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Cobertura da Copa do Mundo, apresentada por uma das maiores influenciadoras do Brasil

Publicado em: Cobertura da Copa do Mundo, apresentada por uma das maiores influenciadoras do Brasil

Summary

A estreia de Virginia Fonseca na TV Globo é o mais recente sinal de uma mudança na mídia que, segundo os críticos, está confundindo os limites entre jornalismo e entretenimento.

No meio da Times Square, uma mulher loira com uma jaqueta temática do Brasil se apresenta para uma câmera: “Oi, meu nome é Virginia Fonseca. Eu sou repórter da Copa do Mundo…”. 

Ela então é silenciada por um homem que entra em cena enquanto um efeito sonoro de disco arranhando. 

Ele diz: “Não, repórter não. Evita isso, fala outra coisa que você é”.

Ela começa de novo: “Eu sou Virgínia Fonseca, influenciadora digital…”. 

O homem aparece de novo: “Influenciadora Digital também não, estamos na TV. Escolhe outra”. 

Ela desiste. 

“Eu sou Virginia Fonseca. Pesquisa aí. Eu nem sei… eu sou eu, Virgínia. Pesquisa e depois a gente descobre”.

Uma busca pelo nome Virginia no Brasil rapidamente mostra quem ela é. Virginia Fonseca é uma gigante entre os digital influencers, com mais de 57 milhões de seguidores no Instagram, quase 12 milhões no YouTube e 43 milhões no TikTok. Ela também é uma empresária multimilionária do setor de cosméticos

O vídeo segue, e Virgínia apresenta sua entrada televisiva em estilo vlog em Nova York no primeiro episódio de sua série no “Domingão com Huck”, um programa de variedades apresentado por Luciano Huck, um apresentador famoso em todo o país, na TV Globo, uma das maiores emissoras do mundo.

Virginia, no entanto, não é jornalista.

Toda a cena poderia passar despercebida para muitos, mas outros viram o quadro como uma espécie de provocação aos críticos, notadamente jornalistas. Quando Virgínia foi anunciada pela TV Globo e pelo Domingão, ela foi apresentada como uma “repórter especial”, o que rapidamente foi engolido por uma onda de controvérsia na mídia.

A Federação Nacional dos Jornalistas, ou FENAJ, criticou publicamente a decisão, dizendo que ela destaca uma “tendência cada vez mais evidente de declínio na cobertura jornalística de grandes eventos, marcada por uma redução drástica das equipes profissionais, cortes de financiamento e substituição de jornalistas por figuras voltadas exclusivamente ao entretenimento e ao engajamento em redes sociais.”

Repórteres esportivos veteranos como Juca Kfouri, com 14 coberturas de Copa do Mundo no currículo, foram duros na crítica, chamando aquilo de uma afronta ao jornalismo

“Virgínia, que mal consegue juntar duas frases, vai ser repórter na Copa do Mundo — é uma aberração que o entretenimento 100% tenha tomado o lugar do jornalismo”, disse durante um programa.

Muitos, no entanto, saíram em defesa de Virgínia. 

Glenda Kozlowski, apresentadora de TV, afirmou em suas redes sociais que as pessoas deveriam deixá-la fazer seu trabalho. 

“Se Luciano Huck escolheu Virginia, ele tem os motivos dele. É um programa de variedades”. 

A colunista da Folha de S.Paulo Mariliz Pereira Jorge perguntou “quem tem medo de Virgínia?”, acrescentando que as críticas a ela erram o alvo: 

“O jornalismo não perdeu espaço para influenciadores porque seu lugar nunca foi o palco”.

Raphael Palumbo, ex-editor e produtor de programas da TV Globo por mais de três décadas, disse ao LatAm Journalism Review (LJR) que existe um grupo entre os jornalistas que age como viúvas nostálgicas e inconsoláveis do jornalismo, acrescentando que tratam cada novidade como se fosse um funeral.

“Ao longo da história da televisão, muitos talentos surgiram fora dos caminhos tradicionais, sem diplomas ou credenciais, enquanto profissionais com currículos ‘invejáveis’ nunca conseguiram se conectar com o público. Aos 60 anos, depois de atravessar a transição do analógico para o digital, aprendi que a tecnologia muda, os formatos mudam, o conteúdo muda e o público muda também. A única coisa que não muda é o medo e a resistência daqueles que confundem novidade com decadência”, disse Palumbo.

