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O que a eleição Brasileira significa para a Amazônia

Publicado em: O que a eleição Brasileira significa para a Amazônia

Summary

Em meio aos escândalos e polarização, o meio-ambiente foi escanteado na eleição brasileira. O diretor executivo do InfoAmazonia avalia o que os resultados trazem para o ecossistema, para a região e para o jornalismo ambiental

A eleição no Brasil terminou. O presidente incumbente, Luiz Inácio Lula da Silva, derrotou seu adversário, Flávio Bolsonaro, em uma virada surpreendente após um período eleitoral de vários meses caracterizado por polarização, escândalos de corrupção e tensão política nos  âmbitos nacional e internacional.

Em meio a tudo isso, o meio ambiente foi deixado de lado na cobertura eleitoral, mesmo com vozes proeminentes como Marina Silva, atual ministra do Meio Ambiente e Mudança Climática do Brasil, pedindo que a luta contra as mudanças climáticas fosse um tema nacional da eleição, e especialistas alertando que um forte El Niño estará entre os primeiros grandes desafios ambientais do próximo governo.

Para Stefano Wrobleski, diretor executivo da InfoAmazonia, um influente veículo de notícias que combina dados, mapas e reportagens geolocalizadas para contar histórias sobre a maior floresta tropical contínua do planeta, a atenção relativamente pequena que as questões ambientais receberam durante as eleições foi lamentável, considerando como elas se cruzam com a saúde pública, a economia, a segurança pública, a educação, a alimentação e a infraestrutura.

Como muitos outros jornalistas no Brasil, Wrobleski disse que a reeleição de Lula provavelmente significará um ambiente menos hostil para o jornalismo. Mas seu governo ainda terá que ser investigado e responsabilizado por suas políticas ambientais, disse ele. 

A LatAm Journalism Review (LJR) conversou com Wrobleski sobre as eleições nacionais e estaduais, seu impacto no meio ambiente, a natureza interdisciplinar do jornalismo ambiental e a importância de entender a Amazônia não apenas como uma floresta a ser preservada, mas como uma região habitada por milhões de pessoas, com cidades, economias, culturas e desafios concretos de acesso à saúde, educação, saneamento e segurança. 

A entrevista foi editada para fins de extensão e clareza.

1. O que a eleição do candidato Lula significa para a cobertura do meio ambiente? Quais foram os principais desafios de cobertura nos últimos quatro anos e quais são os desafios que emergem com mais quatro anos de Lula?

A reeleição de Lula representa, antes de tudo, a perspectiva de continuarmos trabalhando em um ambiente institucional menos hostil ao jornalismo. Não é que a violência contra jornalistas vá desaparecer, mas é significativa a diferença em relação ao governo Bolsonaro.

Nós mesmos percebemos a importância dessa mudança institucional. Em fevereiro de 2023, durante uma investigação sobre o garimpo ilegal na fronteira entre Brasil e Colômbia, três jornalistas da nossa equipe foram ameaçados por policiais militares do Amazonas, em uma região onde havia denúncias de corrupção e proteção policial a atividades ilegais. Os agentes exigiram que os jornalistas apagassem registros e retiveram equipamentos de armazenamento. Conseguimos acionar o Ministério da Justiça e outras autoridades, mobilizando uma resposta que ajudou a evitar consequências ainda mais graves. Não acho que isso teria sido possível meses antes, ou, ao menos, não com a mesma força.

Mas existe uma diferença entre reduzir a hostilidade do governo federal contra a imprensa e garantir condições seguras para fazer jornalismo em todo o país. Na Amazônia, continuamos enfrentando ameaças do crime organizado, pressões políticas e econômicas, assédio judicial e riscos para nossas fontes. Em 2025, por exemplo, nós tivemos um post do Instagram removido por determinação da Justiça de Rondônia. Ainda neste ano, em uma reportagem conjunta da InfoAmazonia, Repórter Brasil e Agência Pública, mostramos como os colegas do Tapajós de Fato, um veículo local sediado em Santarém, no Pará, deixariam de cobrir as eleições por conta das ameaças que vinham sofrendo. A situação ainda é muito grave.

Para os próximos quatro anos, acredito que o desafio do campo será manter uma cobertura crítica mesmo diante de um governo que apresenta resultados positivos na política ambiental. O desmatamento na Amazônia atingiu o menor valor da história, mas continuam existindo contradições importantes, como a expansão da exploração de petróleo na Margem Equatorial, as pressões por grandes obras de infraestrutura e a atuação de um Congresso resistente às pautas ambientais com o qual Lula terá que negociar para governar.

A diferença é que, em um ambiente que não é hostil à imprensa, temos condições melhores para exercer esse papel e fortalecer a própria democracia, como sempre foi nosso papel.

