Como “desintoxicar” a cobertura jornalística sobre drogas na América Latina?
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19 agosto, 2026
Summary
Dezenas de jornalistas aprenderam a ampliar a cobertura sobre as drogas, indo além do tráfico e da criminalização, graças a uma iniciativa de mentoria que está prestes a lançar sua sétima edição.
Em 2022, a repórter Valentina Parada Lugo estava fazendo uma cobertura em Nariño, a região com maior produção de coca da Colômbia, quando começou a ouvir as histórias de mulheres que cozinham e realizam tarefas domésticas para os trabalhadores dos cultivos de coca.
Parada Lugo tinha experiência cobrindo a erradicação de drogas no departamento de Nariño, mas esta era a primeira vez que concentrava sua atenção nas mulheres que, embora não participem diretamente da produção de drogas, poderiam enfrentar as punições integrais do governo contra os narcotraficantes. Isso além de receberem baixos salários e serem vítimas de frequentes casos de assédio e violência sexual.
Parada Lugo transformou essas histórias em duas reportagens para o El País em 2024, que se afastavam da narrativa habitual de vilões e vítimas do narcotráfico para examinar a vida das mulheres que a indústria emprega em condições precárias. Ela fez isso como parte de sua participação em uma iniciativa do Fundo para Investigações e Novas Narrativas sobre Drogas, ou FINND, que questiona como os jornalistas podem cobrir o narcotráfico.
En Colombia, la mitad de las mujeres judicializadas lo están por delitos asociados al narcotráfico. Pero, lejos de ser un país de “Griseldas”, la mayoría ejercen las labores más frágiles, como ser las trabajadoras domésticas de los cocales.
Estas son #LasCocinerasDelCocal pic.twitter.com/UxvY5iRm1U— Valentina Parada Lugo (@valentinaplugo) September 15, 2024
“A história foi ganhando outro tom porque tentei também observar a agência política das mulheres, o papel que ocupam na cadeia das economias ilícitas, como elas veem a si mesmas”, disse Parada Lugo à LatAm Journalism Review (LJR). “Esse exercício de simplesmente questionar esses paradigmas sobre os quais já estamos apoiados é muito interessante e acho que é difícil de encontrar.”
O FINND, organizado pela Fundação Gabo e pela Open Society Foundations, permitiu que dezenas de jornalistas da América Latina explorassem novas formas de contar a história de um fenômeno que atravessa questões de saúde, educação, meio ambiente e pobreza. Com quase 90 investigações publicadas, o programa contribuiu para “desintoxicar” a narrativa da cobertura sobre drogas, disse Guillermo Garat, coordenador editorial do FINND, à LJR.
“No jornalismo, infelizmente, temos essa fragilidade de correr atrás das apreensões, dos discursos oficiais, de uma narrativa clássica que nos oferece uma visão muito enviesada”, disse Garat. “É preciso desconstruir o que aprendemos e começar a olhar essas pessoas, essas comunidades afetadas, de frente, e poder compreender outras formas de interpretar essa realidade.”
A sétima edição do programa será dedicada a coberturas focadas em questões da Colômbia e do México. A convocatória para os interessados em participar se encerra em 9 de setembro.
Outras abordagens, o mesmo rigor
Mudar a narrativa não significa romantizar o fenômeno das drogas, mas ampliar o olhar sobre o tema, segundo Miguel Montes, diretor de programas da Fundação Gabo.
“[Significa] que essa cobertura, afastada do estigma, dos preconceitos e da criminalização, possa aprofundar essas outras questões, essas outras perspectivas”, disse Montes à LJR. “Mas sempre baseada em evidências, em fatos verificados.”
Neldy San Martín, diretora editorial do veículo mexicano Causa Natura Media e participante da edição mais recente do FINND, disse que o programa a ajudou a refletir sobre como contar melhor as histórias das pessoas mais vulneráveis da cadeia de produção de drogas, que geralmente são equiparadas a grandes criminosos apesar de viverem situações de marginalização e abandono.
San Martín e seus colegas Diego Legrand e Lenin Ocampo produziram um vídeo-reportagem, “Paraquat, o veneno invisível da guerra contra as drogas no México”, publicado pela revista Proceso em junho deste ano. O trabalho aborda os efeitos do uso desse herbicida nas comunidades camponesas do estado mexicano de Guerrero.
