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a cerâmica como insubordinação ao fim – HH Magazine

Publicado em: a cerâmica como insubordinação ao fim – HH Magazine

Bárbara Banida é natural de Fortaleza (CE), onde vive e trabalha. Sua investigação poética trabalha as intersecções entre a cerâmica esmaltada e as linguagens híbridas, fundamentando-se nos campos da ecologia especulativa, da ficção visionária e na proposição de territórios alienígenas. O cerne da pesquisa reside na articulação entre a fabulação e o onírico, compreendidos a partir das propriedades ontológicas da matéria e do solo. Propõe-se um diálogo com o que a artista define como um “encanto matérico”, uma metodologia que contribui para resgatar memórias de contato com os ecossistemas do litoral cearense, transmutando-os em zonas de experimentação estética.

Nesse contexto, destaca-se o projeto Erotar. Nas palavras da artista, ele é um ecossistema ficcional e regenerativo onde os vetores da matéria, do desejo e da imaginação operam de forma simbiótica. Em Erotar, a prática artística, que abrange a cerâmica, a pintura e o audiovisual imersivo, dedica-se à criação de seres híbridos e paisagens fabulares que confrontam as narrativas contemporâneas de colapso, operando a regeneração como uma força de continuidade política e biológica. Na produção escultórica, o esmalte cerâmico é mobilizado como uma membrana viva, uma pele instável definida pela fluidez, densidade e brilho. Esta produção reflete uma postura de insubordinação estética frente à finitude, visando a germinação de futuros fecundos por meio da arte.

O trabalho com a arqueologia dos sentidos inclui, portanto, as paisagens sensíveis. Para esse texto, atravessaremos algumas das séries em que a artista explora esses universos. A primeira delas é a intitulada “Maazier (As Sonoras)”:

Figura 1 – “Isknir Maazier (O Mestre dos Sons)”, de Bárbara Banida:

 

Fonte: Prêmio Pipa. Disponível em: https://www.premiopipa.com/barbara-banida/

 

As obras da cearense transmutam a matéria em memória e ficção. A ideia do nascer, do criar, vem desde a construção do léxico que dá nome aos seus trabalhos, chamada pela artista de Murtaruri. Materiais como o barro e o esmalte deixam de ser insumos técnicos para se tornarem agentes da fabulação. Na obra acima, diversas leituras podem ser feitas. Em minha interpretação, a forma da figura se assemelha à uma ocarina, antigo instrumento de sopro também feito de cerâmica. O caminho dos sons percorre o interior da figura até a parte superior, por onde alcança a possibilidade de emanação.

Os gestos com as formas que se assemelham a membros superiores nos remetem não à ação ou ao controle dela, mas à sabedoria, ao uso do conhecimento. Uma das características mais marcantes da obra de Bárbara Banida é a constante presença das geografias dos afetos e dos imprevistos. Por transitar entre o real e o imaginário, obras como as da série “Maazier” apresentam, mesmo que tenhamos contato apenas à distância, sons e imagens diferentes a cada leitura. Minha interpretação, por exemplo, vem diretamente de memórias da infância. Para o leitor ou leitora, cada obra será uma experiência com caminhos singulares. Para isso, a estética de uma “pele instável”, ou seja, do uso da cerâmica esmaltada, dialoga perfeitamente com as fronteiras entre o ser e o mundo, acionando subjetividades. O tempo da arte, aqui, não é imediato.

Na série “Madonnas/ Sentinelas”, adentramos na dimensão histórica da cerâmica e dos seus usos simbólicos. À semelhança das estatuetas que remetem àquelas feitas no período Paleolítico (as“Vênus”), as obras de Bábara Banida ressignificam as representações do sagrado feminino e exaltam a complexidade do ser. O que no senso comum seria considerado uma falha ou uma imperfeição na série se torna um fragmento de um todo, uma parte que não deve ser ignorada, estereotipada:

 

Fonte: Prêmio Pipa. Disponível em: https://www.premiopipa.com/barbara-banida/

Figura 2 – “Madonna Vulgare”, de Bárbara Banida:

 

