A Ctrl+Z pretende usar o jornalismo para pressionar as grandes empresas de tecnologia
Publicado em: A Ctrl+Z pretende usar o jornalismo para pressionar as grandes empresas de tecnologia
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Por
Leonardo Coelho -
6 Maio, 2026
Summary
A organização sem fins lucrativos planeja coletar denúncias de informantes e estabelecer parcerias com redações para responsabilizar as plataformas. Mas será que os jornalistas deveriam tomar partido?
Daniela Silva uma vez liderou esforços para moldar a legislação brasileira em favor do serviço do WhatsApp. Contudo, depois que o CEO Mark Zuckerberg encerrou o programa de verificação de fatos da Meta Platforms em janeiro de 2025, ela decidiu sair. Agora, ela está trabalhando contra o tipo de influência que antes ajudou a exercer.
Silva, junto com a jornalista Tatiana Dias e o advogado Luã Cruz, lançou a organização sem fins lucrativos Ctrl+Z para responsabilizar grandes empresas de tecnologia por práticas que, segundo eles, prejudicam os consumidores. Como dizem em seu site: “Um caso isolado é apenas um caso. Muitos casos se tornam evidências.”
Um dos pilares do projeto é o Arquivo de Danos Digitais, que reunirá relatos e conectará vítimas de suspensões, bloqueios e violações de direitos por plataformas digitais com apoio jurídico. Jornalistas também poderão consultá-lo para obter dados ou fontes humanas.
Outro pilar é a plataforma anônima de denúncia “Vaza Big Tech”. Lançada em co autoria em 28 de abril com a campanha ativista pró-consumidor Sleeping Giants Brasil, ela foi desenhada para coletar relatos de usuários e funcionários (whistleblowers) sobre práticas das empresas.
Silva disse que as empresas de tecnologia normalmente só mudam depois que pessoas de dentro, com preocupações éticas, levantam a voz.
(à esquerda) Luã Cruz, Tatiana Dias (ao centro) e Daniela Silva (à direita) brincam com joão-bobos feitos com os rostos de Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos durante a inauguração do CTRL+Z (foto de Rebeca Figueiredo)
“Temos uma plataforma que é focada em proteger a confidencialidade dessas fontes”, disse Silva à LatAm Journalism Review (LJR). As empresas de tecnologia “são muito poderosas e muito eficientes na maneira como se comunicam com o público e nos colocam numa certa posição de apatia em relação aos seus modelos.”
Ctrl+Z faz parte de um grupo crescente de organizações que usam o jornalismo para promover mudanças. Não se considera uma redação, mas a cofundadora Tatiana Dias disse que a organização transformará os vazamentos que reunir na base para reportagens investigativas com o objetivo de promover responsabilização.
As dicas serão avaliadas por uma equipe de jornalistas e advogados, e então compartilhadas com veículos parceiros para investigação conjunta e publicação, disse ela.
“Trabalhar em coalizões também ajuda a aumentar o alcance e o impacto das investigações”, disse Dias à LJR. “Somos 100% transparentes. Isso é de propósito. Mas isso deveria ser o que qualquer bom jornalismo de tecnologia faz.”
Silva disse que o veículo é claro quanto à sua posição de que as grandes empresas de tecnologia têm causado danos significativos a consumidores, trabalhadores e à democracia.
“Esse é nosso ponto de partida. Nosso jornalismo opera a partir dessa posição de responsabilização: nosso trabalho é fazer perguntas difíceis aos que estão no poder, e agora isso significa questionar as Big Tech”, disse ela à LJR.
Tanto Dias quanto Silva se opõem a serem rotuladas como defensoras ou ativistas.
“O que fazemos poderia ser descrito como ‘jornalismo de advocacy (incidência)’, mas não sou muito fã desses conceitos importados, porque o bom jornalismo sempre foi aquele que causa impacto”, disse Dias à LJR.
Tentar rotular o jornalismo como “ativista” é uma estratégia comum usada para tentar silenciar jornalistas em tribunais, disse ela.
