Após anos no exílio por cobrir o caso de José Rubén Zamora, jornalistas ainda temem voltar para casa
Publicado em: Após anos no exílio por cobrir o caso de José Rubén Zamora, jornalistas ainda temem voltar para casa
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Por
Silvia Higuera -
2 setembro, 2026
Summary
Jornalistas que fugiram da Guatemala após serem alvo por cobrirem o julgamento de seu ex-chefe agora podem retornar após decisões judiciais. Mas eles temem que as forças que os levaram ao exílio ainda estejam em vigor.
Foram pouco mais de três anos de incerteza, medo, raiva e, sobretudo, decepção para um grupo de ex-funcionários do agora extinto(opens in new tab) veículo elPeriódico de Guatemala que vivem no exílio por sua cobertura do caso de seu ex-chefe, José Rubén Zamora.
Durante uma audiência em 28 de fevereiro de 2023 contra Zamora, fundador do elPeriódico, a então promotora Cinthia Monterroso solicitou ao juiz a abertura de um processo criminal contra vários jornalistas pelo crime de “obstrução da Justiça”(opens in new tab) — um delito previsto na lei de combate ao crime organizado.
O argumento de Monterroso tinha como base textos jornalísticos e colunas de opinião publicados pelo elPeriódico relacionados ao agora anulado julgamento de Zamora, que havia sido condenado a seis anos de prisão em um caso questionado por organizações de defesa da liberdade de expressão. De acordo com o Ministério Público, a cobertura feita sobre o caso havia criado na sociedade guatemalteca uma imagem falsa, frágil e negativa da então procuradora-geral, María Consuelo Porras.
“Então isso tem como consequência que eles, como promotores, já não podem investigar de maneira adequada porque há uma predisposição”, explicou à LatAm Journalism Review (LJR) Wendy Geraldina López, advogada da organização Udefegua, que representa cinco dos jornalistas.
Zamora, que se encontra em prisão domiciliar(opens in new tab), enfrenta desde 2023 acusações de chantagem, crimes relacionados à lavagem de dinheiro e tráfico de influência, processos judiciais que numerosos observadores classificaram como retaliação por suas investigações sobre corrupção governamental.
O exílio dos jornalistas envolvidos na cobertura do julgamento ressalta o longo alcance que teve a ofensiva jurídica(opens in new tab) do governo guatemalteco contra Zamora, que, antes de sua prisão, já havia enfrentado décadas de ameaças, perseguição e atos de tortura por seu trabalho jornalístico e o de seu veículo.
Com uma decisão recente da Corte Constitucional, o processo criminal contra os jornalistas está encerrado, disse López. Alguns dos colegas de Zamora já retornaram à Guatemala, mas, diante da falta de garantias e proteções, quatro continuam no exílio e com medo de voltar.
O exílio diante da falta de garantias
Durante a audiência de 2023, foi ordenada a investigação dos jornalistas Denis Aguilar, Christian Velix, Alexander Valdez, Rony Ríos, da diretora do elPeriódico, Julia Corado, do ex-chefe de redação Gerson Ortiz e dos colunistas Gonzalo Marroquín e Edgar Gutiérrez.
Depois que souberam da investigação aberta contra eles, organizações internacionais entraram em contato para fazer uma análise rápida de risco, disse Corado à LJR.
A análise feita pelas organizações indicava que seria melhor deixar o país por falta de garantias judiciais, disse Corado. “Era muito fácil que emitissem mandados de prisão e nos levassem no dia seguinte”, disse.
Eles seguiram a recomendação e deixaram o país. Corado e Ortiz fizeram isso em 2 de março de 2023, passando pela Costa Rica, e não voltaram.
“É muito injusto porque a pessoa não fez nada fora da lei além de exercer seu trabalho. E por isso fui perseguida, saí do país em condições muito críticas”, disse Corado. “Foi muito difícil, na verdade. Uma incerteza terrível.”
Corado, Ortiz e Rony Ríos, que falaram com a LJR, concordam em duas coisas: pensaram que seu exílio duraria no máximo dois meses e tiveram que fazê-lo sozinhos. Não tinham recursos para partir com suas famílias.
Para Ortiz, foi particularmente surpreendente se ver entre os investigados. Por ser editor e não assinar artigos, não imaginava que estivesse no radar da Justiça.
“Como editor, cuidava da linguagem, cuidava para que os dados fossem precisos, fazia uma dupla checagem […] e então sou perseguido por me ocupar desses detalhes aparentemente inofensivos”, disse Ortiz.