A expressão da figura é visceral, expondo seu interior e deixando a ver camadas e texturas, tal qual um corpo humano. Ela é também matéria-memória. O barro e o esmalte carregam as experiências de um tempo vivido. A cerâmica deixa, novamente, de ser um suporte para ser a materialização do contato com aquilo que é tátil, com o território. Se analisarmos a obra sob a perspectiva da História das Sensibilidades, temos que a pele é uma fronteira do eu (CORBIN, 1989). A cerâmica esmaltada não é estática. Ela emula a porosidade e a umidade do corpo humano e dos seres híbridos. A sensibilidade aqui reside na instabilidade. Na obra acima, o desejo vai além do erotismo: trata-se de uma sensibilidade vitalista, aquela que visibiliza cada pulsar. Em obras como a “Madonna Deviante” o brilho que muda com a luz evoca o desejo pelo caminho que foge ao comum.

            Na obra de Bárbara Banida, predomina o que Gaston Bachelard (1993) e Maurice Merleau-Ponty (1999) chamam de fenomenologia da matéria, na qual o fazer cerâmico é compreendido como uma escuta sensível das substâncias. Ao manipular a argila e o esmalte, a artista cearense não busca o domínio da forma sobre o suporte, mas uma colaboração com o “onirismo da matéria”: um estado de devaneio onde a substância, seja ela o barro ou o esmalte, deixa de ser um suporte inerte e passa a guiar a mão e o pensamento em novas direções. A matéria é entendida como carne e o esmalte atua como uma interface fenomenológica. Ele é uma membrana que, entre o brilho e a opacidade, revela a interdependência entre o corpo que cria e o ecossistema que emerge.

            A produção de Bárbara Banida não se limita à criação de objetos escultóricos, mas estabelece a fundação de uma ontologia estética onde a matéria é agente ativa de “mundação”. Em “Antropocenas”, somos (re)apresentados a um mundo que talvez tenhamos deixado para trás. As imagens passam não em aceleração, mas numa conformação contemplativa dos detalhes. Já em “Biwoman”, o corpo é o protagonista em uma performance que destaca as performatividades e as vulnerabilidades do ser. Bárbara tem, ainda, uma trajetória sólida como ativista pela comunidade LGBTQIAPN+. Ela transita entre as experiências comuns e aquelas às quais a comunidade experimenta em suas vivências e desafios. Em “Quem são as banidas/ travestis do fundo do mar?”, a cidade se torna o cenário de múltiplas memórias coletivas e individuais. A artista passa por ruas e locais distintos e, nesse caminhar, convida o público a refletir sobre como a presença dos corpos trans é percebida em cada espaço. O que não muda, em nenhum momento, é a mensagem sobre o direito de ocupar, de existir.

Em seu portifólio, Bárbara nos traz diversas residências artísticas em que demonstra diferentes contatos com a geografia, com a terra, com as plantas e com as cores dos minerais da região que habita. Esse repertório lhe possibilita adentrar nos territórios da imaginação material e trazer essas memórias individuais para a dimensão coletiva das sensibilidades e das identidades regionais. Em um diálogo com as teorias de Merleau-Ponty, vemos que a experiência sensível atravessa, ainda, a intercorporeidade. Ao transmutar a cerâmica em “pele instável”, a artista opera uma mediação crítica entre o corpo, o território cearense e as alteridades abissais. Através do projeto Erotar e das séries analisadas, observa-se que a técnica do esmalte e a manipulação do barro deixam de ser meros processos para se tornarem dispositivos de uma história das sensibilidades contemporânea, capaz de dar corpo ao desejo e à regeneração.

 

 

 


REFERÊNCIAS

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

CORBIN, Alain. O território do vazio: a praia e o imaginário ocidental. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Investigação Erotar, por Bárbara Banida. Disponível em: https://barbarabanida.com/erotar Acesso em 12 de maio de 2026.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia   da   percepção. Tradução Carlos Alberto Ribeiro de Moura.  2. ed.  São Paulo:  Martins Fontes, 1999.

Prêmio Pipa – Bárbara Banida. Disponível em: https://www.premiopipa.com/barbara-banida/  Acesso em 12 de maio de 2026.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Reprodução. Bárbara e obras no ateliê, por Pedro Bessa. Disponível em: https://www.premiopipa.com/barbara-banida/ Acesso em 13 de maio de 2026.

Fonte: a cerâmica como insubordinação ao fim – HH Magazine
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