Brasil brilha no Prêmio Gabo com vitória em três categorias
Publicado em: Brasil brilha no Prêmio Gabo com vitória em três categorias
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Por
Alejandro Martínez-Cabrera -
29 julho, 2026
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Três projetos brasileiros foram premiados, enquanto o Prêmio Gabo 2026 também destacou a cobertura de conflitos armados, o trabalho de jornalistas no exílio e prestou homenagem a jornalistas assassinados.
O Festival Gabo aconteceu pela décima quarta vez, de 24 a 26 de julho, e reuniu milhares de participantes em Bogotá, na Colômbia, para celebrar o que há de melhor no jornalismo da América Latina, do Caribe, da Espanha e de Portugal.
O evento é organizado pela Fundação Gabo, criada pelo colombiano Gabriel García Márquez, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura — que também se destacou como jornalista —, juntamente com Jaime Abello Banfi, em 1995.
O evento principal do festival é a entrega do Prêmio Gabo, que reconhece jornalistas com trajetórias notáveis e os melhores trabalhos jornalísticos da Ibero-América nas categorias de áudio, fotografia, texto e reportagens em vídeo ou multimídia.
O júri avaliou mais de 1.915 inscrições de 20 países para selecionar os vencedores. Este ano, destacou-se o trabalho dos jornalistas brasileiros; foram homenageados jornalistas que vivem no exílio e reconhecida a trajetória de Catalina Gómez Ángel, uma correspondente de guerra colombiana que cobriu conflitos no Irã e na Ucrânia.
Mas a cerimônia também chamou a atenção para o assassinato de dois jornalistas na Colômbia neste ano, a ameaça representada pelo crescente autoritarismo em todo o mundo e a violência de gênero nas redações.
Estes são os cinco pontos-chave a saber sobre o Prêmio Gabo 2026:
Jornalistas brasileiros dominam
Os jornalistas brasileiros foram os mais premiados da noite, tendo recebido prêmios em três categorias.
Uma delas foi a fotojornalista Gabriela Biló, do *Folha de S. Paulo*, que ganhou o Prêmio Gabo na categoria fotografia pela série “Como sobrevivem as democracias”. Biló documentou o golpe de Estado fracassado do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro em 2023, um episódio que culminou, dois anos depois, em um julgamento histórico que o condenou a 27 anos de prisão.
Durante a cerimônia de premiação, Biló destacou que, em tempos em que o autoritarismo se espalha pelo mundo, ter testemunhado a resiliência das instituições e da democracia brasileiras “é algo que traz um pouco de esperança”.
Na categoria reportagem, venceu a equipe do Metrópoles por seu projeto multimídia “A política da bala”, que documentou meticulosamente as 246 mortes por tiros cometidas pela Polícia Militar em São Paulo durante o mandato do governador Tarcísio de Freitas. A análise contradiz as versões oficiais sobre algumas dessas mortes e revelou que muitas das vítimas estavam desarmadas e foram baleadas pelas costas.
O documentário “Terceirão – um ano, quatro vidas”, dirigido por Eliane Scardovelli e Caio Cavechini para a TV Globo, venceu na categoria de imagem, que celebra o melhor trabalho jornalístico em formatos audiovisuais.
O longa-metragem acompanha de perto quatro jovens de diferentes escolas — uma bolsista de Direito que descobre ter um tumor cerebral, uma jovem de família abastada, uma estudante de dança e um rapaz que se debate entre estudar psicologia ou arrumar um emprego para sustentar sua família — para destacar os desafios da juventude brasileira sem se basear em estatísticas ou opiniões de especialistas.
Jornalistas no exílio e muito mais
Os prêmios também reconheceram o trabalho de dois jornalistas salvadorenhos exilados por exercerem sua profissão.
O prêmio na categoria de texto foi para os irmãos Carlos e Oscar Martínez, do veículo digital El Faro, por sua crônica “O exílio nos alcança”, na qual narram a experiência de ativistas, ex-funcionários e jornalistas como eles, que foram deixando o país aos poucos.
Os irmãos Martínez deixaram El Salvador no ano passado após publicarem uma série de entrevistas com líderes de gangues que revelaram os acordos de cooperação firmados com Nayib Bukele antes mesmo de ele assumir a presidência. Sua crônica conta como o que inicialmente consideraram uma saída preventiva e temporária se transformou gradualmente em uma aceitação do exílio forçado.