“Este trabalho nos ajuda a nos colocar no lugar do outro, porque não sabemos o que faríamos em uma situação semelhante de pobreza, esquecimento e abandono institucional”, disse San Martín à LJR. “É um desafio, como jornalista, retratar isso em um vídeo ou em um texto, e o Fundo me ajudou a usar as palavras corretas [para] conseguir, por meio da narrativa, fazer com que as pessoas possam perceber e compreender o contexto.”
Por sua vez, Parada Lugo desenvolveu as reportagens “Um ofício invisível e violentado: as cozinheiras do cultivo de coca” e “‘Na lógica do tráfico, as mulheres no negócio são facilmente substituíveis’”. O primeiro trabalho aborda como as mulheres que alimentam os trabalhadores das plantações sobrevivem a todos os tipos de violência, da econômica à sexual. O segundo fala das punições morais, sociais e penais impostas a elas dentro do negócio das drogas ilegais.
As reportagens de San Martín e Parada Lugo retomam o tema das drogas a partir de perspectivas inovadoras e colocam no centro das histórias pessoas que normalmente ficam de fora da discussão, disse Garat.
“É um desafio ético não apresentar as vítimas apenas como vítimas, mas também a partir de seu lugar na cadeia, de seu lugar político na região e de sua agência como mães responsáveis pelo sustento da família”, disse Parada Lugo.
Desintoxicando a narrativa
À medida que o narcotráfico se sofisticou e se diversificou, o fenômeno das drogas exige uma cobertura mais ampla e profunda. O FINND surgiu em 2019 com o objetivo de promover um jornalismo que também proponha novas abordagens ao tema, com ênfase no aspecto humano. Ao longo de suas seis edições, mais de 250 profissionais de 12 países da América Latina participaram do programa.
¿Qué ideas sobre las drogas necesitamos desaprender?
La Fundación Gabo lanza ‘Todo lo que debes saber (y olvidar) de la narrativa sobre las drogas’, una guía que invita a cuestionar los estigmas y los discursos simplistas para abrirse a coberturas más amplias y profundas.… pic.twitter.com/OEj7W4dJm2
— Fundación Gabo (@FundacionGabo) July 21, 2026
“Isso permitiu que eles desintoxicassem a narrativa que muitas vezes envolve a cobertura de temas relacionados às drogas e percebessem os aspectos mais humanos que a cercam, e que nem tudo tem a ver com uma abordagem punitivista e de criminalização”, disse Montes.
O FINND consiste em bolsas de financiamento para projetos jornalísticos em texto, áudio, vídeo, multimídia e documentários. Esse financiamento busca facilitar, sobretudo, que os participantes realizem trabalho de campo, acrescentou Montes.
Os jornalistas selecionados também recebem mentorias, formação e acompanhamento durante o desenvolvimento de seus projetos por parte de uma rede de 19 jornalistas especialistas da região.
Este ano, será dada prioridade a projetos transnacionais que abordem temas entre a Colômbia e o México, dois dos países onde existe maior interesse sobre o assunto, acrescentou Montes. Além disso, pela primeira vez, será permitida a candidatura de criadores de conteúdo jornalístico que apresentem projetos para plataformas digitais.
Para o FINND, também tem sido importante realizar uma gestão abrangente de todo o conhecimento produzido. Por isso, ao longo dos anos, foram produzidos diferentes materiais e recursos para jornalistas da América Latina que queiram abordar perspectivas pouco exploradas sobre as drogas.
O mais recente é o guia “Tudo o que você precisa saber (e esquecer) sobre a narrativa das drogas”, lançado em julho, que aprofunda os conceitos relacionados ao que o Fundo considera as novas narrativas sobre drogas.
O guia, que pode ser baixado gratuitamente, também inclui uma caixa de ferramentas para construir histórias mais rigorosas, complexas e livres de estereótipos sobre as drogas, disse Montes.
Traduzido com assistência de IA e revisado por Leonardo Coelho
Feed: LatAm Journalism Review by the Knight Center
Url: latamjournalismreview.org