Kelly Miyashiro, que cobre o mercado de TV e Streaming para a Veja, relatou que o verdadeiro plano parece ser mais comercial: a Globo pretende usar a enorme base de seguidores de Virginia para melhorar seu engajamento e audiência nas pesquisas e nas redes sociais em meio a uma grande mudança no ecossistema de consumo da televisão brasileira.

A TV Globo atualmente vê sua dominância enfraquecida por empresas de streaming como a CazéTV depois de décadas sozinha no topo. Gustavo Poli, outro ex-funcionário da TV Globo, está atualmente fazendo uma série em seu Substack explicando essa mudança titânica na indústria.

Em um artigo no jornal O Globo, Poli, que foi Diretor de Programas e Conteúdo Digital da TV, resumiu: “Uma transmissão esportiva é jornalismo ou entretenimento?”. 

Nele, analisa a cobertura feita pelos novatos e conclui que encontrar equilíbrio entre informação e entretenimento não é fácil — mas é necessário.

Essa zona cinzenta entre jornalismo e entretenimento está, para pesquisadores, no centro do debate. 

Luiz Artur Ferraretto, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, disse à LJR que, estritamente falando, o jornalismo lida com fatos e opiniões necessários para o público compreender a realidade, enquanto o entretenimento pode atender exclusivamente ao gosto do público, com outro conjunto de padrões éticos e técnicos.

“O papel essencial de um jornalista é ser repórter. Mesmo quando um jornalista atua com entidades institucionais, ele precisa pensar como repórter — como é o caso de um assessor de imprensa, que deve tratar as ações daqueles que assessora como notícia. O que a Globo está fazendo no caso de Virginia Fonseca é apresentar uma personalidade do entretenimento como repórter. E isso é, estritamente falando, uma prática enganosa”.

O debate é um dos capítulos locais mais recentes de um dilema antigo vivido pelo jornalismo no mundo todo: a inserção de influenciadores na cobertura jornalística. 

Mesmo no Brasil isso não é novidade: em 2024, a TV Globo também foi criticada por contratar influenciadores para sua cobertura do Carnaval. A controvérsia foi tanta que em 2025 mudaram de rumo.

Alguns jornalistas estão escolhendo migrar, ao menos em parte, para o ecossistema dos influenciadores digitais. 

Segundo um estudo de 2025 do Reuters Institute for the Study of Journalism, 33% dos entrevistados brasileiros dizem seguir criadores e influenciadores para se informar, enquanto 30% dizem seguir marcas de notícias e jornalistas. Para comparação, nos EUA, 21% dos americanos obtêm notícias por influenciadores de redes sociais, segundo o Pew Research Center.

No Brasil, ironicamente, alguns repórteres esportivos são os que mais estão monetizando ao assumir publicamente suas torcidas — principalmente no futebol —  e abraçando a parcialidade como forma de se adaptar a um modelo de negócios em evolução que mistura jornalismo, engajamento digital, empreendedorismo e patrocínio de empresas de apostas.

A própria Virginia está alinhada com esse novo modelo: além da tentativa de “reportar”, ela foi patrocinada por empresas de apostas ao longo da carreira, ganhando milhões (de dólares e de seguidores). Ela até foi convocada pelo Senado para ser ouvida enquanto testemunha na CPI das Apostas.

O relatório final da comissão pediu o indiciamento de 16 empresas ou indivíduos, incluindo Virgínia Fonseca. A relatora afirmou haver indícios para processá-la (e outra influenciadora chamada Deolane Bezerra) por crimes como publicidade enganosa, fraude, lavagem de dinheiro e uso de plataformas de apostas sem autorização legal. 

O colegiado da comissão, no entanto, rejeitou o relatório final.

Fonte: Cobertura da Copa do Mundo, apresentada por uma das maiores influenciadoras do Brasil
Feed: LatAm Journalism Review by the Knight Center
Url: latamjournalismreview.org
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