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Assassinato de jornalista abala uma imprensa dividida e ameaçada em Oaxaca

Publicado em: Assassinato de jornalista abala uma imprensa dividida e ameaçada em Oaxaca

Summary

Alejandro Leyva havia denunciado ameaças e buscado proteção durante um ano antes de ser assassinado. Seu caso coloca sob escrutínio a hostilidade do governador de Oaxaca em relação à imprensa e levou jornalistas a exigir garantias para exercer seu trabalho.

Alejandro Leyva, o jornalista mexicano que foi assassinado no estado de Oaxaca em 22 de julho, passou um ano buscando proteção e justiça depois de ter sido alvo de ameaças e de uma campanha de difamação.

Leyva, conhecido por seu trabalho crítico ao poder local, tinha certeza de que o assédio vinha do governo estadual. Inclusive, em várias ocasiões, em sua videocoluna “El Zumbido del Moscardón”, responsabilizou o governador de Oaxaca, Salomón Jara, por qualquer coisa que pudesse acontecer com ele ou sua família. 

Após receber ameaças de morte, Leyva denunciou, em julho de 2025, Jara e dois funcionários de seu governo perante instâncias estaduais e federais. Nenhuma autoridade lhe ofereceu proteção. Inclusive, quando a Procuradoria-Geral da República (FGR) encaminhou o caso à procuradoria do governo estadual, o processo foi extraviado

O jornalista Alejandro Leyva tinha uma coluna em vídeo nas redes sociais na qual denunciava atos de corrupção. (Foto: captura de tela de El Zumbido del Moscardón no Facebook)

Diante da inação, o jornalista planejava recorrer ao sistema interamericano de direitos humanos, mas foi assassinado antes de fazê-lo.

“Quando você esgota as instâncias em um país, o que lhe resta além da comunidade internacional?”, disse à LatAm Journalism Review (LJR) a jornalista María de los Ángeles Nivón, cunhada de Leyva. “Infelizmente, para Alejandro, esse era o último passo que faltava”.

Leyva foi assassinado a tiros enquanto tomava café da manhã em um estabelecimento de comida na via pública, perto de sua residência, no município de San Pablo Etla. Trata-se do sétimo jornalista assassinado no México até o momento neste ano. Diante de uma das ondas mais mortíferas para a imprensa mexicana dos últimos anos, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas instou o governo federal a assumir os casos e reforçar as proteções para os jornalistas.

Mais do que um fato isolado, o assassinato de Leyva expôs um ecossistema hostil ao jornalismo em Oaxaca. Jornalistas e organizações de liberdade de expressão sustentam que o crime ocorreu após anos de confronto do poder contra a imprensa crítica e de falhas institucionais na proteção de jornalistas ameaçados. Agora, uma categoria dividida tenta se unir para exigir justiça e garantias para exercer seu trabalho.

“O caso de Leyva vem confirmar um contexto difícil para a imprensa no estado”, disse à LJR Balbina Flores, representante da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) no México. “Evidencia claramente o fracasso do Estado na proteção dos jornalistas”.

Assédio por parte do poder

Em 2024, dois anos após o início de sua administração, o governador Jara implementou, como parte de suas coletivas de imprensa matutinas, a seção “Trapitos al Sol”, um espaço no qual costumava desmentir informações que considerava falsas ou enganosas e desacreditar jornalistas e opositores.

Nivón foi uma das jornalistas que foram alvo de ataques naquela tribuna.

“Ele dedicou 20 minutos da sua ‘mañanera’ [conferências matutinas de imprensa] a denegrir meu trabalho de muito má-fé, relacionando-me a um grupo político e a coisas horríveis”, disse Nivón. 

A jornalista tomou medidas legais em várias instâncias até levar seu caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Nivón acredita que ter apresentado seu caso à comunidade internacional foi o que a protegeu e fez com que o governador deixasse de mencioná-la em suas coletivas.

Seu cunhado não teve a mesma sorte. Leyva também foi alvo de difamação em “Trapitos al Sol”, em dezembro de 2024. Em suas denúncias, o jornalista, já falecido, relacionou as ameaças que recebeu a esses comentários do governador.

Para a RSF, esse discurso de desqualificação da imprensa em Oaxaca é herança da estratégia de comunicação do ex-presidente Andrés Manuel López Obrador, pioneiro na realização de coletivas de imprensa matutinas diárias a partir das quais estigmatizava meios de comunicação e opositores.

“Alguns governos estaduais seguiram esse discurso e um deles é o governador de Oaxaca”, disse Flores. “Permaneceu esse discurso de ‘a imprensa nos critica porque não gosta de nós, porque são de direita’”.

Vários jornalistas de Oaxaca são claros ao afirmar que o ambiente de ameaças e assédio contra a imprensa é responsabilidade do governador Jara.

“Ele é quem fez campanhas negras e sujas nas redes sociais contra todos os que discordam de sua posição, contra todos os que não estão de acordo com sua forma de dizer as coisas nem com seu governo”, disse Nivón.