2. Para além das questões nacionais, há os resultados estaduais. O que os resultados nos estados da Amazônia Legal dizem sobre como vai ser a cobertura de meio ambiente?

Os resultados estaduais mostram que a disputa sobre o futuro da Amazônia está longe de terminar com a eleição presidencial. Em vários estados, foram eleitos governadores que defendem modelos de desenvolvimento fortemente associados à expansão agropecuária, à mineração, à exploração de recursos naturais e a grandes obras de infraestrutura.

As propostas variam, mas existem sinais preocupantes. Em Rondônia, Marcos Rogério (PL) defende ampliar a regularização do garimpo e simplificar o licenciamento ambiental. No Amazonas, Omar Aziz (PSD), que é um aliado de Lula, defendeu a pavimentação da BR-319 e a exploração de potássio em Autazes, um projeto que envolve o território do povo indígena Mura. 

Estes exemplos podem afetar muito a proteção da floresta, num momento em que a Amazônia já está no limite, pode não suportar mais desmatamento e cruzar o ponto de não retorno, definido pelo climatologista Carlos Nobre. Eles mostram que estamos diante de um modelo econômico profundamente enraizado na região, que frequentemente apresenta a preservação ambiental como um obstáculo ao desenvolvimento.

Essa é uma falsa dicotomia. Não existe desenvolvimento duradouro na Amazônia sem conservação ambiental. A destruição da floresta compromete o regime de chuvas, a disponibilidade de água, a produtividade agrícola, a saúde da população e, consequentemente, a própria economia. Podemos até produzir crescimento imediato com atividades predatórias, mas isso não significa construir prosperidade no longo prazo.

Há também um desafio diretamente relacionado às condições de produção jornalística. Onde há concentração dos meios de comunicação, redações economicamente fragilizadas e dependência de interesses políticos e empresariais locais, a capacidade de resistir a pressões diminui muito. Isso pode resultar em autocensura e criar verdadeiras zonas de silêncio informativo, nas quais temas fundamentais deixam de ser investigados. Na verdade, é um problema que já existe há muito tempo.

3. O que significa para a cobertura transnacional da Amazônia o Brasil ser governado por um presidente de esquerda em meio a países de direita? Há receios de paralisação de parcerias transnacionais?

Acho que precisamos tomar cuidado para não reduzir a política ambiental da Amazônia a uma oposição entre esquerda e direita. Ela existe e importa, mas há contradições que atravessam todo o espectro político.

O governo Lula é responsável pelos resultados mais expressivos de combate ao desmatamento na história brasileira. Os dados do Inpe apontam uma redução de 71% na área desmatada na Amazônia em quatro anos. Alcançamos o menor desmatamento da história e, se as políticas atuais forem mantidas, é realista projetar o fim do desmatamento no bioma entre 2028 e 2032. Ao mesmo tempo, Lula é um político desenvolvimentista. Foi durante seus governos que avançaram projetos de grande impacto, como Belo Monte, e é seu governo que defende a exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, cuja perfuração exploratória recebeu licença em 2025.

Em outros países amazônicos, vemos contradições semelhantes. O que precisamos observar, portanto, é o alinhamento dos governos com interesses ligados ao petróleo, à mineração, ao agronegócio e à ocupação territorial e como isso afeta as comunidades amazônicas.

Não vejo, por outro lado, um risco imediato de paralisação das parcerias jornalísticas transnacionais. Essas parcerias são construídas entre profissionais e organizações. E, enquanto houver condições para jornalistas desempenharem suas funções, elas vão continuar acontecendo. 

O que me preocupa mais é o fechamento dos espaços de atuação da sociedade civil. No Peru, uma lei aprovada em 2025 ampliou o controle estatal sobre organizações e veículos financiados internacionalmente, atingindo alguns dos veículos mais reconhecidos por sua capacidade de investigação, como OjoPúblico e Convoca. Na Bolívia, o parlamento discute um projeto que pode trazer censura prévia ao jornalismo. O país e o Equador aprovaram nos últimos anos, ainda, leis que trazem um controle prévio sobre organizações sociais e limitam suas capacidades de financiamento. 

No Brasil, discussões semelhantes acontecem no Congresso Nacional e medidas de limitação ao financiamento de organizações sociais estavam no plano de governo de Flávio Bolsonaro. 

Para o jornalismo independente, isso é uma ameaça importante.

4 – Quais são os desafios que você vê na cobertura do meio ambiente além da política — como o próprio aquecimento global ou a presença do crime organizado e de negócios ilegais?

O primeiro desafio é compreender que meio ambiente não é uma editoria isolada. É uma dimensão que atravessa praticamente todos os assuntos que o jornalismo cobre: saúde, economia, segurança pública, educação, alimentação e infraestrutura. A crise climática torna essa relação ainda mais evidente.

