.
Financeiramente, a aposta deu certo: aumentamos a receita de assinaturas em 21% este ano. Editorialmente, ganhamos foco. Hoje, temos uma newsletter política todas as manhãs e verticais específicas por tema à tarde, cada uma voltada para um leitor claramente definido.
4 – Há alguns meses, o TBR e outra empresa desenvolveram o projeto “Debating Brazil”, no qual candidatos à Presidência foram convidados a falar. Em um evento, o senador Flávio Bolsonaro, que é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e está concorrendo à Presidência, repetiu alegações falsas sobre o sistema de votação eletrônica do Brasil. Que papel o jornalismo desempenha na criação desse tipo de espaço, e qual você considera ser a responsabilidade do jornalismo ao corrigir quaisquer falsidades durante um debate?
Criamos o Debating Brazil a partir da convicção de que o Brasil negligencia demais a política externa durante as campanhas eleitorais e, em um mundo como o de hoje, isso não pode mais ser assim. Por isso, organizamos uma série em torno da eleição presidencial que reuniu o presidente do Tribunal Superior Eleitoral e os candidatos para falar diretamente com embaixadores de países parceiros. Mais de 70 embaixadas já participaram dos eventos. Isso é jornalismo criando um espaço para o debate que antes não existia.
O episódio envolvendo Flávio Bolsonaro foi complicado. O evento não pretendia ser um debate ou uma sabatina. O formato foi concebido para dar aos candidatos a oportunidade de apresentar sua visão do Brasil aos embaixadores, e nós não controlamos qual é essa visão. Demos espaço a eles independentemente de concordarmos ou não com o que disseram, porque, caso contrário, o evento se torna uma curadoria ideológica e perde seu sentido.
Não cabia a mim interromper um candidato no meio de seu discurso para fazer uma checagem de fatos ao vivo. Para o bem ou para o mal, Flávio mostrou aos diplomatas exatamente quem ele é, e eles são adultos com bons assessores. Mas nosso trabalho jornalístico não terminou quando o evento acabou. Escrevemos sobre isso para nossos assinantes, e foi então que fizemos toda a checagem de fatos necessária e apontamos o que era falso.
5 – O TBR tem uma forte divisão de inteligência e consultoria voltada especificamente para clientes estrangeiros, incluindo empresários e jornalistas. Como jornalista e fundador do The Report, como você concilia o jornalismo com esse tipo de trabalho de consultoria?
O trabalho de inteligência que fazemos é, essencialmente, jornalístico — reportagem, contexto e análise — mas especificamente adaptado às necessidades de um cliente individual. Um fundo pode querer entender os riscos fiscais do próximo governo. Uma embaixada pode querer saber quem realmente dá as cartas em um ministério.
Usamos as mesmas ferramentas que usamos na redação. O que nunca fazemos é lobby. Não representamos os interesses de um cliente perante ninguém, não defendemos a agenda de ninguém nem misturamos os dois lados: o que um cliente pede não se torna uma matéria, e o que publicamos não é encomendado.
E já recusamos pedidos de empresas cujos valores não estavam alinhados com os nossos ou cujo envolvimento teria criado um conflito de interesses.
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