Legal document of the denounce of threats by journalist Alejandro Leyva in Oaxaca, Mexico. (Photo: Portal ESPRIMERAMX)

Leyva apresentou queixas estaduais e federais contra o governador de Oaxaca e dois membros de sua administração em julho de 2025. (Foto: portal ESPRIMERAMX)

Apenas alguns dias antes do assassinato de Leyva, o governador Jara havia manifestado seus planos de elaborar uma lista de “portais de ódio”, aos quais não responderia a perguntas ou questionamentos.

Mas, diante da onda de condenações pelo crime de Leyva e das acusações contra seu governo, Jara moderou sua postura. Convocou uma reunião com jornalistas na qual se comprometeu a mudar seu modelo de comunicação e a cessar o confronto com a imprensa crítica.

“A mudança, pelo menos no discurso público, se deve ao fato de que o caso Leyva atingiu diretamente [o governador] e às cobranças diretas contra ele”, disse Flores. “Os jornalistas são muito diretos no sentido de dizer que os assassinos de Leyva estão dentro do governo. É uma acusação forte, muito forte”.

Reorganização em meio ao medo

Alguns dias após o assassinato de Leyva, o correspondente em Oaxaca da revista Proceso, Pedro Matías, condenou os fatos em sua conta no X. Um usuário respondeu à publicação com uma ameaça de morte, fazendo alusão a que Matías seria o próximo a ser assassinado.

O jornalista apresentou uma denúncia por ameaças à procuradoria estadual, que lhe designou escoltas para sua proteção. Outros jornalistas também relataram à RSF que se sentiam vigiados em vias públicas.

“Esses dias houve um ambiente muito hostil, há psicose entre os colegas”, disse Nivón. “Vivemos com medo, porque o que aconteceu ultrapassa todos os limites. Nós nos sentimos muito vulneráveis”.

Após os fatos, a Secretaria de Governo do México entrou em contato com Matías, Nivón e outros jornalistas para coordenar sua inclusão no mecanismo federal de proteção a jornalistas. Nivón disse que estavam esperando que o órgão realizasse uma análise de risco para determinar as medidas cautelares.

Apesar do medo, os jornalistas em Oaxaca tentam se adaptar à nova realidade para continuar com seu trabalho, que, segundo Nivón, não vão deixar de exercer.

“Estamos andando com muito cuidado. Nos recolhemos cedo, […] às 14h já estamos em casa e não saímos mais, a não ser que seja realmente necessário”, disse Nivón. “Mas continuamos, sim, com nossa linha crítica; nós não vamos mudá-la, porque seria como capitular”.

Matías disse que continuará exercendo um jornalismo crítico enquanto investiga as omissões e possíveis responsabilidades em torno do assassinato de Leyva, apesar das medidas de proteção que modificaram sua rotina.

Embora admita sentir medo, Matías disse sentir-se confiante pela atenção que seu caso gerou inclusive na mídia internacional.

“Adoto certas precauções, mas não estou apavorado. Não quero me deixar dominar pelo medo”, disse.

Menos de uma semana após o assassinato de Leyva, uma reunião com jornalistas convocada pelo governo estadual resultou em discussões sobre acordos de publicidade, o que vários comunicadores interpretaram como uma tentativa de desviar a atenção do crime e enfraquecer uma categoria que já estava dividida.

Membros da imprensa de Oaxaca concordam que, há anos, existe uma divisão entre os jornalistas críticos e aqueles que, diante da precariedade laboral, viram-se obrigados a realizar esses acordos de publicidade.

“O governo estadual usa a questão dos acordos, da publicidade que tem com alguns, ou o fato de que outros querem publicidade”, disse Matías à LJR. “Isso, em geral, gera dúvidas [e] desconfiança entre os colegas e, no fim das contas, eles acabam sendo questionados ou brigando”.

Diante disso, organizações como o Fórum Nacional de Jornalistas e Comunicadores, Capítulo Oaxaca, a Associação de Jornalistas de Oaxaca, o Sindicato Nacional de Meios de Comunicação e o Movimento Jornalismo em Risco convocaram a categoria dos jornalistas a formar uma frente comum para exigir justiça pela morte de Leyva e pelas agressões contra jornalistas de Oaxaca que permanecem impunes.

Após uma reunião em 1º de agosto, as organizações anunciaram que a categoria de Oaxaca se comprometeu a agir em conjunto e acima das diferenças para exigir respeito à liberdade de expressão e garantias para o livre exercício do jornalismo no estado.

“Isso nos obriga a nos reorganizarmos para poder ver o que vem a seguir […] para que haja justiça”, disse Nivón, que participou da reunião. “Que o estado de Oaxaca dê a garantia de que algo assim não voltará a acontecer, de que nenhuma autoridade voltará a intimidar nenhum jornalista”.

Fonte: Assassinato de jornalista abala uma imprensa dividida e ameaçada em Oaxaca
Feed: LatAm Journalism Review by the Knight Center
Url: latamjournalismreview.org
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