“Por isso rejeitamos esse rótulo”, disse Dias. “Praticamos um jornalismo que tenha princípios e seja transparente, mas jornalismo, ainda assim, conduzido com habilidade técnica e rigor.”
Rogério Christofolleti, professor de ética da Universidade Federal de Santa Catarina, disse que nem mesmo os meios de comunicação mais tradicionais acreditam na imparcialidade total e que por isso às vezes é necessário defender causas maiores.
“Na minha visão, o problema não é que o jornalismo tome um lado, mas que projete uma imagem de imparcialidade quando não o é”, disse ele à LJR. Citou o lema do The Washington Post, “Democracy Dies in Darkness”, como exemplo que defende um tipo de sistema político.
“Toda empresa ou organização tem preocupações financeiras e preferências políticas que influenciam, em maior ou menor grau, o conteúdo que publica. Não deixar isso claro ao público é uma forma de traição”, disse ele.
Paula Bianchi, editora da agência pró-trabalhador Repórter Brasil, concorda. Ela disse que o Ctrl+Z funciona mais como os braços investigativos de organizações como o Greenpeace, publicando suas próprias reportagens ou compartilhando-as com publicações.
“A parcialidade não me incomoda quando é respaldada por processo jornalístico adequado e apuração rigorosa”, disse Bianchi à LJR. “Todos os veículos, de certa forma, têm algum grau de posicionamento, então quando um veículo diz de qual ponto de vista está falando eu não vejo isso como um problema.”
Outro exemplo de jornalismo que compartilha seu ponto de vista é a Ponte Jornalismo, veículo criado em março de 2014 por um grupo de jornalistas em São Paulo para cobrir exclusivamente segurança pública no Brasil a partir de uma perspectiva de direitos humanos.
Antônio Junior, também conhecido como Junião, é chargista veterano, jornalista e diretor de programas da Ponte. Para ele, esse ponto de vista explícito que todos — e todo veículo — têm, é essencial.
“Queremos um jornalismo que funcione como mediador de debates, que traga mais gente, que traga mais vozes, porque precisamos de emancipação”, disse ele à LJR.
“Precisamos ampliar as discussões sobre políticas públicas, especialmente nas áreas de segurança e educação, para que essa sociedade se torne menos desigual”, disse ele. “Porque numa sociedade onde há racismo, onde há violência de gênero, onde há violência de classe, como a nossa, como funciona a democracia?”
O CTRL+Z está sendo guiado por contornos semelhantes, com foco específico no impacto.
“Precisamos voltar a mostrar nosso valor”, disse Dias à LJR. “E medir impacto é uma forma de reconquistar essa confiança e mostrar às pessoas o poder transformador do jornalismo.”
Silva e Dias explicaram que o Ctrl+Z medirá impacto procurando mudanças concretas na sociedade que ocorram como resultado dos projetos e publicações, sejam novas leis, pedidos de investigações, mudanças em políticas corporativas, decisões judiciais que estabeleçam precedentes legais, manifestações públicas ou mudanças significativas na compreensão ou comportamento.
“Não consideramos menções na mídia ou viralização como impacto: são aspectos importantes do nosso trabalho de mobilização, mas não são impactantes”, disse Dias à LJR.
Para Bianchi, da Repórter Brasil, o espaço para jornalismo investigativo aprofundado é mais importante do que nunca.
“Mesmo que tome uma posição com projetos centrados em pessoas, penso que, num país como o Brasil, isso é necessário”, disse ela.
Christofolleti, por outro vez, vê uma dinâmica ainda mais interessante acontecendo.
“O que vejo de novo no Ctrl+Z é que ele vai além do jornalismo e se aproxima de um movimento de engajamento social, o que requer coragem, planejamento e capacidade de formar alianças”, disse ele.
Silva concorda. Para ela, movimento social e jornalismo rigoroso não são contraditórios. Em vez disso, podem se reforçar quando os jornalistas são transparentes sobre sua perspectiva desde o início.
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