Durante uma emocionante cerimônia de entrega do prêmio pelas mãos de Carlos Fernando Chamorro — um jornalista nicaraguense veterano que também vive no exílio —, os irmãos mostraram-se desafiadores.
“Que o ditador e seus servos entendam de uma vez por todas: o silêncio não é nossa opção, nunca foi e nunca será”, disse Oscar Martínez.
O prêmio na categoria de áudio foi para o podcast espanhol *Se llamaba como yo*, da jornalista investigativa Isabel Cadenas Cañón. Ele conta a história de como a morte de Begoña Urroz, há mais de seis décadas, se tornou o Dia das Vítimas do Terrorismo na Espanha — apesar de ter sido erroneamente atribuída como a primeira morte causada pela organização terrorista basca ETA.
Em memória dos jornalistas assassinados
A cerimônia prestou homenagem a dois jornalistas colombianos que foram assassinados este ano. Suas famílias estiveram presentes durante o evento.
Cristian Herrera Nariño, correspondente e membro do conselho diretor da Fundação pela Liberdade de Imprensa (FLIP), vinha recebendo ameaças há anos por causa de seu trabalho e foi assassinado em junho na cidade de Cúcuta.
Sofía Jaramillo, diretora executiva da FLIP, disse que Herrera Nariño aprendeu jornalismo ao lado de seu pai e que sua comunidade o conhecia por ser o primeiro jornalista a chegar para cobrir qualquer notícia e por contar bem a história. Ela descreveu sua morte como “a ferida mais profunda nos 30 anos da organização”.
“Essa pessoa apaixonada pela vocação de informar era uma árvore gigantesca que conseguiu criar raízes profundas, cujo alcance ainda estamos descobrindo”, disse Jaramillo.
Mateo Pérez Rueda, poeta de 24 anos e diretor da revista El Confidente, foi assassinado em maio no município de Yarumal, no noroeste do país.
Em um editorial de 2021 sobre o impacto da violência nas famílias, Pérez Rueda escreveu: “Cada vez que um jovem é assassinado, morrem pelo menos outras 150 pessoas junto com ele. A esperança de vê-lo crescer e superar, à sua maneira, os obstáculos da vida [e] a alegria no coração ao cumprimentá-lo na rua”.
“Essas palavras hoje também se referem a Mateo”, disse Jaramillo.
Desde 1938, 171 jornalistas foram assassinados na Colômbia, segundo a FLIP.
Atenção à violência de gênero
O evento também destacou a violência de gênero dentro e fora das redações.
Jineth Bedoya Lima, fundadora da iniciativa “No Es Hora de Callar”, enfatizou que centenas de jornalistas mulheres enfrentaram assédio sexual em seus locais de trabalho. Este ano, uma onda de denúncias de assédio contra jornalistas mulheres na Colômbia renovou a atenção ao tema por meio da iniciativa #YoTeCreoColega.
“Nós, da mídia, não podemos dar lições sobre como combater a violência se a toleramos ou ignoramos em nossas próprias redações. Essa é a outra ameaça à liberdade de imprensa da qual não queremos falar”, disse Bedoya Lima. “Quem pensa na violência que essas mesmas pessoas que comunicam enfrentam, a violência que hoje, neste exato momento, centenas de mulheres enfrentam em suas próprias redações?”
Correspondente no Irã e na Ucrânia
Por fim, o prêmio de excelência jornalística foi concedido a Catalina Gómez Ángel, uma correspondente de guerra colombiana reconhecida por seu trabalho na cobertura de conflitos no Irã e na Ucrânia. Apesar de estarem distantes da América Latina, os efeitos desses conflitos “acabam por alterar sua vida política, econômica e social”, afirmou o Conselho Diretor do Prêmio Gabo.
“Enquanto outros se concentram nas motivações da guerra política, ela devolve a dignidade àqueles que vivem suas consequências”, disse Jaime Abello Banfi, diretor-geral e cofundador da Fundação Gabo, durante a cerimônia de entrega do prêmio.
Gómez Ángel disse que recebia o reconhecimento com grande alegria e senso de responsabilidade.
“Faço isso em nome de muitas mulheres de língua espanhola e portuguesa que escolhemos contar ao mundo o que acontece além de nossas fronteiras, mulheres que tentamos compreender as sociedades […] e dar-lhes um rosto, que acreditamos que o mundo deve ser narrado a partir de diferentes vozes. Quem dera houvesse muito mais mulheres fazendo isso”.
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