Durante muito tempo, a cobertura se concentrou em desmatamento, conservação e, mais recentemente, em metas de redução de emissões. Essas questões continuam fundamentais, mas precisamos dar muito mais atenção à adaptação climática do que estamos dando hoje, e os impactos que as questões ambientais têm sobre todos os demais aspectos da sociedade. O que acontece com uma família que perde a casa para uma cheia? Como uma cidade se prepara para meses de seca? Quem tem acesso a água potável, atendimento médico e transporte durante um evento extremo? Onde estão os investimentos públicos para reduzir esses riscos? São perguntas ambientais, mas também são perguntas sobre a vida cotidiana das pessoas.

Há ainda uma particularidade muito dura: os próprios jornalistas estão sendo atingidos pelos fenômenos que precisam cobrir. Em setembro de 2024, durante a crise de queimadas e fumaça no Acre, nossos colegas do Varadouro, veículo que integra a Rede Cidadã InfoAmazonia, relataram em uma reunião conosco problemas de saúde, sobrecarga de trabalho e dificuldades para manter a produção de reportagens. Estamos falando de uma redação pequena, que precisava documentar uma emergência ambiental enquanto seus profissionais também respiravam aquela fumaça.

O crime organizado acrescenta outra camada de risco. Em partes da Amazônia, atividades como garimpo ilegal, extração de madeira e tráfico de drogas se sobrepõem. Há territórios onde grupos armados exercem controle e onde a ausência do Estado, ou a corrupção de seus agentes, torna a apuração extremamente perigosa. A ameaça não é apenas ao jornalista: uma fonte que denuncia uma atividade ilegal pode sofrer represálias depois que a equipe vai embora, por exemplo.

Por isso, fortalecer o jornalismo local é também uma questão de proteção. Precisamos de financiamento contínuo, protocolos de segurança, redes de apoio e tempo para investigar.

5 – Como editor de um veículo independente focado na cobertura ambiental, o que você acha que o público em geral não está ciente sobre a situação da Amazônia?

Acho que há duas coisas que o público nem sempre percebe. A primeira é que a Amazônia não é apenas uma floresta a ser preservada, nem somente um território estratégico para regular o clima do planeta. É uma região habitada por milhões de pessoas, com cidades, economias, culturas e problemas muito concretos de acesso à saúde, educação, saneamento e segurança. E as condições ambientais afetam diretamente todas essas dimensões.

A segunda é que existe uma distância enorme entre a importância da Amazônia e o espaço que ela ocupa no debate político. Eleição após eleição, a floresta é apresentada como símbolo nacional ou como obstáculo ao desenvolvimento, mas raramente discutimos em profundidade as políticas necessárias para garantir o futuro da região.

Na InfoAmazonia, procuramos mostrar essa contradição em nossa série Eleições em Mapas. Identificamos, por exemplo, que, entre 2010 e 2022, o padrão de voto na Amazônia Legal se deslocou em direção a partidos menos alinhados à agenda climática. Parte do problema é que o debate público frequentemente instrumentaliza os dados ambientais. Um exemplo é a comparação entre queimadas e desmatamento que vimos nesta eleição, como se fossem indicadores equivalentes. Os dados estão relacionados, mas medem fenômenos diferentes.Escolher apenas o indicador mais conveniente para atacar ou defender um governo não ajuda a população a entender o que está acontecendo.

Outro problema parece ser uma percepção das campanhas de que a população se interessa menos pela temática ambiental, pois eleição após eleição o tema é relegado ao segundo plano e o eleitor deixa de conhecer as diferenças entre os candidatos neste assunto. Mas uma pesquisa Ipsos encomendada pelo Observatório do Clima divulgada em setembro apontou que 91% dos brasileiros consideravam importante que os candidatos apresentassem propostas para enfrentar as mudanças climáticas. O problema é transformar essa preocupação em prioridade eleitoral e cobrança política.

Isso exige um esforço de comunicação. É fácil se perceber a gravidade da falta de médicos em um posto de saúde, porque a relação entre o problema e suas consequências é imediata. Já a perda de floresta pode parecer distante, porque seus efeitos se acumulam ao longo dos anos e envolvem muitas variáveis. O desafio do jornalismo é explicar que a degradação ambiental também aparece na falta de água, na fumaça que leva crianças ao hospital, no preço dos alimentos e nas enchentes que interrompem serviços públicos. Ou seja, fazer com que as pessoas entendam que falar do futuro da Amazônia é também falar de suas condições de vida no presente.

Fonte: O que a eleição Brasileira significa para a Amazônia
Feed: LatAm Journalism Review by the Knight Center
Url: latamjournalismreview.org
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