Junto com Corado, fundou em 2024 a EP Investiga(opens in new tab), um veículo com equipe na Guatemala e no exílio, com o qual busca dar continuidade ao legado do elPeriódico, mas, sobretudo, continuar fazendo jornalismo, disse.
“A primeira reação emocional é de uma decepção absoluta”, disse Ortiz. “Mas, ao mesmo tempo, depois de processar isso, faz você perceber que seu trabalho continua sendo importante, que dizer as coisas apesar do medo, apesar até das consequências, vale a pena, faz sentido político e crítico, é importante para um país.”
Ríos, que foi designado para cobrir algumas das audiências de Zamora por sua experiência nos tribunais, também não entende muito bem por que foi relacionado ao processo judicial. Cobriu e redigiu as matérias como fazia com muitas outras.
No processo judicial, os textos e colunas dos jornalistas fazem parte das provas do Ministério Público. Matérias com títulos como “Detêm o jornalista José Rubén Zamora e fazem buscas nos escritórios do ‘elPeriódico’”, “Funcionários do ‘elPeriódico’ foram detidos pelas forças de segurança”, “Zamora continua detido e sem audiência de primeira declaração”, “‘Este é uma montagem do presidente e do procurador-geral’”, “Novo assédio contra José Rubén Zamora” são alguns dos muitos artigos, editoriais ou colunas que foram anexados como evidência.
Também no processo judicial, o Ministério Público utilizou qualificações como “desinformação” e “falso” para descrever os textos. Ríos considera estranho que um dos textos marcados como evidência tenha sido aquele em que descreveu que um dos áudios apresentados como prova contra Zamora não podia ser ouvido claramente. O Ministério Público considerou essa descrição uma tentativa de deslegitimar a acusação contra Zamora.
“Não dava para ouvir. E outros veículos também noticiaram”, insiste Ríos.
Artigos sobre como organizações internacionais — notadamente a Comissão Interamericana de Direitos Humanos ou a Sociedade Interamericana de Imprensa — se manifestavam contra o caso de Zamora também foram apresentados como evidência de obstrução da Justiça por parte dos jornalistas.
Atualmente nos Estados Unidos, depois que seu pedido de asilo foi aprovado, Ríos divide seu tempo entre escrever artigos para o veículo independente guatemalteco Prensa Comunitaria e seu trabalho como cozinheiro em um restaurante. Seu desejo é voltar ao país e lamenta os momentos que perdeu. Não pôde estar presente quando sua avó morreu e vive preocupado com a saúde de seus pais.
Esses episódios fizeram com que Ríos tivesse momentos de raiva e frustração contra aqueles que lideravam a área judicial. “Eu não conseguia nem olhar para eles”, disse Ríos.
O recente relatório “A Verdade do Exílio, Ética, criminalização e luta pela Justiça na Guatemala(opens in new tab)” registra a perseguição sofrida por operadores da Justiça, defensores dos direitos humanos e jornalistas desde 2014.
Três anos de criminalização
Ortiz descreve os três anos do caso como uma espécie de “espada de Dâmocles”, em que o objetivo do Ministério Público era silenciá-los e enviar uma mensagem de que outros jornalistas poderiam seguir o mesmo caminho.
López explica que o caso não deveria ter sido levado pela via criminal, mas resolvido por meio de um mecanismo especial para questões relacionadas à liberdade de expressão. Em janeiro de 2024, um juiz aceitou que o processo não poderia continuar em um tribunal penal. O Ministério Público recorreu da decisão perante diferentes instâncias, mas todas a mantiveram. Em junho de 2026, a Corte Constitucional encerrou o caso.
“Ou seja, de uma forma indireta, estão nos dizendo que, efetivamente, sempre tivemos razão”, disse López. “Na prática, eles utilizaram o sistema de Justiça simplesmente para criminalizar, porque reconhecem que seus pedidos nunca tiveram um fundamento sério.”
Embora a decisão da Corte Constitucional e a mudança de procurador-geral(opens in new tab) abram uma janela de esperança para o retorno, Ortiz adverte que o sistema como um todo não mudou. Ainda faltam proteção e garantias para evitar novas perseguições, assim como um reconhecimento dos danos causados pelo Estado e uma reparação para aqueles que tiveram seus projetos de vida afetados.
“O Estado deve aos seus cidadãos uma Justiça”, disse López. “Para que eles também retornem, precisam de condições, e acredito que essas condições, mais do que qualquer outra coisa, deveriam envolver uma reparação para eles, pelo menos um pedido de desculpas.”
Traduzido com assistência de IA e revisado por Leonardo Coelho
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